O silêncio vale mais que mil palavras

Flávio Izhaki e Marcelo Moutinho se encontram na Casa Rocco
5 de maio de 2014


Casa Rocco na Flip

Como o escritor explora o não dito nas relações amorosas ou familiares com muitas e bem escolhidas palavras?

Flávio Izhaki: Tem uma passagem em Amanhã não tem ninguém que mãe e filho estão lado a lado numa cama. Ele, com problemas na escola e em casa, os pais recém-separados. Ela, que não entende o filho e o que ele está passando, mas quer ajudar. O silêncio naquele momento não é bom nem ruim, mas a única ligação possível para os dois. O silêncio é o que dá espaço para o afeto, para o carinho, para o estar ali. Um quer falar que precisa de ajuda, o outro que quer ajudar. Mas verbalizar aquilo faria tudo ruir e a distância os separaria. O silêncio é a língua entre peles. A mãe eventualmente não aguenta o peso do silêncio e fala, e então a tênue ponte se esfarela e os dois são de novo apenas duas pessoas que não conseguem se compreender.

Marcelo Moutinho: O silêncio é muitas vezes prenhe de palavras em estado de potência, que no entanto não precisam ou não têm como ser pronunciadas. Penso no casal que protagoniza o conto “Um cartão para Joana”. Ele trabalha escrevendo frases para cartões de Natal, ela quer um filho e se ressente do afeto que o companheiro não é capaz de ofertar, embora viva de criar mensagens carinhosas para os outros. O silêncio, ali, é o eco mudo do abismo que se abriu entre os dois. Há também um silêncio que não se efetiva pela falta, mas por prescindir de signos verbais. No conto “Água”, um filho dá banho no pai, já idoso e debilitado pelo Mal de Parkinson. A inversão do que ocorrera no passado, quando o hoje rapaz era menino e o pai ainda estava altivo, é tão cheia de sentidos que qualquer vocábulo seria frágil, quebradiço, excessivo.

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