André Vianco

Feiticeiras, soldados, construtores e um boxeador - Por: Rodrigo Casarin
10 de novembro de 2016


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Vampiros. Difícil que alguma outra palavra venha à cabeça quando pensamos em André Vianco. Prontamente, no entanto, já arranquei o assunto batido da pauta para a conversa que tivemos em um boteco na rua Augusta, em São Paulo, no final de outubro. Em certo momento, os dentuços acabaram aparecendo, claro, mas de maneira bem superficial. O foco do papo estava mais em assuntos do momento, como o Nobel de Literatura para Bob Dylan, e alguns outros elementos caros ao escritor, como a relação com a cidade de Osasco, a literatura fantástica e a luta – fiquei surpreso ao saber que ele quase se tornou boxeador profissional.

Falamos bastante também de Dartana, primeiro livro de uma trilogia que o autor está lançando pelo selo Fábrica 231. A história se passa em um planeta em guerra, cujos habitantes, amaldiçoados, não conseguem guardar qualquer tipo de aprendizado que possa fazê-los evoluir. Apesar de involuntário, segundo André, a semelhança com nosso mundo atual é bastante grande. Se na obra principalmente as feiticeiras, os soldados e os construtores se unem para forjar um novo lugar, aqui ainda parecemos aguardar que algum tipo de deus intervenha por nós.

Dartana

Dartana começa em um lugar inóspito. Tive que narrar a primeira parte me segurando, não podia ser eloquente porque os personagens não conseguem fazer grandes conexões. Às vezes, eu me pegava fazendo ilações, viajando em analogias que os personagens poderiam estar criando, mas eu tinha que me segurar, porque eles não têm essa condição intelectual. Então, o livro pode até parecer meio mal narrado no começo, mas isso é uma fidelidade à cognição daquelas pessoas, àquele universo. São quase neandertais, tanto que vivem em grutas, cavernas. Me inspirei em games, no Team Fortress, então tem classes: as feiticeiras, os soldados e os construtores, basicamente. Um precisa ajudar o outro, senão perdem essa guerra. Mais para frente, quando o conhecimento começa a se sedimentar, aí eu fico mais livre para soltar a verve de narrador.

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Trilogia

Parece que o autor é obrigado a fazer uma trilogia, né!? Mas sou pródigo em ideias, é só ver o tamanho do livro. E a história está bem contada, não tem encheção de linguiça. As histórias têm o tamanho que elas pedem. Eu escolho o enredo, a estrutura, mas tenho o carinho de escutar a história e o cuidado de narrar o que ela está pedindo. Faço movimentos de atos como na dramaturgia e depois atendo o que o próprio livro pede. Um pouco do fazer da literatura é escutar a história.

Planeta com a maldição que não evolui

Tem diversas brincadeiras aí, com os deuses, a metafísica, da gente esperar do sagrado a força para nossa evolução. Tem muita ironia nisso. Sem querer dar spoiler, há vários povos que se confrontam num lugar e cada povo vem com um deus guerreiro, que, de repente, pode não ser tão decisivo assim. Os deuses são físicos, se materializam, e as pessoas seguem atrás dessas divindades de batalha.

Familiaridade com nosso mundo

É horrível isso. Ou você é coxinha ou petralha, precisa tomar um partido, não pode estar no meio-termo. Não foi mirando nisso que escrevi o livro, mas sim, acho que vivemos em um tempo ridículo de formatação – “comporte-se dessa forma” – e de desconexão com o outro, o que é bizarro. Estamos nesse período de ênfase nas redes sociais, mas poucas pessoas se põem na pele do outro, têm empatia, procuram entender o outro. O que temos é cada vez mais comentários ferozes, ofensivos. Isso é estranho. Acho que as pessoas ficaram tanto tempo sem poder dar opinião que agora não escutam a opinião de ninguém.

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Vampiro

Ainda tenho a imagem muito vinculada ao vampiro, a maioria dos meus livros trata do assunto, mas não acho ruim. Tenho meu jeito de contar a história, os leitores gostam da mistura da mitologia, com o terror, o sombrio, e a Osasco de André Vianco. Claro, entenda-se como Osasco o Brasil, a nossa terra, nossos lugares.

