O labirinto da Aventura

por Samir Machado de Machado
1 de agosto de 2017


Quando conto que levei oito anos escrevendo meu primeiro romance, Quatro Soldados, costumo complementar explicando que não foram oito anos para produzir o texto escrito, nem mesmo a pesquisa, mas para encontrar o tom certo e uma voz autoral. Essa voz acabou se transformando na voz muito peculiar do narrador do livro, que reflete, de certo modo, a minha trajetória como leitor.

Começou, curiosamente, com a ocasião em que fui presenteado com os três primeiros livros de Harry Potter, os únicos disponíveis em português até então, no meu primeiro ano de faculdade. Tanto quanto a história e os personagens, o que me atiçou ali foi o modo como a história se estruturava num conjunto de enigmas e puzzles que os personagens precisavam desvendar, conduzindo à climaxes que envolviam sempre alguma espécie de jogo ou labirinto.

Terminada a leitura, quis mais. Vasculhei as prateleiras da biblioteca da universidade, e acabei encontrando o Baudolino, do Umberto Eco. A transição gradual do livro de um romance histórico para um romance fantástico-medieval mirabolante foi o segundo labirinto em que me perdi. Eco me levou aos contos de Jorge Luís Borges e, por fim, o labirinto maior que foi o Mason & Dixon de Thomas Pynchon. Quatro Soldados deve muito à todas essas leituras, e mais algumas tantas pelo caminho: as experiências formais que Antônio Xerxenesky fez no seu Areia nos Dentes, uma ideia de fusão de gêneros (faroeste com zumbis) que muito me empolgou.

Porque ao final, é preciso ser leitor antes de se aventurar a ser escritor. E por isso a leitura é tão importante aqui. Quatro Soldados é, essencialmente, a história de quatro leitores: Licurgo, o jovem e empolgado alferes que descobre o prazer da leitura ao encontrar uma biblioteca perdida, repleta de romances de cavalaria e antigas peças de teatro de vingança; o Andaluz, um contrabandista de livros que de tantas leituras já não consegue mais levar o mundo real tão a sério; o capitão Antônio Coluna, cuja visão estoica e dura da vida é moldada por se limitar a ler somente leituras técnicas, e por fim o soldado Silvério, cuja violência nasce da crença de que somente um livro deve ser lido – e o leitor pode supor qual seja.  Cada um dos quatro soldados se envolve em quatro diferentes jogos labirínticos, e por sua vez são confrontados por quatro animais que podem (ou não) serem fantásticos.

Quando escuto alguém, na pretensão de atribuir função à literatura, condenar a ideia de “entretenimento” como algo negativo, os imagino como um daqueles monges medievais se chicoteando nas costas enquanto leem. Parecem esquecer que Shakespeare era um autor popular, cujas peças competiam em pública com rinhas de cães do outro lado da rua, e que mesmo o prazer intelectual é uma forma de entretenimento. Ao final, essa é a crença que originou e que move Quatro Soldados: de que é o prazer da leitura, qualquer que seja a fonte desse prazer, aquilo que guia o leitor.

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