Notas sobre a tradução

por Bernardo Ajzenberg
28 de outubro de 2015


modiano

Montagem de fotos de Patrick Modiano [Crédito das fotos: Olivier Roller]

Para voce nao se perder no bairro_capaNotas sobre a tradução de Para você não se perder no bairro, de Patrick Modiano:

Patrick Modiano, embora pessoalmente uma “flor de pessoa” – mesmo depois de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura –, é um autor traiçoeiro. Tome cuidado com ele. À primeira vista, seu texto é simples, direto, sem pirotecnias estilísticas ou exibicionismo lexical. Vocabulário médio, cotidiano. Aos poucos, porém, avançando-se na leitura, as coisas começam a ficar um pouco embaralhadas, exigindo uma leitura, não difícil, mas vivaz. E aí começam, também, os maiores desafios para o tradutor.

Modiano joga com referências temporais e geográficas nem sempre óbvias.  Faz deslocamentos de épocas, trabalhando a questão da memória como algo imperfeito, cheio de lacunas e falsificações involuntárias. O leitor viaja com o texto. Mas o tradutor, esse, não pode viajar. Ao contrário, se viajar, estraga a tradução e, mesmo sem querer, boicota, estraga a viagem do leitor final.

Para você não se perder no bairro tem muito disso, a começar pelo próprio título. Em francês, a frase tem tom coloquial. Literalmente, daria algo como “Para que você não se perca no bairro”, que não tem o mesmo embalo que o título escolhido.

Outro aspecto, nos livros de Modiano, diz respeito à imensa quantidade de menções a bairros, ruas, edifícios, pequenas cidades. Um mapa ajuda muito, mesmo que, como tradutor, você não seja obrigado a saber se esse ou aquele nome é real ou inventado.

No caso específico de Para você não se perder no bairro, Modiano reúne, em relativamente poucas páginas, uma quantidade imensa de detalhes: sons de passos no cascalho, na escada, imagens fluidas a partir da janela de vidro de um café, pessoas atrás de balcões, roupas mais ou menos expressivas, jargões relativos a apostas em hipódromos, uso de expressões sintomáticas da condição social ou da profissão de cada personagem, ruídos noturnos, sensações de medo, susto, apreensão…

Para o tradutor, então, é muito importante encontrar as palavras exatas, para manter em português toda a riqueza e a variedade de sentimentos e imagens que o autor procurou produzir, além da cadência da escrita original.

Desse trabalho dependerá a possibilidade, para o leitor do português, de usufruir mais plenamente de uma obra tão singular e envolvente como a de Modiano.

 

Bernardo Ajzenberg é escritor, tradutor e jornalista. É autor, entre outros livros, de A Gaiola de Faraday  (prêmio de Ficção do Ano da Academia Brasileira de Letras), Homens com mulheres (finalista do Prêmio Jabuti), Olhos secos (finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura) e Minha vida sem banho (Prêmio Casa de las Americas).

 

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