Notas sobre uma epidemia

Irvine Welsh, Daniel Galera e Pellizzari discutem Skagboys
22 de agosto de 2014


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“Toda cidade tem um Renton, um Sick Boy, um Spud e um Begbie”, sentencia Irvine Welsh sobre os célebres personagens de Trainspotting, seu primeiro romance, adaptado para o cinema em 1996 por Danny Boyle. Duas décadas depois da publicação, Welsh retorna à história que o consagrou como um dos mais brilhantes escritores britânicos dos anos 90. Em Skagboys, revela os eventos anteriores a Trainspotting e conta como garotos da classe operária passaram de jovens promissores a junkies, e como o consumo de heroína se alastrou por Edimburgo e a cidade ganhou o título de “capital da Aids na Europa”.

Em entrevista concedida ao blog da Rocco, Welsh explica que o retrato da geração que sucumbiu à crise econômica e social do governo de Thatcher transformou-se um sucesso mundial porque “os cenários são específicos a um lugar e um período, mas os personagens são universais”. Mas não poupa críticas às políticas do período. Para ele, o modelo neoliberal implantado nos anos 80, potencializado pela globalização, falhou. “Agora há um sistema socialista para os ultrarricos, que são protegidos pelas benesses do Estado, e dívidas e servidão para o resto de nós.”

A doutrina individualista também marca o uso de drogas. “Eu acho que o impulso para o consumo de drogas está relacionado ao impulso de consumir outros produtos. E nós fomos doutrinados para ver isso como um direito.”

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Assim como os demais títulos da trilogia — iniciada com Trainspotting e completada com PornôSkagboys foi traduzida a quatro mãos por Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Na entrevista abaixo, os escritores discutem o desafio de recriar a oralidade dos personagens-narradores de Welsh e transpor um universo de gírias e referências da Escócia da década de 1980 para o leitor brasileiro.

 

Rocco: Skagboys é um livro com diversas vozes. Como funcionou a dinâmica de trabalho em dupla para a tradução? Vocês dividiram os diferentes narradores entre si?
Galera & Pellizzari: Sim, usamos o mesmo método que funcionou em Trainspotting e Pornô. Os narradores são divididos entre os dois para a primeira tradução, seguindo critérios de afinidade do tradutor com a linguagem de cada personagem. Begbie, por exemplo, é sempre com Pellizzari; Renton é com Galera. E por aí vai. Depois cada um revisa o material do outro, mantendo contato constante e usando glossários em comum para padronizar termos e expressões, alguns deles montados por nós mesmos desde a tradução de Trainspotting. Depois disso é montada a versão final. A tradução em dupla funciona porque muito antes de traduzir Trainspotting nós já líamos os livros do Welsh e debatíamos o tempo todo a linguagem deles, e como poderia ser uma linguagem equivalente em português. Uma época a gente até conversava um pouco em “scots”, só pelo efeito cômico. Mas aquilo criou uma familiaridade que nos permitiu abordar a tradução a quatro mãos posteriormente, e também a responder em dupla a estas perguntas.


R: O texto original é marcado pela oralidade. Quais as principais dificuldades para transpor um universo de gírias e referências da Escócia nos anos 1980 para o leitor brasileiro atual?
G&P: Uma das dificuldades está no fato de que não existe um dialeto que dê conta de transmitir para todos os leitores brasileiros a oralidade dos narradores do Welsh. Nem teria como haver, já que acima de tudo são marcas locais indissociáveis do inglês falado em Edimburgo, com grande influência do “scots” em sintaxe e vocabulário. Optar, por exemplo, por utilizar o modo de falar da classe baixa de Porto Alegre ou São Paulo criaria problemas para leitores de outras regiões do país, e o resultado seria postiço. Outra complicação é o fato do discurso dos personagens variar muito no texto original, são idioletos bem marcados. Uns se expressam com abundância de gírias e sintaxe peculiar, outros empregam um inglês mais clássico e alguns misturam os registros ao sabor das situações. Além disso, Welsh faz uso de grafias fonéticas em diversos momentos. A intenção do autor ao misturar e variar a linguagem é expor as diferenças culturais e tensões de classe entre os vários personagens, muitas vezes com efeitos tragicômicos. Assim, nas nossas traduções do Welsh, evitamos abusar de regionalismos específicos de determinadas variantes do português brasileiro e tentamos criar uma linguagem coloquial, razoavelmente neutra e ocasionalmente fonética que desse conta das diferenças e tensões expressas na fala dos personagens e fosse compreensível para leitores de todas as partes do Brasil. Uma espécie de dialeto de lugar nenhum, familiar até certo ponto mas mantendo sempre alguma estranheza, algum caráter estrangeiro — impressão que de qualquer modo ecoa o efeito da linguagem original nos leitores anglófonos não escoceses.

 

SkagboysR: No livro aparecem personagens-narradores que também estão em Trainspotting e Pornô, mas aqui eles estão mais jovens. Como é esse processo de recriar vozes com as quais vocês já haviam trabalhado durante a tradução dos outros dois livros? Ser escritor ajuda numa hora dessas?
G&P: Não houve dificuldades nesse aspecto específico, pois a linguagem dos personagens que aparecem nos três livros se mantém coerente. Welsh produziu uma boa parte do material que deu origem a Skagboys na época em que estava escrevendo Trainspotting. Anos mais tarde reescreveu e reaproveitou esses textos para compor o novo livro. Desta vez nós já tínhamos a “chave” para traduzir a fala de personagens como Spud, Begbie e Sick Boy, que possuem formas inconfundíveis de se expressar, com gírias e cacoetes próprios. Mas sim, ser um ficcionista ajuda na hora de traduzir um livro desses, e na verdade em qualquer tradução literária. Uma certa dose de criatividade é necessária para fazer uma tradução mais fiel ao espírito do original.

 

☛ Leia um trecho de Skagboys

TAGS: CINEMA, Daniel Galera, Daniel Pellizari, Irvine Welsh, Pornô, Skagboys, Tradução, Trainspotting,

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