Para os novos leitores, um velho e adorável sentimento

por Luiz Guilherme Boneto
5 de fevereiro de 2015


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Detalhes das sete capas da série publicada no Brasil pela Rocco. [Créditos: bulana.com]

O ano é 2050. Ou pode ser 2100, a seu critério. Imagine alguém em algum canto do mundo, talvez numa metrópole europeia, numa vila no interior da Ásia, ou quem sabe na sua cidade aqui mesmo, no Brasil. Esse alguém vai iniciar a leitura de um livro, pelo qual vai se apaixonar perdidamente. É bem provável que o livro em questão fosse, caso presumamos que esse alguém seja muito jovem, o primeiro que lerá na vida. E as palavras com as quais ele se inicia são “O Sr. e a Sra. Dursley, da Rua dos Alfeneiros, nº 4…”.

Posso desejar a esse jovem uma série de coisas. Em 2050 provavelmente ainda estarei vivo – serei um velhinho bem simpático, espero. Conhecendo ou não o nosso iniciante, espero apenas que ele possa viver toda esta magia como eu vivi, que ele possa virar cada página sentindo as mesmas emoções e o mesmo intenso prazer que eu senti quando lia cada um dos volumes da série pela primeira vez, e pela segunda, e pela terceira…

Espero também que Harry Potter passe a esse jovem as mesmas lições que passou a mim, de tolerância, retidão moral, amizade, compaixão, e que todas elas influenciem positivamente na formação de seu caráter. Desejo que esse garoto ou essa garota veja a segregação imposta por Voldemort como apenas a sombra de um passado que lamentavelmente existiu também no mundo dos trouxas, e que jamais a veja como algo corriqueiro e aceitável. Espero que o preconceito deixe-o chocado, como qualquer outra maldade que possa ocorrer no mundo, e desejo profundamente que esse tipo horroroso de julgamento seja raro na sociedade que encontrar.

Proponho esse breve exercício de imaginação com um único intuito: refletir sobre o futuro leitor de Harry Potter, no universo no qual estará inserido. Certamente que todas as mudanças sociais e geopolíticas que o mundo sofrerá com o passar dos anos poderão mudar a forma como os futuros leitores verão a série. Há, porém, uma certeza – Harry Potter é eterno. Não é possível calcular quantas pessoas seguem iniciando a leitura da série, pela primeira vez ou não, dezoito anos após o seu lançamento inicial, no Reino Unido. A primeira obra de J.K. Rowling tem uma característica muito peculiar: embora não seja voltada unicamente para crianças, ela tem o poder de iniciar a garotada no mundo da leitura. Quem lê Harry Potter vai se encantar, e vai buscar em outros livros um prazer parecido. Ocorre que não é muito fácil encontrar a mesma magia em outras obras – daí o motivo de termos relido a série tantas vezes.

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O futuro leitor de Harry Potter vai se deparar com uma série de livros tão fantástica quanto a que eu encontrei quando iniciei a minha leitura da série, ainda que possa encará-la de maneira distinta. Harry Potter e a pedra filosofal foi o primeiro livro que eu li na vida – e devo tê-lo relido ao menos doze ou treze vezes, pelos meus cálculos. Houve um momento em que eu me considerava especialista em Harry Potter – dedicava minhas tardes às leituras da série, era capaz de encontrar trechos escondidos nos livros e debater questões pequenas. Conforme ia amadurecendo e sendo acompanhado por Harry Potter nesse processo, deixei de encarar a obra de maneira infantil e passei a observar melhor a maneira genial e muito sutil como J.K. Rowling trabalha algumas questões, como a sexualidade – há um grande personagem gay na série, sabia? –, a amizade, a busca pela igualdade entre todos e o fim do preconceito e da segregação. Jo traça um paralelo com eventos que as pessoas procuram esquecer, mas não deveriam. A meu ver, o fato de que a humanidade considerou algumas “raças – com todo o horror que essa palavra carrega – superiores às outras é algo que deve ser lembrado todos os dias, e repisado muitas vezes para que não aconteça nunca mais.

