O Reino de Isabel

por Bruno Garcia
22 de janeiro de 2018


Um viajante alemão de nome Müntzer visitou na década de 1490 a Península Ibérica. Curioso com as notícias que chegavam na Europa Central, ele atravessou o continente para conhecer Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os reyes catolicos cujo casamento lançara a pedra fundamental para o futuro Estado Espanhol. Não se sabe ao certo como foi o encontro, mas as palavras do visitante ao casal ficaram registradas: “O poder de Vossa Majestade, célebre por todo o universo, enche de admiração os Príncipes e Senhores da Alemanha.”

É fácil de entender o entusiasmo de Müntzer. Naquela altura, o que conhecemos hoje como Alemanha e Áustria não passava de um apanhado de principados regidos nominalmente pelo Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Para piorar, a fragmentação de poderes locais deixara a Europa exposta ao Império Otomano que, depois da conquista de Constantinopla em 1453, já ocupava os Bálcãs e rumava em direção a Budapeste. O contraste com os reis católicos era gritante. Em 1492, de uma só vez, Isabel e Fernando conquistaram Granada, expulsando definitivamente os mouros da Península Ibérica, e enviaram Cristóvão Colombo numa aventura que acabou por quadruplicar o tamanho do que foi reconhecido posteriormente como civilização ocidental.

A façanha é ainda mais impressionante se considerado o passado recente de Castela, com suas inúmeras disputas de poderes locais e reis dobrados facilmente pela nobreza. Em um intervalo de pouco mais de duas décadas, o apetite de uma aristocracia arredia foi transformado em lealdade; uma nova classe de burocratas criada para supervisionar os negócios e controlar possíveis revoltas; e a guerra contra seus vizinhos, França e Portugal, foi habilmente vencida. Como isso foi possível?

O jornalista e historiador Giles Tremlett acerta no alvo quando concentra a resposta na figura de Isabel de Castela. Maquiavel pode ter reservado seus elogios à astúcia de Fernando, mas coube a Isabel tanto a arquitetura dos poderes que permitiu a união pacífica dos dois reinos quanto grande parte das decisões chamadas de grandiosas “e algumas mesmo extraordinárias” pelo pensador florentino.

Depois de assistir a inabilidade de seu meio-irmão, Henrique IV, em lidar com as contínuas desordens e arrogâncias da nobreza, Isabel parece ter aprendido o que não fazer. Ainda adolescente, desafia a vontade do rei de vê-la casada com o monarca português, o que a afastaria das pretensões na linha sucessória de Castela. Partiu dela a escolha de Fernando, herdeiro do trono de Aragão, como marido, uma decisão tão sábia e estratégica quanto arriscada. Como se não bastasse a resistência de Henrique IV, França e Portugal temiam – com razão – que uma futura união entre os reinos de Castela e Aragão representaria um significativo desequilíbrio na balança de poder da região. Os dois se casam rapidamente, e sem chamar muita atenção, em 1469. Foi preciso muito jogo de cintura e acordos escorregadios para evitar que seus inimigos, sem dúvida mais poderosos, se voltassem definitivamente contra eles.

Isabel casou aos 18 anos e foi coroada com 23. É difícil não se surpreender com a audácia de uma jovem mulher no século XV. A pouca idade não impediu que fosse precocemente engenhosa, mas implacável, com aliados e inimigos. Na união com Fernando, por exemplo, a monarca preservou o título de la reina proprietária e ainda obrigou o herdeiro de Aragão a fixar residência em Castela. Uma vez reconhecida sua posição de superioridade, criou um arranjo singular em que partilhava poder em igualdade com o marido.  Ela acreditava que juntos seriam capazes de pôr de pé o grande reino cristão que faria frente à ameaça do Islã na Europa e que estabilizaria uma região conhecida pelo fracasso em estabelecer ordem e unidade no seu território.

Se para isso era preciso a “ameaça da espada”, Isabel não tinha qualquer objeção. Afinal, como lembra o pensador francês Ernest Renan, “a unidade se faz sempre de forma brutal”. O contrapeso da estabilidade e segurança levadas à vida cotidiana foi uma vigilância severa contra possíveis inimigos e a criação da lendária Inquisição Espanhola, que converteu, expulsou ou matou judeus e muçulmanos.

Talvez Maquiavel tenha sido vítima do preconceito inerente de sua época contra as mulheres. Talvez por isso tenha atribuído apenas a Fernando as grandezas de Castela e Aragão. Também não ajudou o hábito que Isabel tinha de incluir a assinatura do marido em cartas e ordens para dar maior peso a decisões que eram, na verdade, suas. De qualquer forma, se pudéssemos procurar o grande nome do século XV, aquele que, pelos critérios do pensador florentino, deu exemplos sobre como conquistar e manter o poder, teríamos que reconhecer a grande rainha de Castela. Giles Tremlett contribui sobremaneira para esse reconhecimento em sua aclamada biografia Isabel de Castela, que conjuga de maneira exemplar rigor histórico e talento literário.

*Bruno Garcia é historiador.

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