Premonição macabra

por Martim Vasques da Cunha
11 de outubro de 2018


Martim Vasques da Cunha

And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I’m yearning
To be done with all this measuring of truth.
An eye for an eye
And a truth for a truth
And anyway I told the truth
But I’m afraid I told a lie.

Nick Cave and The Bad Seeds, “The Mercy Seat”.

Quando o formidável Um Nazista em Copacabana, de Ubiratan Muarrek, foi lançado no final de 2016, a maioria da crítica literária o tratou como se fosse um romance picaresco de costumes. Agora, com o advento do “novo tempo do mundo” – como diria o filósofo Paulo Eduardo Arantes no livro de mesmo título – após as eleições de 2018, ficou evidente que os nossos críticos nunca entenderam este livro pelo que ele é realmente: uma espécie de filme de horror que antevê, prenuncia e profetiza, com toques macabros e de humor negro, o futuro que nos aguarda.

O exemplo cristalino disso está na (já memorável) cena do jantar em uma mega-cobertura onde estão alguns membros dos “grã-finos” paulistas. Ela é também o clímax de toda a inusitada trama criada por Muarrek para mostrar a essência do brasileiro. Nesta sequência, digna de um Lars Von Trier regado a mescalina, prova-se que a literatura nacional contemporânea também sabe fazer os seus painéis romanescos sobre a recente história do país (e não deixa nada a dever a um Jonathan Franzen, por exemplo, apesar de que eu tenho quase a certeza de que Muarrek se inspirou em Joel Silveira para conceber este banquete macabro). E o melhor: sem cair na ideologia política barata, preocupando-se somente com aquilo que vale a pena – o ser humano em suas nuances. No caso, a cena envolve os personagens Delúbio (sim, o homônimo do notório tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, condenado no escândalo do Mensalão), Diana Verônica (só no Brasil para existir esse tipo de nome composto), além de uma plêiade de noveaux riches que, de repente, mais que de repente, subiram de vida via os labirintos da insalubre cidade de São Bernardo do Campo (sim, a base eleitoral de Luiz Inácio, o Lula) – além de um intrigante menino loiro, de cabelo partido, chamado Edward, e que pela descrição parece ser similar ao David Bowie da fase do álbum Low (1977), o Thin White Duke que jamais hesitaria gritar a um “heil!” ao nazista de subúrbio mais próximo.

Não sei se foi a intenção de Muarrek, mas tal episódio também me fez lembrar a longa cena do jantar na casa de Seymour Levov, apelidado de “O Sueco”, famoso personagem do romance Pastoral Americana (1997), de Philip Roth, falecido justamente neste mesmo ano em que o Brasil resolveu se autodestruir. Ali, está tudo o que se pode esperar de um livro de Roth: as neuroses do sujeito que acaba de descobrir que a vida é nada mais, nada menos do que o caos; os pensamentos sem nenhuma coordenação de alguém que vê o outro à sua frente como uma máscara a qual está ali apenas para enganá-lo; as idas e as voltas do narrador em terceira pessoa que não para de viajar no tempo (mas que, no fim das contas, é um Nathan Zuckerman a imaginar o que teria acontecido com seu ídolo de infância); a inevitável cena em que se descobre (com uma boa dose de sarcasmo) o adultério da amada esposa. Enfim, o pacote completo de virtuosismo literário que só o Bardo de Newark era capaz de nos proporcionar. Mas o que importa mesmo ali é o momento de suspense para o que será discutido no jantar – e que Muarrek emulará com sucesso em Um Nazista em Copacabana: a inevitável queda das civilizações ocidentais, simbolizada pela América (no nosso caso, o Brasil mal chegou a tal aspiração).

Se em Pastoral Americana, Roth faz um típico jantar americano, com verduras, legumes, massa e um vinho tinto, o que temos em Um Nazista em Copacabana é um smorgasbord, um banquete escandinavo que nos remete à Henrik Ibsen justamente porque o jantar em questão é uma homenagem consciente a este dramaturgo. Muarrek tem uma escrita frenética, porém detalhista, que vai do foco em discurso direto para o indireto em uma questão de virgulas (ou, no caso específico do seu estilo, repleto de frases longas, separadas apenas por um ponto-e-vírgula), no qual o pensamento de um personagem toma forma por meio de um “objetivo correlato” que concretiza a sua angústia interior, mesmo que ele não perceba isso (o grande exemplo dessa técnica é outra cena magistral no romance, a do encontro de Delúbio com um pássaro que fica preso em uma claustrofóbica sala de reuniões onde se acertará a típica propina superfaturada de alguma construção já corrompida e já corrupta). Só um virtuoso da literatura conseguiria resumir o totalitarismo cultural que o Brasil vive em um único jantar – e Muarrek faz isso sem cair no grotesco e, ao mesmo tempo, transmitindo um imenso (e intenso) carinho pelos seus personagens, em especial os crápulas e os desvalidos. No seu smorgasbord, ele mostra um país que enriqueceu repentinamente, sem se curar da sua pobreza moral, quiçá espiritual, e que também criou, para seus cidadãos, uma nova jabuticaba parecida com o 13º salário desprezado pelo Gen. Mourão: o nazismo macunaímico. Ali, não há comida que aguente tamanha indigestão. Descobrimos, graças à destreza narrativa de Muarrek, que o país se tornou um grande prato cheio de sobras, um cocho onde nem um cachorro acredita ser digno de mergulhar o seu focinho.

