Os vinte anos de A Pedra Filosofal e o retorno à infância

por Luiz Guilherme Boneto
26 de junho de 2017


“(…) Harry Potter virou-se dentro dos cobertores sem acordar. Sua mãozinha agarrou a carta ao lado, mas ele continuou a dormir, sem saber que era especial, sem saber que era famoso (…) ele não podia saber que, neste mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam os copos e diziam com vozes abafadas:

— A Harry Potter: o menino que sobreviveu!”

O parágrafo que transcrevo acima encerra o primeiríssimo capítulo de Harry Potter – utilizo-me deste trecho de singular beleza para iniciar um texto que pretendo tornar uma manifestação de comemoração. E começo ousando imitar: tal como os bruxos de então, ergo o meu copo ao menino que sobreviveu. Proponho um brinde à obra que considero um divisor de águas em minha vida e na de milhões de pessoas mundo afora. E brindo especialmente aos vinte anos do lançamento do primeiro volume de uma série que marcou uma geração e, por que não, a história da literatura mundial.

Ainda que bruxo não seja, brindo porque Harry Potter tem, como teve ao longo dos últimos dezesseis anos, um papel fundamental na minha vida. Por vezes, sinto-me incapaz de absorver a grandeza da existência de alguém como J.K. Rowling; contando apenas com inteligência e talento próprios, ela escreveu uma obra capaz de arrebatar multidões. A escrita, que figura entre as minhas grandes paixões, é usada não apenas para nos trazer uma história encantadora, mas também para promover amplamente os benefícios da leitura. Falando por mim, posso afirmar que graças ao interesse que me foi despertado por Harry Potter, tornei-me um devorador de livros – teria isso acontecido caso a série não existisse? Honestamente, não saberia afirmar.

Ocorre que não escrevo este texto para falar de mim, embora quando o assunto é a série mais amada de nossas vidas eu nem sempre consiga evitar. Neste 2017, Harry Potter e a Pedra Filosofal completa vinte anos de seu lançamento, vinte anos do início de uma obra que considero fabulosa não apenas por seus elementos estéticos e literários – os quais não me considero capacitado para analisar em profundidade –, mas por ter despertado o interesse pela leitura em milhões de jovens, assim como fez em mim. No mundo em que vivemos hoje, de imediatismos e de acesso rápido e fácil a todo tipo de informação, ler um livro se torna cada vez mais um evento raro, lamentavelmente.

Harry Potter e a Pedra Filosofal é uma obra que traz em si um ar encantador de literatura infantojuvenil. Mais encantador é notar, com um olhar mais atento, que o livro reúne elementos e segredos que só se desenrolarão em definitivo nas obras que virão posteriormente – o bruxo das trevas Grindelwald, por exemplo, é mencionado de maneira breve e retomado mais adiante na história em maiores detalhes, e para além dele, há outras características ainda mais sutis ali iniciadas. O enredo da série costuma ser lembrado por desenvolver-se de modo a se tornar mais sombrio a cada livro, e é natural que essa percepção conceda certo ar de inocência às obras iniciais. Genial como é, contudo, J.K. Rowling já tinha na mente os meandros do que aconteceria no decorrer da saga.

Mas como é aniversário de A Pedra Filosofal, cabe a pergunta: você se recorda dos seus vinte anos, caro leitor? Eu, sim – e lá vou eu, falar de mim novamente. Afinal, não estou tão longe assim dos vinte (!), mas recordo-me de ser então uma pessoa em franca evolução e em dolorosa transição para a idade adulta. Aos vinte, eu já tinha votado para presidente. Possuía carteira de motorista, conta em banco, cursava o segundo ano da faculdade de jornalismo e há muito já sabia de cor a primeira página de A Pedra Filosofal. Sou hoje muito diferente daquilo tudo – embora conserve o título de eleitor e a carteira de motorista – e sigo evoluindo.

A despeito do desenvolvimento que se espera nesta idade, Harry Potter e a Pedra Filosofal completa vinte anos sendo o mesmo de sempre. Os anos e o sucesso deram à obra novas roupagens, lindíssimas edições ilustradas e capas reformuladas, todas com lugar especial e muito visível em nossas estantes. Entretanto, a história a ser contada permanece a mesma. Ainda que saibamos identificar elementos do enredo que viria posteriormente, o livro conserva em si a inocência do começo, a recordação da infância e o cheiro de lar. Seria capaz de arriscar que você, leitor, assim como eu, sente-se em casa quando abre o seu exemplar do primeiro livro da série. Logo na primeira página, em “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, nº 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado”, nos invade um delicioso sentimento de nostalgia e de expectativa, diante do fato de que aquilo é apenas o início, e haverá adiante um maravilhoso universo, literalmente mágico. Harry Potter, afinal, nos recorda tempos muito bons e nos dá, acima de tudo, a possibilidade de revivê-los num folhear.

Quando foi lançado o último filme da série, uma emocionada J.K. Rowling nos avisava: “Hogwarts estará sempre lá para lhes dar as boas-vindas em casa.” Ela sabia muito bem o que dizia, é claro. Afinal de contas, Harry Potter é casa para nós, e A Pedra Filosofal cumpre com maestria esse papel de boas-vindas, de recepção, de lar. Temos o conforto de saber que, ainda que o tempo passe depressa, às vezes depressa demais, Harry Potter estará sempre ali, para nos receber em casa. Com estas palavras e o sentimento de profunda gratidão, desejo ao nosso livro inaugural o mais feliz dos aniversários.

Luiz Guilherme Boneto é membro do Potterish.

TAGS: Aniversário, artigo, Harry Potter e a pedra filosofal, Hogwarts, Magia,

Comentários sobre "Os vinte anos de A Pedra Filosofal e o retorno à infância"

    • Obigado pelo comentário, Jennifer.
      Com certeza o Luiz Guilherme conseguiu transmitir nosso sentimento por essa série mágica.
      Boas leituras sempre!

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