No final de 2014, me formei em jornalismo. Tenho de igual modo o imenso prazer de escrever para o Potterish desde 2010, bem como para outros sites, nos quais trato de vários assuntos, e honestamente não acredito que meu gosto pela leitura e pela escrita tenha vindo de um dom divino – foi algo desenvolvido durante a minha adolescência inteira. E se houve uma série de livros que teve papel crucial na elaboração do meu espírito crítico, definitivamente foi Harry Potter. Esse poder, de não apenas criar gosto pela leitura, mas de transmitir valores e auxiliar na formação moral e no desenvolvimento do espírito crítico, é um aspecto que Harry Potter manterá para sempre. Se livros são companheiros para a vida toda, a nossa série é também uma amiga, e haverá de sê-lo também para muitos outros que virão depois de nós.

 Luiz Guilherme Boneto é membro do Potterish.

 

 

TAGS: Harry Potter, J.K. Rowling, Potterish,

Comentários sobre "Para os novos leitores, um velho e adorável sentimento"

  1. Tive que compartilhar esse texto. Harry Potter é incrível e minha adolescência não teria sido a mesma se não fosse por essa história. Realmente espero que a história continue encantando tantos leitores como me encantou.

  2. Terminei de ler seu texto chorando. Exatamente como eu me sinto. Às vezes me pego pensando se teria escolhido ser jornalista, uma profissão que exige amor pela leitura, se não tivesse lido HP quando tinha 13 anos… Estou emocionada. Obrigada pelo texto inspirador! Que muitos e muitos jovens tenham a oportunidade de crescer e amadurecer com a história do memino que sobreviveu, assim como nós.

  3. Linda a mensagem! Harry Potter não foi o meu primeiro livro, mas foi a minha primeira saga. Anos esperando os lançamentos dos filmes; anos aprendendo que se pode amar, mesmo sem dizer “eu te amo”. Anos aprendendo que o “Fácil” nem sempre é o “certo” e que achar as pessoas amigas são fundamentais para os momentos de dificuldades. Aprender que o “Herói” não é aquele que fez por fazer e sim porque precisava fazer. Aprender que o amor de mãe é o maior escudo que podemos ter, mesmo que em alguns casos não temos a oportunidade de conhece-las; Aprender que a pessoa, por mais “odiosa” que possa ser, é aquela pessoa fundamental para teu amadurecimento. Aprender que os Sábios também erram. Enfim, Harry Potter ensinou-me tudo isso e muito mais. Espero que um dia, futuros leitores possam ter esses mesmo ensinamentos que tive durante minha infância e adolescência.
    Boa noite

  4. Texto fantástico que só expõe fatos que comprovam que Harry Potter influencia e influenciou no amor e no hábito de muitos pela leitura (e pela escrita também, porque não?). O que fez com que eu me identificasse com o texto foi que Harry Potter realmente influenciou os meus hábitos de leitura, eu sempre amei ler, mas se eu leio com a frequência, é tudo culpa da Jo! Além da influência no amor de muitos pela leitura, o texto mostra que a série realmente expõe da maneira mais sutil possível o que ainda é corriqueiro na sociedade, o que é lamentável. E agora, resta alguma dúvida de que Harry Potter, ao lado de obras como As crônicas de Nárnia, O hobbit e O senhor dos aneis, está no rol de clássicos da literatura fantástica, queridos e amados por aqueles que tiveram, têm e terão a deliciosa oportunidade de apreciá-los, além de conquistarem inúmeros reconhecimentos e homenagens?

  5. Luiz,

    Li o texto e lembrei de minha própria experiência com a história do Harry. Embora já houvesse há tempos desenvolvido o gosto pela leitura, encontrei nestes livros aquela familiar sensação que nos toma, ao encararmos uma história com o potencial de realmente “mexer” com nossas emoções. É simplesmente impossível ler esta obra de Rowling sem continuar sendo “afetado” por ela ao longo da vida.

    Sim, o que aconteceu foi que minha fascinação pelo universo desses livros somente aumentou, e reputo Harry Potter como uma das melhores histórias que já li (mesmo sendo um cara de 20 anos, novo ainda). Então, é claro que não poderia deixar de aqui relatar minha própria experiência, a de somente um simples fã dessa série tão fantástica.

