Crime ou castigo?

por Bruno Garcia
7 de novembro de 2017


Na última semana de julho de 1918, Yakov Yurovsky, agente da polícia secreta soviética, reportou a Moscou que as ordens enviadas pelo partido haviam sido cumpridas. “Todo o procedimento levou vinte minutos”, disse o oficial. Procedimento é quase um jargão utilizado por burocratas, médicos ou qualquer tipo de funcionário para designar, do jeito mais seco, genérico e ascético, uma tarefa. Yurovsky, nesse caso, referia-se ao assassinato do czar Nicolau II, sua esposa, quatro filhas, seu filho mais novo, além de quatro membros de sua entourage.

Na sua descrição protocolar, ele se apresenta como funcionário obediente, cumpridor de ordens sem escrúpulos. Em outras palavras, trata-se de uma figura que se tornaria uma das marcas do século XX, o arquétipo do burocrata despido de juízo crítico que perpetra sentenças terríveis com uma notável violência desapaixonada. O “procedimento” em questão envolveu acordar a família e convencê-la a descer para o primeiro andar da Casa Ipatiev, onde se encontravam detidos: “devido à agitação na cidade, tornou-se necessário transferir a família lá para baixo. Será perigoso ficar no andar de cima caso haja tiroteio nas ruas”, justificou. Depois de agrupá-los, Yurovsky leu a sentença da condenação e, imediatamente, sem dar tempo às vítimas, ordenou o fuzilamento. Aqueles que sobreviveram aos tiros foram mortos pelas baionetas.

A cena é gráfica, de embrulhar o estômago, mas o historiador norte-americano Robert Massie opta por descrevê-la em detalhes. Em primeiro lugar, porque esse é seu compromisso como pesquisador, mas sobretudo porque desde os anos 1970 vem se ocupando em estudar e escrever sobre a vida privada dos Romanov. Revelar o desfecho dessa história era quase uma obsessão. O leitor atento certamente vai se perguntar como foi/é possível reconstituir a cena do assassinato de forma tão minuciosa. O resto do livro se encarrega de responder a pergunta: da campanha de desinformação conduzida pelo governo comunista à descoberta dos corpos por dois pesquisadores amadores, Massie parece refazer o percurso como um jornalista investigativo.

A pergunta sobre o motivo da execução, no entanto, raramente é discutida. O documento lido à família dizia: “tendo em vista o fato de que seus parentes continuam a atacar a Rússia Soviética, o Comitê Executivo do Ural decidiu executá-los”. A verdade é que a morte do czar era desejo antigo dos comunistas. Em 1903, em um encontro do Partido Operário Social-Democrata Russo, enquanto a grande maioria defendia o fim da pena capital, Lenin levantou a voz para dizer que aceitava a deliberação, desde que isso não se aplicasse ao Czar. Todos concordaram. Mais do que um ressentimento pessoal – uma hipótese até plausível, já que seu irmão mais velho havia sido enforcado por tramar um atentado contra o pai de Nicolau II -, Lenin expressara um ódio contra o governo imperial comum aos revolucionários russos do começo do século XX.

Nem sempre é fácil entender essa rejeição. Nicolau II é apresentado por Massie como um czar a contragosto; alguém sem o temperamento e a vontade de ocupar o cargo a que fora destinado. Um homem calmo, discreto, extremamente dedicado à família e ressentido por não poder passar mais tempo com os filhos. Talvez por combinar a falta dos atributos naturais de um autocrata com a necessidade de agir como um, Nicolau II muitas vezes perdeu o controle, se mostrando algumas horas ausente e outras excessivamente inflexível. Seus erros e contradições são notáveis. Apesar da admiração pela Inglaterra, onde acompanhou pessoalmente as atividades e o funcionamento do parlamento, ele resistiu a fazer da Rússia uma monarquia constitucional. Por falta de experiência, ou juízo, foi incapaz de evitar uma guerra desastrosa contra o Japão em 1904, um conflito no qual os próprios japoneses se mostravam reticentes em entrar. Para completar seu currículo, foi conivente com agressões e assassinatos contra os judeus.

É possível que tenha sido pego de surpresa pela sentença, mas Nicolau II provavelmente sabia do risco que ele e sua família corriam. Talvez imaginasse que teriam mais tempo para escapar, ou que o Exército Branco, formado por contrarrevolucionários, os resgataria. Porém, os brancos só conseguiram chegar a Ekaterinburg oito dias após a execução. Antes que o Exército Vermelho retomasse a região, tiveram tempo apenas para nomear um investigador e recolher poucas informações sobre o assassinato.

Por muito tempo essas informações foram as únicas evidências do que acontecera com a família. Os comunistas reconheceram a execução apenas na metade do século XX. No entanto, àquela altura, boatos e lendas já se multiplicavam tornando ainda mais confusa e difícil a tarefa de entender o que acontecera no verão de 1918. Foi preciso aguardar mais de setenta anos de dúvidas, boatos e impostores se passando por sobreviventes, para que finalmente a verdade fosse revelada.

*Bruno Garcia é historiador

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