Papo de bar: o detetive como leitor

por Alvaro Costa e Silva
26 de maio de 2017


Um perigoso serial killer está à solta nas ruas do Rio. Um serial killer com gosto especial: com injeções de estricnina, ele mata escritores de autoajuda. São autores que fazem fortunas com títulos como “Se você pode eu também posso e aí é que eu quero ver” e “Jesus era magro: e você?”, mas cujo sucesso não impede que terminem suas vidas com um risus sardonicus.

A dupla de detetives André & Gordo – que já protagonizou os romances “O campeonato” (2009) e “O livro roubado (2013), ambos lançados pela Rocco – é encarregada de desvendar o mistério. Como nos livros anteriores, os dois são dotados de ferramentas especiais para a investigação: um vasto conhecimento dos clássicos da literatura policial. Neste caso, as pistas a seguir saem das páginas de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, mestres do romance noir americano.

O escritor Flávio Carneiro explica a arquitetura de sua ficção policial: um sofisticado entretenimento para o leitor que, ao mesmo tempo, é uma homenagem a um dos gêneros mais populares da literatura.

A questão da leitura

Muitas vezes você é atraído pelo mistério do crime: o que leva uma pessoa a matar. Mas meu principal interesse – aquele que atravessa toda a minha obra – é a questão da leitura. O meu detetive é um leitor. Por isso a série inteira, com as aventuras da dupla André & Gordo, gira em torno de livros.

Primeira aventura

Quando fiz o primeiro livro da dupla, “O campeonato”, ainda não havia um projeto. Escrevi uma história de detetive, com dois personagens amadores e jovens, na faixa dos 20 anos, que são apaixonados por literatura policial. A única referência que eles têm na hora de investigar é a memória da leitura. “O que Sherlock Holmes faria se estivesse em nosso lugar?”, eles se perguntavam. No centro da trama, coloquei um conto de Rubem Fonseca. E aí descobri que poderia escrever uma série, na qual cada livro fosse uma homenagem a uma obra ou a um autor. O segundo romance, “O livro roubado”, é uma homenagem a Edgar Allan Poe.

A grande biblioteca

Meus livros são pensados a partir de uma grande biblioteca. No caso, uma biblioteca de livros policiais. Neste terceiro volume da série, “Um romance perigoso”, a homenagem é ao gênero negro ou noir, e a dois de seus maiores cultores e, de certa maneira, os seus inventores: Dashiell Hamett e Raymond Chandler.

André & Gordo

A dupla representa uma referência à tradição do romance policial de enigma. Mas eu fiz uma inversão: coloquei o detetive narrando, o que não acontece, para pegarmos um exemplo maior, com as histórias de Sherlock Holmes. Sherlock é o detetive calado, que não expressa o que pensa durante a investigação. Quem narra é o doutor Watson, alguém que é próximo ao leitor. Ele fica fascinado pela figura do detetive e, quando ele se encanta, o leitor também se encanta. Uma estratégia excelente: o leitor comum é o narrador e assistente do detetive. No meu caso, o Gordo é mais astuto do que o André, que encarna o tipo comum. O André é mais parecido com o detetive do romance noir, que é mais solitário. É o Sam Spade, do Hammett, ou o Philip Marlowe, do Chandler, que têm lá as suas fontes no submundo, mas investigam sozinhos.

Entretenimento de qualidade

Quis tirar o peso da imagem que se tem do leitor – e também da leitura, consequentemente – como um sujeito enclausurado. Por isso os personagens saem às ruas. Suas histórias são contadas em livros que têm humor, leveza, agilidade, em tramas rocambolescas e sem soluções fáceis, que exigem, sim, uma leitura atenta, mas descompromissada. Livros nos quais o leitor, em primeiro lugar, se divirta. Existe a ideia errada de que qualidade e entretenimento não podem conviver em literatura.

A cidade

Num bom romance, policial ou não, o cenário não pode ser só aparência. Ele é um signo fundamental. Se você coloca uma história passada em um lugar, este lugar tem de fazer parte diretamente da história. O Rio me parece uma cidade perfeita para um romance policial. Uma cidade solar, que dá a falsa impressão de que tudo está às claras. Mas não. Ela é cheia de reentrâncias e subterrâneos, becos, novidades que se descortinam a cada esquina, uma obra, um sebo, um bar centenário. Essas surpresas são fascinantes, e carregam a trama.

O criminoso que lê

O detetive é o leitor da cidade. De certa maneira, ele substituiu o flâneur. Um flâneur com obrigação, pois precisa andar pela cidade e traduzir os signos de crime que ela esconde. O criminoso lê o detetive, o detetive lê o criminoso.

Humor

Já existia humor no modelo do policial clássico. Um humor mais refinado. No estilo americano hard-boiled, o humor era mais cínico, mais politicamente incorreto. Tentei nos livros da série fazer um humor carioca.

O formato das séries

A série está ligada à segurança que o leitor busca na literatura. Por que o Sherlock é tão popular? Porque, com ele, por mais que o mistério nos pareça sem solução, temos a certeza de que será decifrado. Tudo voltará à normalidade. O que você achava que estava fora da compreensão humana no fim terá solução.

Hammett ou Chandler?

Gosto mais do Dashiell Hammett. É mais preciso e enxuto. Mas “O longo adeus”, do Chandler, é maravilhoso.

Por que o Hammett parou de escrever?

Acho que, em determinado momento, depois que faz sucesso com os livros, ele começa a perder o domínio do material sobre o qual escrevia. Com o tempo, a criminalidade mudou: deixou de ser o gângster da rua para ser o cara do colarinho-branco. É uma hipótese. Mas também há outra: ele pode simplesmente ter perdido a vontade de escrever. Acontece.

Por que você escreve?

Você escreve movido por um desejo de leitor. Você escreve porque falta um livro, aquele que virá a ser o seu, na sua estante. Você escreve porque quer ler aquele livro. Então fica claro que o leitor é um escritor que escreve. E escreve sempre a partir de outros escritos. Daí vem a minha vontade de fazer uma releitura do gênero policial, como também do fantástico, em “A confissão”, e da ficção científica, em “A ilha”.

O século 19 como desafio

É um desafio para o escritor hoje não se pautar pelo modernismo, e sim pela literatura do século 19. O que Machado de Assis escrevia? Folhetins de jornal. Ou seja, literatura de entretenimento. Ele enfrentava uma limitação de assunto, de tempo, de espaço, além de um público exigente. E ainda assim conseguia ser originalíssimo. Eu, como escritor do século 21, prefiro ir por este caminho. Gosto muito do modernismo, mas não é o que quero para mim como escritor.

*Alvaro Costa e Silva é jornalista

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