O mapa, a cidade e a aventura

Samir Machado escreve sobre a pesquisa histórica e os locais de Londres em que se passa 'Homens elegantes'
10 de fevereiro de 2017


Mapa Londres 1746

Em um ensaio intitulado The Wilderness of Childhood [“A Natureza Selvagem da Infância”], publicado, o escritor estadunidense Michael Chabon afirma que “a maioria das grandes histórias de aventura, de O Hobbit à Os Sete Pilares da Sabedoria, vêm acompanhadas de um mapa. Isso porque toda história de aventura é, em parte, a história de uma paisagem, e da interrelação entre seres humanos (ou Hobbits, se for o caso) com a topografia”. Cada história de aventura, defende Chabon, é concebível apenas em termos do conjunto particular de geografias que se apresentam e determinam, literalmente, o curso da história. Li isso há mais de dez anos, e foi uma ideia que ficou comigo: uma história de aventura precisa ter um mapa.

O cenário que Érico Borges encontra em sua primeira aventura é a Londres de 1760. Reconstruir outra época e geografia é sempre um desafio, mas muito mais fácil do que inventar a sua própria (nisso, invejo os autores de aventuras fantásticas que se aventuram nessa tarefa). Outra vantagem de ter a Londres setecentista como cenário é que, ao contrário do Brasil no mesmo período, é um recorte de espaço e tempo muito documentado. Em livros, como London in the Eighteenth Century: a Great and Monstrous Thing, obra colossal do pesquisador inglês Jerry White que reconstitui todo um século na vida de uma cidade; em pinturas, como os quadros do veneziano Canaletto, e por último, por mapas.

Em 1746, após dez anos de trabalho, o cartógrafo John Rocque lançou o seu famoso Mapa de Londres, que serviu de base para as movimentações de Érico pela cidade. Isso me permitiu saber exatamente onde meus personagens estavam a cada momento da história, que distância os separavam de outros pontos, e assim evitar absurdos. Como no filme Sherlock Holmes, de 2009, onde Robert Downey Jr. começa a perseguir o vilão nos subterrâneos do Parlamento inglês e, em instantes, os dois saem na Tower Bridge – a quatro quilômetros e mais de 50 minutos de distância!

Ainda que alguns dos lugares citados no meu livro tenham sido escolhidos arbitrariamente, outros de fato existiram da forma como são descritos — sem contar os pontos turísticos tradicionais, como a catedral Saint Paul ou a Mansion House, onde se ambienta o baile que atravessa os capítulos 6 a 8. Ao confrontar o mapa de 1746 com o Google Earth nos dias de hoje — algo que qualquer um pode fazer através do site do David Rumsey Map Collection — tive como saber exatamente onde cada personagem estava, ou quantas quadras levaria para chegar ao seu destino.

Eis alguns dos lugares citados no mapa:

1 embaixada

74 South Audley Street, Mayfair: A Embaixada
Primeiro endereço de Érico na cidade, a embaixada portuguesa em Londres funcionou nesse endereço de 1747 a 1829, no mesmo prédio que ali se mantém até hoje. Hoje é uma casa particular, num dos endereços mais caros da cidade — cada uma custa algo em torno de 2,6 milhões de libras. Por ser um prédio histórico, há registros desde a planta baixa até dos entalhes no teto de cada andar.

Great Russel Street: o Museu Britânico
Primeiro museu público do mundo, fora inaugurado no ano anterior à chegada de Érico na cidade, então senti que ele precisava fazer uma visita. O prédio da época, Montagu House, foi demolido no século XIX para dar lugar à construção atual. No capítulo 18, quando Érico pensa estar sendo seguido, se esconde num pub em frente ao museu chamado “O Cão & Pato”. O mesmo pub existe no mesmo local até hoje, mas com o nome de “Museum Tavern”.

2 cachodeuvas

76 Narrow Street, Limehouse: “O cacho de uvas”
O pub onde os marinheiros do Joy Stick se reúnem já existia em 1760 e continua existindo até hoje, com o nome original The Bunch of Grapes resumido para somente The Grapes. No século XIX, foi frequentado por Charles Dickens e Oscar Wilde, mas a escolha deste para ser o ponto de encontro dos personagens se deu por um motivo particular: seu proprietário atual é ninguém menos que Ian McKellen, um dos mais proeminentes ativistas LGBT — além de melhor ator vivo, claro.

Haymarket: o Teatro de Sua Majestade:
Palco no capítulo 13 do “duelo na ópera”, o His/Her Majesty Theater (o gênero no nome do teatro muda conforme o do monarca reinante) ocupa o mesmo endereço até hoje, embora tenha sido reconstruído após um incêndio no final do século XVIII. É ali onde, nos últimos trinta anos, se apresenta o musical do O Fantasma da Ópera.

3 twinings

216 Strand: Twinings
A casa de chá frequentada por Érico e Maria tem uma importância particular na história — além de Érico ser obcecado por chá, é através dela que alguns personagens se reencontram. Na época em que a história se ambienta, a casa de chá já tinha quase trinta anos e estava na terceira geração. Continua ocupando o mesmo lugar até hoje, 300 anos depois.

• 8 Paternoster Row, City:
A livraria do Milanês se localiza numa rua notória na época justamente pela quantidade de livrarias que abrigava. Paternoster Row foi destruída nos bombardeios da II Guerra e no lugar hoje há uma praça.

3 prowler

• Old Compton Street, Soho: O Libertino da Lua
“Num trecho ao final da rua Brewer com a rua Wardour, conhecido como Knave’s Acre”. No capítulo 9, a cafeteria que se revela uma Molly House (equivalente da época à uma boate gay) tem um endereço bastante específico: no coração do Soho, próxima à Old Compton Street, o centro da comunidade gay de Londres. Hoje, o lugar é ocupado pela sex shop Prowler, Fica a cargo do leitor decidir em qual daquelas janelas a ação se passa.

• 21 New Bond Street, West End:
A casa alugada por Érico, e seu segundo endereço na cidade, foi uma escolha arbitrária: Cassino Royale, o 21º filme de James Bond, é meu favorito da série. Fosse como fosse o prédio que existia na época, já não existe mais. O endereço atual abriga uma loja da Burberry.

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