O mistério do pseudônimo

Uma tradição do romance policial
15 de novembro de 2014


por Álvaro Costa e Silva

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O romance policial já foi considerado a alfafa do cavalo do bandido.  Classificá-lo como subgênero era até elogio diante das restrições que se lhe faziam: repetitivo, superficial, escapista, alienado, evasivo, popularesco, classe B, “pulp”, mera distração ou reles divertimento, passatempo para dias de chuva ou longas viagens.

Um crítico importante como Álvaro Lins, no seu ensaio “No mundo do romance policial”, publicado em 1953, afirma que “o romance policial não é literatura, no conceito estético desta palavra. Aquele problema da criação poética através do estilo nunca foi inteiramente resolvido pelos seus autores, e não o será nunca, talvez”. Que cacetada, hein?

Mas Lins reconhece, no mesmo texto, que se trata de “um mundo fechado, com as suas personagens, os seus episódios, com as suas emoções, com os seus encantos, com as suas grandezas e misérias, tudo diferente do mundo normal em que vivemos”.

Não que os leitores na época dessem alguma importância para o que os críticos diziam. Estavam muito ocupados em ler… romances policiais, justo porque era “diferente do mundo normal em que vivemos”.

No auge do seu prestígio, Agatha Christie, considerada “a mãe” de todos os escritores de mistério, chegou a superar em vendas um autor como Shakespeare e a própria Bíblia – só O caso dos dez negrinhos vendeu mais de 100 milhões de exemplares.

Mas nada disso fez com que o gênero tivesse aumentado um tiquinho só a sua estima entre os esnobes da literatura. “Se vende tanto assim, não pode ser bom”, diziam.

Atualmente o cenário mudou. Os policiais continuam vendendo como pão quente, mas os críticos já não lhe torcem tanto o nariz. Em sã consciência quem diria hoje que Edgar Allan Poe (criador do primeiro detetive), Georges Simenon, Dashiell Hammett e Raymond Chandler não fizeram literatura “no conceito estético desta palavra”?

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O refinado ensaísta argentino Ricardo Piglia, cujas obras de ficção se aproveitam da estrutura do romance “noir”, afirma que estes “são romances capitalistas no sentido mais literal da palavra: devem ser lidos sobretudo como sintomas”. Ou seja, uma literatura mais séria do que se pensa: aquela que discute a relação da sociedade com o dinheiro.

É inegável que muitos escritores, ao se dedicarem ao gênero, tinham uma única intenção: ganhar grana para seu sustento. Talvez esteja aí uma explicação para fato curioso: a proliferação de pseudônimos na hora de assinar as obras. Com a vantagem de que o autor, escondido, ainda se livrava do constrangimento de estar fazendo literatura tachada como menor.

Exemplos dessa prática – que aliou tanto os autores de qualidade quanto os medíocres – são incontáveis. Williard Huntington Wright ninguém conhece, mas e S. S. Van Dine? John Dickson Carr variava o nome para Carter Dickson. Ellery Queen eram os primos Manfred B. Lee e Frederic Dannay. J. J. Marric é John Creasey, que, exagerado, tinha outros 23 pseudônimos! Mais modesto, Ed McBain (cujo nome na pia-batismal era Salvatore Lombino) utilizava cinco: Evan Hunter, Richard Marsten, Hunt Collins, Curt Cannon e Ezra Hannon. Cornell Woolrich também assinava William Irish. Na carteira de identidade, Ross Macdonald era Kenneth Millar. (Melhor parar por aqui, pois poderíamos continuar até amanhã com este tipo de lista…)

O pseudônimo no romance policial tem – ou tinha – uma função diversa da do heterônimo. Este é uma tradição da literatura universal, também com inúmeros exemplos. Quem logo nos vem à cabeça é Fernando Pessoa, com Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e mais uma pá deles. No policial, mais do criar um autor fictício, o interesse era esconder-se. Os motivos são os mais variados, vão da vergonha ao sigilo profissional, da homenagem à estratégia de promoção.