    Um abraço,
    William

  6. Linda mensagem, cara! Concordo em tudo, especialmente nesse trecho: “embora não seja voltada unicamente para crianças, ela tem o poder de iniciar a garotada no mundo da leitura.”
    Sou a prova disso! Depois de assistir todos os filmes de HP e descobrir que eram diferentes dos livros em várias coisas, comecei a ter o desejo de ler a saga, e depois que li, comecei a ler outras sagas, trilogias e livros únicos.
    Hoje em dia, simplesmente não posso viver sem livros, e tenho orgulho de dizer que esse amor pelos livros é graças a HP, e que mesmo já tendo lido várias sagas e trilogias, na minha opinião, nenhuma supera Harry Potter.
    Muito obrigado por presentear os fãs com esse texto maravilhoso!

  7. Achei o que você escreveu lindo e concordo plenamente. Antes eu não tinha interesse em ler livro algum até conhecer Harry Potter, depois que eu conheci ainda demorei muito pra ler, até que em um belo certo dia em 2006 pedi a uma colega de sala a Ordem da Fênix emprestado. Depois que eu li não parei mais e foi graças a J.K.Rowling que até hoje sou viciado e compulsivo em livros, não só dela, mas também como de outros escritores.

  8. Sempre que penso nessa série de livros é com lágrimas nos olhos, porque lembro de tantos momentos que passei e era com algum desses volumes nas mãos. Amigos que fiz, dificuldades que enfrentei, momentos de diversão e aprendizado. Esse texto traduz o sentimento de muitos que acompanharam o desenvolvimento dessa história que vai muito além de um menino que um dia descobriu ser um bruxo importante. Foi algo que marcou minha personalidade sem dúvida. Assim como o autor, Luis Guilerme Boneto, minha profissão (sou profesora) também é marcada por essa vivência. E todas as vezes que alguém vem falar comigo sobre sua incursão neste universo HP é para mim uma satisfação, pois sei que este alguém também terá essa lembrança, esse sentimento bom e esses amigos na sua vida.

  9. Sempre que penso nessa série de livros é com lágrimas nos olhos, porque lembro de tantos momentos que passei e era com algum desses volumes nas mãos. Amigos que fiz, dificuldades que enfrentei, momentos de diversão e aprendizado. Esse texto traduz o sentimento de muitos que acompanharam o desenvolvimento dessa história que vai muito além de um menino que um dia descobriu ser um bruxo importante. Foi algo que marcou minha personalidade sem dúvida. Assim como o autor, Luis Guilerme Boneto, minha profissão (sou profesora) também é marcada por essa vivência. E todas as vezes que alguém vem falar comigo sobre sua incursão neste universo HP é para mim uma satisfação, pois sei que este alguém também terá essa lembrança, esse sentimento bom e esses amigos na sua vida.

  10. Tem sempre aquela lágrima que escapa no canto do olho.

    A sensação que tenho mais fresca na memória é do tempo de espera entre um livro e outro. Quando terminei o Cálice de Fogo, a Ordem da Fênix ainda não havia sido lançado.
    A ansiedade pra saber o que aconteceria, a falta de um livro na mão (porque a essa altura, ler já tinha se tornado meu principal hobbie) me fez devorar outros livros que havia em casa, ao alcance.
    Foi uma fase muito boa, mas o encanto não passou. Me peguei esses dias no Pottermore, cultivando aquela sensação tão familiar, como quando entro em um lugar que freqüentei por muitos e bons anos.

  11. Luiz ,
    Quero dizer que agradeço muito por ter colocado em palavras todo o amor que sinto por Harry Potter. Você conseguiu descrever clara e fielmente a minha sensação ao esperar livro após livro, filme após filme; discutindo em blogs sobre questões do livro. Harry Potter não foi o primeiro livro que li mas com certeza foi um dos mais importantes pois cultivou ainda mais o meu hábito pela leitura que antes está apenas iniciando e com Harry Potter, tornei-me uma leitora voraz, sempre terminando um livro e ansiando por iniciar outro. As lições aprendidas em Harry Potter continuarão em meu coração por toda vida e espero passá-las adiante. Muito Obrigada por compartilhar este textos com todos os nós fãs de Harry Potter. Terminei de ler seu texto chorando ao lembrar de vários momentos que passei junto a esta saga.

