Melhores do ano Rocco

Conheça os títulos que ganharam destaque em 2018
21 de dezembro de 2018


2018 foi um ano repleto de ótimos livros e alguns deles acabaram caindo nas graças do público e da crítica! Confira a lista abaixo!

A única história, de Julian Barnes (eleito um dos melhores livros do ano pelo Estadão & Hypeness)

A maioria das pessoas só tem uma história para contar. Cada existência é coberta por inúmeros acontecimentos, que são transformados em inúmeras histórias – mas só uma importa, só uma vale a pena ser contada. Esta é a de Paul. Em A única história, Julian Barnes, um dos maiores autores em língua inglesa da atualidade, vencedor do Man Booker Prize com O sentido de um fim, volta a abordar questões como tempo e memória – que também são centrais em seus recentes e magistrais Altos voos e quedas livres e O ruído do tempo – num romance terno e contemplativo sobre amor e maturidade.

Aos 19 anos, durante as férias, talvez na esperança de que por lá conhecesse uma moça de tendências conservadoras confiáveis, a mãe de Paul sugeriu que ele entrasse para o clube de tênis da tradicional e afluente zona residencial ao sul de Londres ondem viviam. Sua parceira dentro e fora das quadras, no entanto, foi Susan, uma mulher casada e quase trinta anos mais velha. Mas o encontro não foi um simples interlúdio de verão: Paul e Susan ficariam juntos por mais de uma década.

Naqueles intensos anos 1960, o relacionamento se tornou duplamente proibido. Enquanto as normas sociais dominantes consideravam imoral um caso entre pessoas com tamanha diferença de idade – eles logo seriam expulsos do clube de tênis –, os novos mandamentos que começavam a surgir em meio àquilo que os jornais chamavam de Revolução Sexual – uma época de amores livres e prazeres imediatos, sem culpa – viam qualquer tipo de compromisso emocional como algo ofensivo e degradante. Contra tudo e todos, no entanto, o jovem Paul tinha certeza de que o amor era incorruptível e à prova de manchas.

Mas quem é capaz de controlar o quanto ama? Você prefere amar mais e sofrer mais ou amar menos e sofrer menos? Décadas depois, essa é para Paul a única e verdadeira questão. Ciente das falhas, filtros e surpresas da própria memória, ele reconstrói o início daquela paixão e tenta entender como, gradualmente, após estar certo de ter libertado Susan de um casamento abusivo e de que, juntos, viveriam a única história – tanto a sua quanto a dela –, tudo desmoronou. De algo, porém, Paul ainda não tem dúvidas: o primeiro amor marca uma vida para sempre. Ele pode não superar os que vêm depois, mas estes serão sempre afetados por sua existência. Pode servir de modelo, ser o contraponto, ofuscar amores subsequentes ou, por outro lado, torná-los mais fáceis, melhores. Embora, às vezes, cauterize o coração e faça com que só haja cicatrizes.

Notícias em três linhas, de Félix Fénéon (eleito um dos melhores livros do ano pelo jornal O Globo)

“Cochet, nas redondezas de Bordeaux, não sabia que a espingarda estava carregada. Estava. Dois órfãos.” Muito antes da invenção do Twitter, o editor e crítico de arte Félix Fénéon fez sucesso com uma coluna de pílulas noticiosas em 135 caracteres no jornal francês Le Matin. O ano era 1906, e Fénéon soube exprimir com maestria o espírito de sua época, ao contar fatos curiosos do dia a dia de Paris e de seus arredores com olhar crítico e humor cáustico. Traduzido por Marcos Siscar, em parceria com Adriano Lacerda, a partir do original francês Nouvelles en trois lignes, Notícias em três linhas revela não só a perspicácia de Fénéon e sua incrível capacidade de síntese ao narrar os acontecimentos mais comezinhos, mas também uma visão um tanto desencantada da modernidade, ao colocar em evidência principalmente o caos e a violência presentes no cotidiano parisiense no início do século XX.