(Não resisto e entrego mais dois nomes de escritores famosos. Escrevendo como Dan Kavanagh, o inglês Julian Barnes perpetrou quatro romances protagonizados por um detetive bissexual chamado Duffy. E Gore Vidal, em tempos de vacas magras, tornou-se Edgar Box nos anos 1950 para ter dinheiro em caixa. Os livros de mistério com o personagem Peter Cutler Sargent II (nome mais Gore Vidal, impossível) levavam poucas semanas para serem escritos, rapidez da qual o autor de “Juliano” muito se orgulhava.)

No Brasil, o expediente também funcionou. Com razões locais: acreditava-se que, usando um nome estrangeiro – no caso, bem americano ou inglês típico –, a obra teria mais credibilidade junto aos leitores. Na década de 1930, Jerônymo Monteiro criou o detetive Dick Peter, sob o pseudônimo de Ronnie Wells. Autor de mais de mil livros, Rubens Francisco Lucchetti poucas vezes viu seu nome na capa: lá constavam Terence Gracy, Mary Shelby, Vincent Lugosi, entre outros.

Em Portugal, havia o mesmo expediente. Andrade Albuquerque só fez sucesso quando virou Dick Haskins. Meu preferido, lá na terrinha, é Dinis Machado como Dennis McShade.

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John Banville lança romances policiais sob o pseudônimo Benjamin Black.

Contudo, o pseudônimo deu a volta por cima. Hoje, superando o desprestígio e a brincadeira de esconde-esconde, é adotado por razões de estima. Está mais próximo do charme e da importância dos heterônimos, pois cada nome escolhido reúne características literárias próprias. Na verdade, são mais heterônimos do que pseudônimos.

Puxando essa tendência estão dois dos mais importantes escritores de língua inglesa da atualidade: J. K. Rowling, fenômeno de vendas e de comportamento com a série Harry Porter, e John Banville, considerado um virtuoso do estilo e candidato ao Prêmio Nobel.

Mais parece o estranho caso do doutor Banville e do senhor Black. Quando ninguém está olhando, o primeiro escreve como o segundo. O autor irlandês faz questão de marcar a diferença entre as assinaturas. Com o nome que recebeu no cartório, firma obras como Luz antiga e O mar, num estilo poético e de rara beleza.  Com o “nom de plume”, produz romances policiais nos moldes consagrados pela turma de autores americanos que dominou o gênero entre os anos 1920 e 1960 do século passado: Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M. Cain, Richard Stark (outro pseudônimo: era assim que Donald E. Westlake assinava suas mais baratas e melhores histórias).

Para Banville, está em jogo o prazer do artesanato: inventa personagens e os põe em constante movimento. No meio, encaixa algumas situações-chave e, de preferência, algum cadáver. Está pronto um legítimo Benjamin Black.

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A estreia, com O pecado de Christine, editada pela Rocco, apresenta o patologista Garret Quirke, o personagem principal que, na Dublin dos anos 1950, vive imerso em culpas e pouco disposto a se conformar com a versão oficial dos fatos. Outro personagem, o inspetor Hackett, lembra, nas idiossincrasias, o comissário Maigret de Georges Simenon, evidenciando outra das influências do autor.

O cisne de prata, também lançada pela Rocco, é a segunda obra da série. Sucesso de vendas e de crítica, Benjamin Black assina ainda os romances The Lermur (publicado em forma de folhetim no jornal The New York Times, é uma história contemporânea, sem a presença de Garret Quirke); Elegy for April; A Death in Summer; Vengeance e Holy Orders. Todos com tradução prevista no Brasil.

Existe muito de John Banville em Benjamin Black, e vice-versa. De brincadeira, Banville costuma chamá-lo de “meu gêmeo idiota”. Em troca, Black o acusa de “pretensioso”. O certo é que, nos pesadelos do primeiro, está um dicionário de escritores editado em 2080. Nele lê-se na entrada destinada ao autor de O mar: “Banville, John. Ver Black, Benjamin.” Nem um nem outro levam-se demasiado a sério. O que fazem é alta literatura.

Prova maior disso é A loura de olhos negros. Banville/Black foi o escolhido pelos herdeiros de Raymond Chandler para escrever uma nova aventura do mítico detetive particular Philip Marlowe. A trama é “noir” puro: Clare Cavendish, rica proprietária de uma fábrica de perfumes, contrata Marlowe para encontrar o antigo amante, um boa-vida chamado Nico Peterson, que sumiu de circulação aparentemente sem deixar rastro.

