O som e a letra de Irvine Welsh

por Isabel W. De Nonno
10 de junho de 2016


Uma playlist inspirada na obra do autor de Trainspotting

Faço parte da geração que era adolescente quando a santa-tríade-terror-dos-pais surgiu nos cinemas: Pulp fiction (1994), Kids (1995) e Trainspotting (1996).

Meu primeiro contato com o universo de Irvine Welsh foi provocado pelos amigos, ao mencionarem a tal cena do bebê como o que havia de mais aterrorizante a ser assistido. Me lembro bem do dia em que aluguei o VHS e vi Mark Renton correndo pela Cowgate e todo o universo dos garotos do Leith aparecendo na tela.  Na época, o livro Trainspotting ainda não havia sido lançado, mas a Editora Rocco tinha um selo chamado Artemídia, e foi por ele que saiu o roteiro do filme. Tempos depois, apostando no sucesso cult do livro, a editora lançou a obra literária original, que é bem mais interessante e menos glamourizada que o filme de Danny Boyle.

Music

Não demorou muito para Porno, a continuação de Trainspotting dessa vez pelas ruas de Amsterdã, chegar por aqui. Na sequência, vieram As revelações picantes dos grandes chefes, Crime, Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar, Skagboys, que antecipa a trilogia, e agora A vida sexual das gêmeas siamesas.

Irvine é esse autor prolífico, com uma relação muito forte com música: ele já foi DJ e tocou em bandas punks inglesas. Talvez por isso montar uma trilha sonora que passeie por seus temas não seja tarefa das mais simples.

A vida das gemeas siamesas_instagram copyMeu ponto de partida foi fugir das escolhas presentes nos álbuns de Trainspotting (a única música daquelas que coloquei foi “Born Slippy”, do Underworld, por ser um marco na então crescente cena de música eletrônica dos anos 1990).  Shoegaze, Trip hop, Britpop, Punk e Eletrônico são alguns dos estilos musicais a que recorri, além de bandas originais da Inglaterra, Escócia, Irlanda e Estados Unidos, lugares em que o autor morou. A opção pelas músicas “George Square Thatcher Death Party”, dos escoceses do Mogway, e “Common People”, da banda inglesa Pulp, são toques de ironia, afinal, Irvine veio da classe operária que viveu anos duríssimos na gestão da Dama de Ferro, e cujos personagens são pessoas comuns, muitas vezes até limitadas, na visão que transpira no universo do autor.

Lou Reed, Brian Eno e Suede entraram para contrabalancear e trazem um certo embalo-boate para a seleção musical.

Acredito que ao final dessas 18 músicas quem gosta da literatura de Irvine vai lembrar de algum de seus livros. Quem não conhece sua obra, por sua vez, mas gostou da playlist, tem uma boa desculpa para adentrar o mundo do autor: um mundo sujo, chocante, engraçado, distorcido, viciante, real, e por mais absurdo que seja, that’s the whole point.

Isabel W. De Nonno é designer e autora de Cloro (Pipoca Press).

TAGS: A vida sexual das gêmeas siamesas, Irvine Welsh, playlist,

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