  12. Hipocrisia, a gente vê por aqui!!!

    Incrível que 90% dos fãs de HP na época do final da saga (2010-2011) esnobavam os novos fãs da época, chamavam-nos de ”poser” e se achavam superiores por serem fãs há mais tempo. Atitude ridícula e inaceitável. Foi um pouco depois de 2011 que comecei a me encantar com HP, e não consegui passar nem 1 ano direito, pois os fãs são tão insuportáveis e prepotentes que aos poucos fui me desinteressando e finalmente largando todo o material de HP.

  13. Estou no término de meu livro, não sei se coincide exatamente com HP, mas o livro é de magia. Espero publicar um dia, mesmo que não publique eu vou soltar o suspiro de “eu escrevi um livro de bruxaria, dei outros olhos para um Harry Potter que já foi criança, o meu é o novo Harry Potter”.

  14. Amei o texto! É tão bom saber que a série HP ainda vive. Eu já tinha gosto pela leitura, conhecia o Harry pelos filmes. Um dia, na biblioteca da escola peguei um exemplar do Prisioneiro de Azkaban e resolvi que começaria a ler HP. Meu Deus!! Nunca pensei que aquela história ia me encantar tanto, depois que li o 3º, li até a Ordem da Fênix e voltei para o 1º, depois fui acompanhando os lançamentos dos livros e filmes, até que comprei todos os livros e filmes para ler e assistir. Quando eu me sentir pra baixo ou quando estou feliz, HP me ajuda a refletir sobre a vida. Desde que descobri HP o meu gosto por leitura tem sido ávido, termino um livro e já começo outro. Conheci muitos mundos, mas esse mundo maravilhoso nunca vai ser substituído, simplesmente é para sempre.

  15. Adorei o texto! Revela o sentimento de um fã de uma saga tão especial como Harry Potter. Eu comecei a gostar de Harry Potter no ano de 2001, aos meus nove anos, quando lançou a Pedra Filosofal no cinema e foi ali que a saga me encantou bastante. Então eu passei a assistir até as Relíquias da morte parte 2. Me lembro das filas enormes que pegava para assistir os filmes no cinema, as pessoas aplaudiam nas salas quando viam o símbolo da Warner Bros. Só no ano de 2012 que me deu vontade de ler os livros. Sempre me falavam que os livros eram bem diferentes e então me bateu a curiosidade de partir para a leitura de Harry Potter. Até hoje leio esses livros . Quando termino de ler o último livro , já me bate a saudade e me dá vontade de ler do primeiro livro de novo. Espero que as pessoas que começaram a gostar da saga agora consigam interpretar as mensagens obtidas nos filmes ou livros, principalmente as de Dumbledore. Harry Potter até hoje faz parte da minha infância e juventude. Obrigado, J.K. Rowling por fazer esta saga tão encantadora!

  16. Nossa que texto emocionante, amei!

    Bom, ainda me lembro claramente do meu primeiro contato com a saga. Foi nas férias de julho, quando eu morava no interior. Meu tio foi me visitar e levou os quatro primeiros filmes da saga (na época, estava sendo gravado o quinto filme/livro). Sentamos todos na sala para vê-lo. Quando vi aquele mundo pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Hogwarts tão fantástica, me apaixonei. Sempre assistia, mas comecei acompanhar mesmo a saga foi em 2010 onde comecei a ler os livros virtuais, bem os livros são fascinantes, envolventes, sabem prender a atenção do leitor, não conseguia parar de ler, mas os filmes também são ótimos.

    Apesar de HP não ser meu primeiro livro, é o meu numero 01. Posso ler mais de mil vezes e sempre sentirei as mesmas emoções, nunca ira mudar. Amo essa saga, HP me ajudou muito as frases de Dumbledore, sempre tão sábias, me davam incentivos para nunca desistir, não ficar triste.

    Esse amor por HP só aumenta a cada dia mais e mais. Fico feliz que novos leitores estejam interessados em ler a saga, gostam e se apaixonam como nós fizemos um dia.
    Hoje o amor continua, fico emocionada de ver alguém lendo um livro. É incrível saber que apesar de anos ainda a pessoas interessadas na leitura do livro.
    Sinto muita saudade do tempo daquele euforia, expectativa e uma emoção inexplicável.
    Mas enfim, J.K., obrigada por tudo! HP é vida! Simplesmente obrigada, por tornar tudo isso possível.

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