Percorrendo novos caminhos com Clarice

Entrevista com a ilustradora Suryara
16 de outubro de 2014


Ilustração de Suryara para "Curupira, o danadinho", lenda do mês de julho em "Doze lendas brasileiras".

Ilustração de Suryara para “Curupira, o danadinho”, lenda do mês de julho em “Doze lendas brasileiras”.

Em sua trajetória profissional, ela trabalhou inúmeras vezes com textos relacionados às lendas e ao folclore brasileiro. Mas ilustrar um livro de contos populares narrados por Clarice Lispector foi um desafio diferente para a goiana Suryara. Radicada em Belo Horizonte, a artista, que hoje cria todos os seus desenhos no meio digital, foi buscar, nos textos cheios de sutilezas e significados da escritora e nas referências visuais de toda a cultura relacionada ao tema, os elementos para a narrativa visual das histórias reunidas na nova edição de Doze lendas brasileiras – Como nasceram as estrelas.

Na entrevista abaixo, Suryara fala do processo de trabalho com o livro – que chega às prateleiras neste mês das crianças pelo selo Rocco Pequenos Leitores, dando continuidade ao projeto de reedição da obra infantil de Clarice Lispector com novo projeto gráfico –, e também de sua carreira e rotina, suas influências e de sua maior motivação como ilustradora.

Você já conhecia a obra infantil de Clarice Lispector quando foi convidada para ilustrar Doze lendas brasileiras? O que mais surpreendeu você nas histórias contadas pela escritora para crianças?
Eu conhecia os livros infantis da Clarice, e para mim sempre foi surpreendente a forma como ela conduz a narrativa para as crianças. Os textos são quase como conversas em um fim de tarde, e esse estilo faz com que o leitor realmente se aproxime de quem conta a história.

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Ilustração de Suryara para “Uma festança na floresta”, conto do mês de junho em “Doze lendas brasileiras”.

Quais são as suas principais motivações e o seu principal desejo quando você inicia o trabalho com um novo livro?
Tenho um desejo secreto de que alguma criança sinta vontade de ilustrar ou contar histórias após ler um livro – risos. Desde minha infância, os livros ilustrados sempre foram muito presentes na minha vida e foram importantes para influenciar minha escolha profissional. Entre minhas motivações está o fascínio que a ilustração sempre me causou, pois o papel do ilustrador de oferecer uma nova narrativa em conjunto com o texto literário auxilia o leitor a percorrer novos caminhos.

Quais foram as suas referências ou inspirações para ilustrar Doze lendas brasileiras? Conte um pouco do processo de trabalho com o livro.
Desde o início de minha trajetória como ilustradora eu lido com textos relacionados às lendas e ao folclore brasileiro. A riqueza de histórias regionais no Brasil, com sua mistura de culturas indígenas, africanas e europeias, é um terreno muito fértil para desenvolver novas histórias fantásticas. Na minha opinião, são essas histórias fantásticas que abrem as melhores possibilidades para a ilustração, que ganha um contexto e identidade cada vez mais brasileiros. Neste livro, além das referências no texto da Clarice eu também busquei outras referências visuais nas lendas e na cultura relacionada para me inspirar na criação dos personagens, criaturas e cores que habitam suas páginas.

Qual é o maior desafio ao ilustrar um livro de histórias que fazem parte da tradição popular, muitas delas já conhecidas pelo público?
Além do grande desafio que é ilustrar Clarice e conseguir criar imagens para textos tão cheios de sutilezas e significados, outro pronto para mim foi tentar representar de forma nova algo que já faz parte do imaginário popular. É interessante também pensar na tradição de oralidade dessas histórias, que oferece variações a cada novo contador com seus trejeitos e entonações. De certa forma, cada novo ilustrador contará a história visualmente de um modo particular, sempre com uma coisa nova a oferecer ao leitor.

Ilustração de Suryara para "Alvoroço de festa no céu", lenda do mês de fevereiro em "Doze lendas brasileiras".

Ilustração de Suryara para “Alvoroço de festa no céu”, lenda do mês de fevereiro em “Doze lendas brasileiras”.

Conte um pouco da sua trajetória e de sua rotina como ilustradora.
Minha formação é como designer gráfico, mas sempre tive interesse em explorar a ilustração. Também tenho influências e experiência com trabalho de desenho animado, e isso me ajuda a pensar nas minhas ilustrações pelo ponto de vista do movimento dos personagens e de sempre buscar pitadas de humor nos meus trabalhos. Há alguns anos me dedico exclusivamente à ilustração de livros e revistas, e sempre tive oportunidades de ilustrar histórias relacionadas à cultura brasileira, o que também é um constante aprendizado sobre quem somos. Sobre minha rotina como ilustradora, a música é uma parte fundamental do meu trabalho: cada novo projeto tem uma trilha sonora que escolho para me acompanhar durante a jornada. As minhas ilustrações hoje são totalmente criadas no meio digital, cujas possibilidades visuais eu busco explorar sem perder as minhas características de traço e das texturas de papel e tinta.

Recentemente, você foi uma das artistas brasileiras convidadas para participar da NY Art Book Fair, o principal evento de livros de ilustrados, catálogos e outros produtos gráficos, organizado pelo MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova York. Como foi essa experiência? É possível traçar uma comparação entre o mercado de livros infantis ilustrados no Brasil e nos EUA, tanto para o leitor quanto para quem trabalha nesse mercado?
Confesso que fui pega de surpresa por essa ótima notícia. O convite veio por meio da Ilustríssima, que comercializa cartazes e canecas ilustrados por vários artistas do Brasil e que possui alguns trabalhos meus no seu catálogo. Fiquei muito feliz por ter sido uma das selecionadas para participar do evento. Eu conheço pouco do mercado de livros infantis ilustrados nos EUA para fazer uma comparação, mas sei da força do mercado brasileiro e da grande qualidade dos livros produzidos por aqui.

 A força do sonho, Clarice Lispector reflete sobre a riqueza das lendas.

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