Procurando Rowling

Uma viagem por Edimburgo - cidade que inspirou elementos de Harry Potter
10 de outubro de 2016


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Mãos de JK. Rowling deixada em Edimburgo (foto: expedia.co.uk)

“Se você perguntar para qualquer estudante da cidade”, disse o guia, apontando o prédio meio-gótico e meio-vitoriano pela janela da van, falando com aquele sotaque escocês cantado que faz os erres vibrarem, “todos vão te dizer que Hogwarts foi inspirado no seu colégio, porque aqui todos os colégios parecem Hogwarts”.

Estávamos em Edimburgo, tentando aproveitar o máximo possível da cidade (e da Escócia de um modo geral) durante três dias e duas noites. Nós três — minha mãe e minha irmã — leitores de Harry Potter e fãs o suficiente para se darem conta, no momento em que colocamos os pés no centro histórico da cidade, que morando ali até parece fácil escrever uma saga de magia em sete livros. Cada pedra, rua, escadaria labiríntica ou edifício gótico parece imbuído de algum tipo de vibração literária — afinal, é a cidade de Stevenson, de Conan Doyle, de Irvine Welsh, e onde J. K. Rowling vive desde 1993.

Primeiro que um fã de Harry Potter, que pretenda visitar Edimburgo algum dia, deve ir necessariamente de trem — partindo de Londres na mesma estação de King’s Cross que Harry, Ron e Hermione; tirando fotos entrando na plataforma 3¼ sem medo do ridículo se você já passou da idade para entrar na fila entre a criançada (dica: fora do horário de pico fica vazio e ninguém vai notar), e batendo ponto na lojinha temática oficial, onde mesmo o menor chaveiro custa um rim e um fígado.

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Royal Mile no centro de Edimburgo (Foto: Samir Machado de Machado)

Na rua principal do centro histórico de Edimburgo, chamada Royal Mile, todos os músicos de rua parecem tocar gaita-de-foles — ame-a ou deixe-a —, e há tours gratuitos pelos pontos mais mal-assombrados. Ao longo de sua história, os escoceses tomaram certo gosto por mortes violentas — “ali morreu emparedada Mary Close, aqui o duque fulano convidou seus rivais para jantar e os matou na mesa, acolá uns tantos morreram de peste”. Fantasmas por todo lado. Mas quando cada prédio da cidade é mais antigo que o Descobrimento do Brasil, e ela própria parece um cenário de filme de fantasia medieval, é de se entender que nem os mortos queiram ir embora. Lojas de souvenires para turistas, de doces, livrarias e sebos, tartans e artigos de mágica se alternam pelas ruazinhas como se fosse o próprio Beco Diagonal, e no final da rua, está o Castelo de Edimburgo, com mais masmorras e fantasmas, à beira de um penhasco.

Nos arredores, a cafeteria The Elephant House anuncia na vitrine ser “o berço de Harry Potter”. Então foi ali que (reza a lenda) J. K. Rowling, com a filha a tiracolo, escreveu A Pedra Filosofal enquanto decidia se fazia cópias ou comprava mais leite? Não tivemos dúvida: entramos, pedimos um café e um doce, olhando ao redor e esperando não sei exatamente o quê — talvez, ser tomado pela mesma inspiração mágica de escrever um best-seller que arraste multidões? Ou talvez tomar um café com gosto de cerveja amanteigada? Nenhuma coisa nem outra. O cardápio era bem comum e, ao final, é só uma cafeteria, não um portal místico.

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Samir de Machado em frente ao The Elephant House – café onde JK. Rowling escreveu trechos de Harry Potter (Foto: Samir de Machado)

No segundo dia, embarcamos na van para um tour pelas Terras Altas. Ainda quando saíamos de Edimburgo, na ocasião em que o guia nos mostrava aquelas escolas que pareciam Hogwarts, a certa altura apontou o longo muro de um condomínio fechado. “Ali mora a J. K. Rowling”, disse, “que aliás comprou as casas dos vizinhos para não ser incomodada”. Não julgo, se eu pudesse faria o mesmo. Contei ao guia da nossa visita à cafeteria. Meio constrangido, ele nos explicou que várias cafeterias da cidade proclamam serem o berço de Harry Potter. Porque, naturalmente, Rowling não ia sempre na mesma tomar seu café e escrever. Não deu tempo de ficarmos decepcionados.

Vila de Pitlochry, nas Terras Altas, uma Hogsmeade da vida real (foto: Samir de Machado)

Após passar por cidadezinhas de interior — como a simpática Pitlochry, que parecia um clone de Hogsmeade —, a van chegava à beira do Lago Ness, onde alguns animais fantásticos supostamente habitam. Me ajoelhei e peguei uma pedrinha da beira do lago, sequei e guardei no bolso. Se cada pedaço daquela terra parecia imbuído de sua dose de mística e magia, então ao menos um iria me acompanhar de volta ao Brasil.

Samir Machado de Machado é escritor, autor de Homens Elegantes, lançado pela Rocco em 2016.

TAGS: Edimburgo, Harry Potter, HP, J.K. Rowling, JK. Rowling, Samir Machado de Machado,

Comentários sobre "Procurando Rowling"

  1. Isso tudo é lindo. Que maravilha poder saber, através dos relatos do Samir, um pouco mais sobre esse lugar tão especial e único onde o Mundo Bruxo de J.K. Rowling começou a ganhar vida.

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