Olhos de bicho

Ieda Magri apresenta seu romance finalista do Prêmio São Paulo
23 de agosto de 2014


Olhos de bicho

Olhos de bicho, de Ieda Magri, é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014 na categoria Melhor Livro de Romance do Ano — Autor Estreante com menos de 40 anos. Confira o artigo da escritora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ sobre a construção de seu livro e suas reflexões acerca do ponto de partida de um romance. Um “tumulto sobre algo”, como pregava Turgueniev, ou uma complicação particular vivida por um personagem, como defendia Henry James?

 

Um espanto e um tumulto, por Ieda Magri

O primeiro Os olhos do touro são azuis começou a ser escrito em setembro de 2008 a partir da proposta de uma conversa infinita entre personagem e leitor ao modo do que propõe Maurice Blanchot no livro A conversa infinita. A personagem principal, Odete, era uma professora aposentada determinada a escrever um diário com o movimento íntimo das sensações que vive, de reflexões que é levada a fazer a partir de suas leituras e vivências e de anotações sobre o livro impossível de ser escrito. Central, nesse livro de areia que se escrevia num dia e se desescrevia no outro, era um sonho de Odete com um touro que a perseguia de noite. O livro, em suas várias versões: diário, romance e conto, acabou no lixo.

Em 2010 ganhei a Bolsa Funarte para escrever o romance (ainda Os olhos do touro são azuis), vi uma mulher recém caída de uma janela de sétimo andar na Rua do Catete e tinha muitos rascunhos de personagens para a Casa da Urca, uma casa antiga da qual se dizia que tinha sido habitada por uma bruxa, por uma portuguesa, por uma mulher feia, todas elas a mesma, e por um solitário que tinha receio de que outra mulher quisesse tomar posse da casa. De 2010 a 2012 foi um longo percurso, que inclui a produção de muitas linhas inúteis que só serviram para preparar a escrita do que é hoje o romance. Olhos de bicho tem apenas o touro do que foi a primeira versão de Os olhos do touro são azuis.

Henry James, em seus prefácios reunidos em A arte do romance, diz que seu amigo e mentor Turgueniev definia o romance como “um tumulto, um tumulto sobre algo.” O russo pensava a escrita a partir de uma paisagem, uma visão de uma ou mais pessoas em estado de disponibilidade, imagens de figuras soltas, expostas ao acaso às complicações da existência possíveis de serem geradas naquele cenário. Já Henry James pensava o romance primeiro a partir de uma personagem com uma complicação particular e criava um tumulto em torno dela.

Olhos de bicho nasceu primeiro de um espanto, a mulher na calçada, e depois de um tumulto em torno dela criado a partir de uma história que pertencia a outras personagens. Montar as histórias e criar conexão entre elas era meu desafio e escolhi uma arquitetura composta de cenas separadas, com narradores separados, cujos enlaces e correspondências são compostos pela personagem ausente R.

Minha história é sobre uma herança sem herdeiros. Um problema que pertence, inclusive, à literatura contemporânea, que se quer nova, não devedora de nenhuma herança literária do passado e, ao mesmo tempo, precisa lidar com a tradição. É também sobre uma certa suspeita da nossa capacidade de ver.

Com ele, gostaria de dizer, como o narrador de A fraude, de Lescov, que “temos diante dos olhos um pouco da névoa através da qual olhamos tudo”.

 

O resultado do Prêmio São Paulo de Literatura será divulgado em novembro. Confira a lista completa de finalistas.

☛ Leia trecho de Olhos de bicho, de Ieda Magri

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