O som das máquinas

por Antônio Xerxenesky
23 de junho de 2014


“Do que se trata o seu livro?” Essa pergunta causa muita aflição aos escritores, e geralmente é feita por primos, tios ou pessoas completamente aleatórias que por acidente descobrem o segredo (eu pelo menos evito divulgar isso por aí) de que você, nas horas vagas, preenche páginas de Word com frases e mais frases, na esperança de algo que preste saia daquilo.

A minha sorte é que eu sei responder a essa pergunta. F, lançado pela Rocco em junho, é narrado por uma garota brasileira que foi treinada como assassina profissional e que, aos 25 anos de idade, é contratada para matar ninguém menos que Orson Welles, diretor de cinema responsável por Cidadão Kane. Porém, a missão – a mais importante que recebeu até este momento – a leva numa viagem pelo universo da cinefilia e a tarefa se mostra mais complexa do que um simples assassinato. O ano é 1985, e o enredo se desloca pelo eixo Rio de Janeiro – Paris – Los Angeles.

Pronto, pergunta respondida, certo? Dureza deveria ser para o James Joyce. Imagina se perguntam a ele: “Do que se trata esse tal de Finnegans Wake que você está escrevendo?” Eu que não gostaria de ter que responder essa questão. Porém, mesmo com essa sinopse razoável de 600 caracteres, sinto que não falei absolutamente NADA sobre o meu livro. Prova disso? Não mencionei a palavra “música”.

  Leia um trecho de F 

***

As duas epígrafes que abrem o meu romance tratam de música e do futuro da mesma – embora sejam visões divergentes. Uma é o depoimento de Giorgio Moroder, gênio do pop, que criou um disco-conceito para Donna Summer no qual cada faixa equivaleria a uma década. Para a última, imaginou como seria “a música do futuro”. Surgiu “I feel love”, que traz o som hipnótico de um sintetizador e que acabou definindo, de fato, a sonoridade da grande maioria de canções pop ocidentais dos anos 80. A segunda epígrafe é extraída da biografia de Ludwig Wittgenstein. Ray Monk nos informa que o filósofo austríaco não tolerava nenhuma música composta em um período posterior ao de Brahms, pois conseguia escutar, nelas, “o som das máquinas”.

Música, repito, é fundamental no meu livro. Reconstruir a década de 1980, que vivi apenas tangencialmente, foi um mergulho musical. Sempre fui apaixonado pelas bandas movidas a sintetizadores como New Order e Human League, sem contar todo o subgênero gótico que desabrochou na época, com nomes como Siouxsie & The Banshees e Sisters of Mercy. Escrevi a maior parte de F à noite, depois do trabalho, nas horas livres que dispunha, com discos das bandas citadas acima rodopiando na vitrola. Também escutei bastante bandas que reconstroem, nos dias de hoje, o espírito oitentista – nomes como Chromatics e Glass Candy – mas que conseguem transcender a mera homenagem e criar algo novo e profundamente pessoal em cima de uma convenção bem estabelecida. Esta era uma postura que me inspirava. Então os álbuns deles também não abandonaram o toca-discos.

E foi assim que as músicas acabaram entrando no livro – não apenas na trilha sonora das festas narradas, não apenas como nomes citados. Elas entraram no próprio tecido narrativo. De certo modo, F é um romance escrito em um sintetizador (instrumento que, por sinal, toco – muito mal, mas o importante é a diversão). E é um romance sobre o futuro da música. E o futuro da cultura e a sensação de enxergar o futuro da civilização. E sobre uma assassina profissional que, tirando o gosto musical, tem pouco em comum comigo, e que é contratada para assassinar Orson Welles. E sobre cinema. E sobre a brutalidade da ditadura brasileira. E sobre o nascimento de uma geração narcisista e quase apolítica. E sobre um monte de outras coisas. “Do que se trata o seu livro?”, alguém pode me perguntar a qualquer momento. “Não faço a menor ideia.”

Antônio Xerxenesky nasceu em 1984, em Porto Alegre. É autor de Areia nos dentes (2008) e A página assombrada por fantasmas (2011). Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

 

TAGS: Cidadão Kane, CINEMA, F, Granta, música, Orson Welles, Sisters of Mercy,

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