Osasco de Vianco

Que escolha, né? (risos) Mas é a minha terra. É preciso achar o que falar, claro, mas cresci naquelas ruas, é a minha vida. Se fosse dos Estados Unidos, seria como falar de Detroit, uma cidade industrial. Cresci ali, trabalhando e vendo as pessoas trabalhar. Vim de uma classe social baixa, mas abençoado com uma escola ótima, com uma biblioteca imensa. Pego o nome Vianco da rua principal da cidade, que leva o nome de uma garota que com menos de 18 anos, em seu primeiro parto, morre com a filha. E me coloco sempre a falar de Osasco em minhas histórias.

Maior escritor da história de Osasco?

Posso me vangloriar que sim. Um dia vão inaugurar uma estátua de um vampiro em uma pracinha, vão escrever “aqui viveu André Vianco” e vão visitar a minha casa. Hoje já acontece isso, gente que vai pra lá visitar as ruas por onde passaram os vampiros. A prefeitura já criou até uma leitura de livros com passeio pelas ruas contempladas.

Nobel para Bob Dylan

Achei incrível. Ouvi muita gente dizendo que como o Dylan levou o Nobel, qualquer um poderia levá-lo. Mas acho que ele tem uma mente incrível, além de ser um cara pop, e acho ótimo o Nobel se aproximar do pop. Acho que hoje é válido premiar a literatura em forma de música. Literatura é narrativa e estamos transitando nas palavras. A música atende à palavra também, mas cantada.

Para quem daria um Nobel?

Uma das forças que comanda a literatura é um drama bem construído. Eventualmente você encontra dramas fantásticos, se me permite a brincadeira, dentro do filão de fantasia, de entretenimento, que muitas vezes é tratada como algo menor, mas que é a porta de entrada de muita gente para a literatura. Eu daria o Nobel para a Ursula Le Guin.

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Livros pra colorir

São geniais. São livros extralúdicos O leitor se conecta à literatura pelo lúdico, ainda mais na ficção fantástica, no terror, e o livro para colorir busca esse novo leitor, com frases mínimas e uma interação potente na hora de colori-lo. Acho estranho rechaçar tanto esse tipo de construção, são os desafios do novo tempo.

Games

Curto jogar, jogo PC, mas confesso que nos últimos meses estou bem pegado com trabalho. Mas nas horas vagas eu jogo principalmente para desestressar. Gosto de jogos em primeira pessoa, como o próprio Team Fortress, e simuladores como o Banishment, que é estilo Sin City.

Esportes

Sempre fui péssimo no futebol, inclusive em game. Uma das razões fundamentais para eu ser escritor hoje é minha inabilidade com jogos coletivos. Então ficava na minha casa, lendo enciclopédias, Monteiro Lobato… Graças ao meu pé torto para jogar, eu não era escolhido. Gosto dos esportes que me dou bem. Fui muito tempo boxeador amador, gosto de futebol americano… essas coisas de pegar os outros e jogar pro alto eu curto.

Boxe

Fiz três anos de boxe amador. Estava ficando bom no negócio e cheguei naquele momento de decidir se profissionalizava ou não. Aí minha esposa, muito sábia, disse: você só usa a cabeça e a mão para trabalhar, então, você quem sabe. Mas tem muito do Vianco boxeador no escritor: a persistência, a garra… Você está de um lado e do outro a pessoa quer te derrubar. A relação com o leitor também é essa, eu que preciso nocauteá-lo primeiro, mas é algo do bem. Em geral eu nocauteio o leitor, mas eles não ficam insatisfeitos com isso.

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O que só é possível com a fantasia?

O grande barato da fantasia é extrapolar o mundo, imaginar novas possibilidades para a realidade. Acho que aí é o terreno da fantasia, da distopia, da magia. Aí o escritor habilidoso traz esse mundo tão diferente para a verossimilhança quando estabelece um pacto ali no drama. A chave está em você colocar gente lá dentro do fantástico, aí você extrapola, aumenta, provoca o mundo.

Rodrigo Casarin é jornalista.

TAGS: André Vianco, Dartana, Fantasia, Ficção cientifica, Papo de bar, Rodrigo Casarin, Sci-fi,

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