O voo livre de Julian Barnes

por Pedro Afonso Vasquez
2 de junho de 2014


Félix Nadar

“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma.” Tal foi a premissa brilhantemente defendida por Julian Barnes, nas pouco mais de 120 páginas de Altos voos e quedas livres, um livro original e belo como o encontro fortuito, sobre uma mesa de operações, de uma máquina de costura com um guarda-chuva, em outra paradoxal união, sugerida por Lautréamont.

Somente no mundo abstrato das ciências exatas a linha reta é a menor distância entre dois pontos. No âmbito da literatura, felizmente, são abominados os atalhos em favor das elipses, das espirais e dos circunlóquios. Assim, obedecendo à lógica peculiar de sua arte, Julian Barnes dedicou toda a primeira parte do livro consagrado à memória da esposa, Pat Kavanagh, ao balonismo no século XIX, a um fotógrafo extravagante, a uma diva devoradora de homens e a um militar interessado em engenhos voadores. Mas fornecer maiores detalhes corresponderia a estragar o prazer de sua leitura, de modo que vou me limitar a evocar algumas curiosidades relacionadas com o Brasil.

Um dos personagens principais de Altos voos e quedas livres é o aeronauta Nadar, que inspirou o primeiro livro de Jules Verne, Cinco semanas em balão, lançado em 1863, com sucesso imediato. Posteriormente, Verne homenagearia o amigo ao nomear o protagonista de Da Terra à Lua, com um anagrama de seu nome: Michel Ardan. Grande retratista, pioneiro em três campos da fotografia (aérea, subterrânea e com luz artificial), além de precursor do correio aéreo, Nadar já mereceria inclusão em todas as enciclopédias pelo simples fato de ter emprestado, em 1874, seu ateliê para a realização da primeira exposição dos pintores impressionistas, então sistematicamente recusados pelo Salão oficial. E, no que nos diz respeito, vale lembrar que ele retratou admiravelmente Dom Pedro II mais de uma vez, ao passo que seu filho, Paul Nadar, realizou o conhecido retrato póstumo do imperador, em seu leito de morte parisiense, no Hotel Bedford. Juntos, Nadar e Jules Verne fundaram em 1862 a Société pour la Recherche de la Navigation Aérienne, que exerceria grande influência no desenvolvimento da aviação. Inclusive, o inventor brasileiro do avião, Santos Dumont, era admirador entusiasta de Verne e admitiu ter sido bastante influenciado por Cinco semanas em balão; Róbur, o conquistador; e Vinte mil léguas submarinas.

Sarah Bernhardt também teve estreita conexão com o Brasil, aqui se apresentando em quatro ocasiões diferentes, causando profunda impressão em Dom Pedro II e toda a sociedade imperial, conforme inteligentemente parodiado por Jô Soares em O Xangô de Baker Street. Julian Barnes por sua vez evocou o romance da atriz francesa com o militar e balonista inglês Fred Burnaby. Uma relação que já nasceu fadada ao fracasso, pois a diva jamais poderia se contentar com as mornas alegrias do casamento burguês. Isso porque assim como um balão, Sarah Bernhardt precisava de fogo e calor para alimentar os altos voos de suas paixões, que descortinavam aos seus amantes novos horizontes, tão inalcançáveis quanto as paisagens entrevistas de um balão.

Sarah Bernhardt por Félix Nadar

Voltando a Julian Barnes, vale lembrar que já numa obra anterior, Nada a temer, na qual empregou como mote a perda dos pais, ele confessou ser obcecado pela morte desde os 13 anos de idade, sem deixar de pensar no assunto um dia sequer. Barnes parecia, portanto, estar se preparando para seu próprio fim, mas foi surpreendido por outra perda maior, a súbita morte da esposa, após um breve período de doença de pouco mais de um mês.

Certa vez Julian Barnes declarou não compactuar com a postura dos escritores que olham os leitores de cima, como se estivessem dando uma aula e lhes ensinando o sentido da vida. Afirmou preferir estar ao lado do leitor, sentado lado a lado em um café, contemplando o mundo pela janela, e trocando ideias de igual para igual. Neste cenário hipotético, ao terminar a leitura do comovente Altos voos e quedas livres, o leitor se sentiria compelido a tomar as mãos de Barnes nas suas, para compartilhar e atenuar sua dor, enquanto a dança muda do mundo continua a lançar seus reflexos na vidraça embaçada.

Pedro Afonso Vasquez é escritor, tradutor, fotógrafo e editor de não ficção da Rocco.

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