O reino de Tom Wolfe

por Kelvin Falcão Klein
24 de agosto de 2017


Surgido em inglês em 2016, O reino da fala, de Tom Wolfe, causou quase que de imediato uma vasta trilha de polêmicas. Apoiado em seu estilo característico, já conhecido de romances como A fogueira das vaidades e Sangue nas veias, Wolfe faz, neste novo livro, um resumo crítico de algumas das principais teorias acerca da linguagem dos últimos anos, afirmando que são insuficientes para explicar o advento da fala. Para Wolfe, a fala não é uma decorrência da evolução, mas o próprio elemento que torna a evolução possível.

O jornal The Guardian, por exemplo, fazendo um trocadilho com o já mencionado romance célebre de Wolfe, afirmou que seu novo trabalho é uma “fogueira de fatos”, “fedendo a vaidade”. Outro jornal, o The Washington Post, fazendo referência à indumentária típica de Wolfe, diz que, com seu “terno branco não manchado pela pesquisa”, Wolfe tenta “negar Charles Darwin e Noam Chomsky”. Não é de hoje que Wolfe é atacado por conta de sua escolha de temas e da abordagem que promove em direção a eles – é possível inclusive dizer que Wolfe construiu sua carreira buscando tais temas e confiando na intensidade da resposta crítica depois do lançamento de seus livros.

Como em muitos de seus textos, em O reino da fala Wolfe busca uma perspectiva lateral das histórias, uma espécie de estratégia do outsider. Se Darwin é a figura principal, Wolfe busca outro personagem, Alfred Russel Wallace, naturalista contemporâneo do primeiro, que chegou a ideias muito semelhantes acerca da evolução. Wolfe afirma que “Darwin exibia muitos sintomas de culpa por ter surrupiado as cuecas de Wallace como fizera. Sempre que a discussão, na imprensa ou em pessoa, chegava à ‘Teoria da Evolução de Charles Darwin’, ele fazia questão de mencionar que Alfred Wallace também fizera um trabalho importante naquela área”.

Com Chomsky, Wolfe faz uso do mesmo procedimento: resgata a figura e as pesquisas de Daniel Everett, linguista conhecido por seu trabalho junto aos índios pirahã, da Amazônia. Assim como Wallace no caso de Darwin, Everett funciona para Wolfe como um personagem outsider, alguém que lhe permite contar o avesso da história, em contraposição à fama e celebridade de Chomsky. Vejamos, por exemplo, a descrição que Wolfe faz de uma foto de Everett, na qual o pesquisador aparece imerso em um rio Amazônico durante uma de suas viagens de campo. “A foto virou a imagem que distinguia Everett de Chomsky”, escreve Wolfe, com Everett “imerso na vida de uma tribo até então desconhecida” não havia como “qualquer linguista deixar de contrastar aquilo com a imagem mental que todos faziam de Chomsky sentado lá no alto, bem alto, em uma poltrona dentro de uma sala do MIT com ar-condicionado, todo limpo e arrumado”.

O cerne de O reino da fala, portanto, não está na busca pela acurácia científica que alguns procuraram nele, e sim no delineamento desses perfis, dessas vidas que correm em paralelo aos grandes projetos científicos e explicativos. O mérito de Wolfe está em apresentar uma abordagem fresca e criativa (e polêmica) de um tema tradicional, que percorre a tradição ocidental há centenas de anos, realizando a tarefa com verve e ironia.

*Kelvin Falcão Klein é crítico literário e professor de literatura na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.

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