Palavras cruzadas*

por Laurentino Gomes
10 de junho de 2015


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Palavras cruzadasPalavras cruzadas, romance da professora e escritora Guiomar de Grammont, é um dos livros mais bonitos – e bem escritos – que li ultimamente, poderosa metáfora do Brasil de hoje. O enredo trata da luta da jornalista Sofia em busca do paradeiro do irmão Leonardo, um guerrilheiro desaparecido nas selvas do Araguaia durante o regime militar brasileiro. É uma estória permeada de incertezas e perguntas, com respostas incompletas e insatisfatórias. Um clima de tragédia paira sobre os personagens e acontecimentos. O que, de fato, aconteceu? Quem são essas pessoas? Que segredos estão escondidos em suas memórias e nas gavetas que guardam documentos misteriosos?

Escritora talentosa, habituada a recorrer a todas as ferramentas que a literatura e a língua portuguesa lhe oferecem para contar uma história, Guiomar de Grammont usa frases curtas, precisas e inesperadas, às vezes carregadas de poesia, o que dá ao romance um tom de urgência, de acordo com a procura empreendida por sua protagonista Sofia. Um bom exemplo desse ritmo ligeiro e fluido de escrita aparece logo no parágrafo de abertura do primeiro capítulo:

“Parece um sonho agora, o mato cresce nas picadas abertas. As feridas tornaram-se cicatrizes, irão desaparecer, pouco a pouco. Como os nomes. Vão sendo esquecidos, pouco a pouco, com o que não queremos lembrar”.

São as reminiscências de um personagem fictício, o guerrilheiro Leonardo, enquanto era caçado pelos soldados do exército nas matas do Araguaia. Mas essas mesmas frases poderiam ser usadas para descrever o Brasil de hoje, às voltas com seus tortuosos desvios de memória. Há trinta anos os brasileiros deixaram para trás o último de seus muitos períodos de ditadura para enfrentar um desafio inédito na sua história: a construção do futuro pela democracia representativa. Ao contrário dos países vizinhos, no entanto, o Brasil tem demonstrado enorme dificuldade em esclarecer os casos de torturas, prisões, assassinatos e outros episódios obscuros da época do regime militar. Há inúmeras “comissões da verdade” em funcionamento no país, mas o clima de má vontade em relação às investigações, especialmente no meio militar, é evidente.

No seu romance, Guiomar de Grammont aborda essas dificuldades no diálogo entre dois de seus personagens. A certa altura, um deles cita as reflexões do filósofo francês Paul Ricœur sobre os efeitos benéficos da verdade e do perdão no curso da História:

“A anistia cicatriza à força, é o esquecimento imposto, induz a uma espécie de amnésia coletiva, que impede a revisão do passado. A anistia, na verdade, impede o perdão. Para haver perdão, é preciso soltar todo o ressentimento. Só a narrativa e a memória, ou seja, a revisão do passado, permitiriam o perdão. Seria preciso recontar essa história com os olhos do presente, para exorcizar a dor”.

 São palavras que ecoam fortemente no Brasil de hoje – um país que, por medo das verdades escondidas no passado, tenta cicatrizar à força feridas ainda recentes, sem se dar ao trabalho de entender o que as provocou e de que matéria são constituídas. O que também faz do romance de Guiomar de Grammont não apenas uma bela peça literária, mas também um libelo político a respeito do qual todos os brasileiros são chamados a meditar.

Laurentino Gomes é jornalista e escritor.

*Texto da orelha do livro Palavras Cruzadas.

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