O livro é uma façanha. Consegue o que parecia impossível: recuperar toda a atmosfera das obras originais e a voz especial do narrador. Uma recriação perfeita que abre a possibilidade de, no futuro, o surgimento de mais livros com Philip Marlowe. Um leitor de policiais não poderia sonhar com algo melhor.

J.K. Rowling

J.K. Rowling, que escreve também sob o pseudônimo de Robert Galbraith. [Foto: Dan Hallman/Invision/AP]

Muitas vezes o que nos leva de volta a um autor é o reencontro com o personagem, uma relação que pode se tornar mais íntima, para certos leitores, do que a de pessoas de carne e osso. É um dos segredos dos livros policiais em série: sentimos saudades de Sherlock Holmes e queremos estar de novo em sua companhia. Mais do que a trama ou o desfecho dela – que já conhecemos de cor ou nos lembramos mal tem início a leitura –, o fascínio está nas descrições do dia a dia de Holmes e do doutor Watson na esfumaçada Londres da Rainha Vitória.

Exímia na criação de tipos marcantes, J. K. Rowling conhece a estratégia de capturar a atenção como poucos autores de livros de entretenimento. Não foi diferente ao inventar um pseudônimo que mais parece um personagem: Robert Galbraith. Escolheu Robert porque é um de seus nomes preferidos e o do seu herói particular Robert F. Kennedy. Galbraith vem de uma fantasia de infância: ela gostaria de se chamar Ella Galbraith, vá lá se saber por quê. O disfarce da autora foi descoberto pelo jornal Sunday Times em 2013.

Pois a pena de Robert Galbraith, ele próprio totalmente inventado, pariu dois personagens tão críveis que dão a impressão de viver de fato na Londres pulsante dos dias atuais: o detetive e veterano de guerra Cormoran Strike e sua assistente Robin Ellacott. A dupla tem uma química de saltar faísca.

O chamado do Cuco, estreia de Galbraith, acertou na mosca ao retratar o mesquinho e altamente competitivo mundo da moda e suas celebridades instantâneas. A construção e elucidação do mistério que envolve o assassinato de uma supermodelo em nada devem aos clássicos do gênero.

Mas o que fica martelando suave na cabeça após a leitura é a estranha figura de Cormoran Strike: com dívidas financeiras, a vida sentimental em crise, dormindo numa cama improvisada nos fundos do escritório, um homem de um metro e noventa que usa uma perna mecânica, adora biscoitos e torce pelo Arsenal. Bela e sagaz, Robin Ellacott é a simpatia em pessoa. Aliás, a simpatia entre os dois é quase amor.

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O segundo romance da série traz um Galbraith com mão firme. O bicho-da-seda, que acaba de chegar às livrarias, é ainda mais contundente do que o primeiro ao mostrar a superficialidade da cena contemporânea. E, de certa forma, atirando contra o próprio pé, ou seja, abordando o meio editorial e revelando as entranhas do poço de vaidade no qual estão mergulhados editores, agentes literários, escritores e aspirantes a escritores.

Tudo sem perder o foco no suspense: Cormoran e Robin investigam o desaparecimento do romancista Owen Quine, que antes de sumir concluíra um livro retratando de maneira maldosa as pessoas que profissional e sentimentalmente eram próximas dele. Quine, descobre-se logo, foi brutalmente assassinado em circunstâncias que reescrevem na vida real as páginas de ficção que ele deixara inéditas.

Além do suspense mantido até as últimas páginas, são deliciosas as observações sobre a literatura: “Ah, quase todo mundo escreve hoje em dia. O mundo inteiro escreve romances que ninguém lê.” Definitivamente, não é o caso de Robert Galbraith. Ou J. K. Rowling.

* Álvaro Costa e Silva é jornalista

 

TAGS: A loura de olhos negros, Benjamin Black, J.K. Rowling, John Banville, O bicho-da-seda, O chamado do Cuco, Robert Galbraith, Romance policial,

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