Os jantares de Philip Roth e Ubiratan Muarrek, descritos acima, mostram aquela verdadeira obsessão do escritor na procura da cena perfeita que possa sintetizar um determinado Zeitgeist. A regra implícita é que não pode ser qualquer cena. Ela deve ser, de preferência, algo que envolva comida, seja no sentido literal ou no metafórico (inclusive sexual, é claro), semelhante ao que Platão fez no Symposium. Trata-se de uma espantosa coincidência que essas cenas nos remetam não só ao autor de A República – este tratado sobre a política e que foi jogado às traças na última semana por essas bandas tupiniquins –, mas também ao aforismo atribuído a Proudhon – “Você é o que come” –, cuja afirmação descobrimos não passar de uma bravata. Para sermos explícitos: o que Muarrek vislumbrou em Um Nazista em Copacabana a respeito dos últimos eventos históricos brasileiros é que não, você não é o que come. Você é aquilo que deseja – e temos de ser cuidadosos para não termos as nossas preces por renovação política sendo finalmente atendidas, pois, quando isso acontecer, experimentaremos o vazio que nos consome por dentro, desde o início dos tempos.

Por isso, não vejo nenhum exagero comparar as estratégias literárias – e proféticas – de Muarrek com as de outra autora contemporânea. É claro que não há nenhum jantar grandioso em História do Novo Sobrenome (2013), segundo volume das chamadas “novelas napolitanas” escritas pela misteriosa Elena Ferrante. Em compensação, a comida aqui é o próprio sexo, o desejo que motiva a ciranda amorosa das amigas de infância Lina e Lenú, numa obsessão demoníaca que as acompanha desde o primeiro volume, o admirável A Amiga Genial (2012). Pouco importa quem é a verdadeira identidade de Ferrante, mas sim o indiscutível fato de que ela é uma mestra, capaz de registrar em pouco mais de duzentas páginas todo o ritual da perda definitiva da inocência que envolve suas personagens, quando ambas passam as férias nas praias de Ischia, na Itália. A sequência é digna de um Proust. Aqui, Ferrante nos mostra que o verdadeiro perigo do sexo não é o desejo em si, mas o seu desconhecimento em relação a ele, em especial ao fato de que ninguém tem controle sobre coisa alguma e que estamos sempre à deriva (não à toa que Lenú explica à sua melhor amiga, Lina, que ela está errática em seu comportamento porque “é o mar que faz isso com as pessoas”). E mais: ao narrar a cena em que Lenú perde a virgindade, o acontecimento é descrito como se fosse uma descida aos infernos, na percepção de uma realidade tão profunda que sequer o amor ou o sexo podem apreendê-la corretamente. Talvez seja o que aconteça com todos nós. Mas talvez seja também o fato de que, em um “novo tempo do mundo” governado por Jair Bolsonaro e Donald Trump, nem uma jovem pode se dar ao luxo de dar uma boa foda.

Estas observações antropofágicas, por assim dizer, convergem para uma conclusão terrível de que, tanto nos exemplos dramatizados por Muarrek como nas cenas elaboradas por Philip Roth e Elena Ferrante, o que temos descrito é uma verdade a qual poucos têm a coragem de articular, mas que foi feita por Alberon Waugh (sim, o filho de Evelyn) neste diagnóstico implacável a seguir, muito melhor do que qualquer outra coisa feita por algum discípulo do Dr. Freud:

“A sociedade deve aceitar que o desejo de poder é uma desordem de personalidade por si só, como o desejo de ter uma relação sexual com uma criança ou de sentir a textura de borracha embaixo de suas roupas. (…) A política, nunca canso de me dizer, é para deslocados sociais e emocionais, gente com inteligência limitada, que têm nada além de rancor em suas emoções. O propósito da política, para eles, é ajudá-los a superar essas limitações e esses sentimentos de inferioridade e compensar as suas inadequações pessoais na procura pelo poder. E isso sem dúvida causa muito mais infelicidade do que felicidade”.

Em Um Nazista em Copacabana temos a anatomia desta infelicidade, levada às últimas consequências, pois este romance mostra o que acontece quando todo um país fica absolutamente possesso por este “desejo de poder” descomunal. Aparentemente, não há o que fazer. Contudo, se Ubiratan Muarrek permanecesse nessa paralisia, ele não estaria fazendo grande literatura. Teria feito apenas uma bula de remédio para uma cura que jamais existirá. Mas, para a nossa felicidade, não é este o seu caso. O final de Um Nazista dá a solução para este nosso “novo tempo do mundo” ao estabelecer algo muito mais simples: a esperança. Quando Delúbio e Diana Verônica se reencontram no sítio do pai dele, recém-falecido, no interior das Minas Gerais, resta apenas a conclusão de que, ao contrário do que fala a canção de Nick Cave que serve como epígrafe para este texto, não devemos mentir quando sentamos no trono da misericórdia. O amor, o ato de perdoar e a paciência superam qualquer smorgasbord, qualquer propina, qualquer poder que oprimem nossos afetos. O casal Delúbio e Diana Verônica, com sua singela (e picaresca) história de amor, mostra a verdade que há nesta lição de vida proferida por ninguém menos que o filósofo alemão Eric Voegelin em seu fundamental Science, Politics and Gnosticism: “Ninguém é obrigado a participar na crise espiritual da sociedade; pelo contrário, todos são obrigados a evitar a loucura e a viverem a sua vida em ordem”. No caos atual do Brasil, a literatura de Ubiratan Muarrek é a prova final de que ainda há uma saída para o beco sem saída onde nos encontramos. Portanto, nem tudo está perdido.

Martim Vasques da Cunha é autor dos livros Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP.

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