Félix Fénéon (1861-1944) marcou a vida parisiense da virada do século XIX para o XX. Com forte atuação política, foi amigo de artistas plásticos como Paul Signac e Georges Seurat, diretor da Revue Banche, prestigiosa revista de arte e literatura francesa, onde publicou nomes como o do escritor Marcel Proust. Mas foi pouco conhecido o seu talento de concisão como escritor e jornalista, capaz de transformar pequenas notícias do cotidiano em textos irônicos e refinados, em uma época em que o Twitter estava longe de ser inventado e as micronarrativas ainda não tinham se tornado tendência.

De maio a novembro de 1906, Fénéon foi redator do jornal parisiense Le Matin, onde colaborava com a coluna de atualidades “Notícias em três linhas”, composta por pequenos textos, que não passavam de 135 caracteres e tinham um estilo quase telegráfico. Tratavam de crimes passionais, acontecimentos políticos, cenas curiosas da vida privada.

Os textos não eram assinados e costumavam ser escritos por diferentes jornalistas. As contribuições de Fénéon, porém, se destacavam pelo estilo e conseguiam deixar transparecer, mesmo em trechos tão reduzidos, suas posições pessoais: a simpatia pelas mobilizações sindicais e de classe, a rejeição aos valores burgueses, o absurdo da morte. Mesmo os acontecimentos mais banais ganhavam a aparência de um haicai “Dormir no trem foi mortal para o senhor Émile Moutin,/ de Marselha. Ele se apoiava sobre a porta;/Ela se abriu, ele caiu” (p. 39).

As micronarrativas jornalísticas do crítico só se transformaram em livro em 1848, após a sua morte; até então, permaneceram guardadas pelo autor em um caderno. Poeta e professor de Teoria da Literatura na Unicamp, Siscar, que assina o prefácio da edição, enfatiza que as notícias escritas por Fénéon não se esgotam na sua referência factual “(…) antes, dão destaque a uma visão política e quase trágica da existência”.

Notícias em três linhas faz parte da coleção Marginália, uma reunião de textos que costumam habitar as bordas do universo literário. Cartas, diários, artigos de jornal e papéis avulsos de todo tipo compõem os livros, em edições cuidadosas organizadas por críticos e pesquisadores.

Lá não existe lá, de Tommy Orange (eleito um dos melhores livros do ano pelo New York Times e Hypeness)

Estreia literária do americano descendente de indígenas Tommy Orange e um dos livros mais aclamados de 2018 (o New York Times publicou um artigo com o título “Sim, o novo romance de Tommy Orange é mesmo isso tudo”), Lá não existe lá chega ao Brasil pela Rocco e apresenta ao leitor uma narrativa exuberante e inovadora sobre identidade, tradição e tragédia. Pelos olhos de diversos personagens, “índios urbanos” da Califórnia cujas histórias vão convergir no Grande Powwow de Oakland, Orange mostra uma América (do Norte, mas que também faz refletir bastante sobre a do Sul) que muitos se recusam a enxergar.
Powwow é um evento tradicional da cultura indígena norte-americana que promove a integração entre grupos por meio da música. Ou, nas palavras de Tony Loneman, “a gente se veste de índio, com penas e miçangas e tudo. A gente dança, canta e bate um tambor grande, compra e vende troços de índio tipo joias e roupa e arte”. Tony não vai perder o Grande Powwow de Oakland: pretende assaltá-lo com uma arma impressa em 3D. Já Dane Oxendene estará lá para honrar a memória do tio, morto recentemente. Jacquie Red Feather parou de beber e pretende voltar a Oakland durante o encontro. E Opal Viola Victoria Bear Shield vai ver o sobrinho Orvil apresentar pela primeira vez uma dança que aprendeu no YouTube.
Todos eles são índios, todos eles nasceram numa grande cidade. São mais íntimos do som da rodovia que dos rios, do uivo dos trens que dos lobos, do cheiro da gasolina que do cedro, da visão dos prédios que das sequoias. “Andamos de ônibus, trens e carros através, sobre e por debaixo de planícies de concreto. Ser índio nunca teve relação com retornar à terra. A terra é toda parte e parte alguma”, escreve o autor. Todos eles procuram uns aos outros e a si mesmos.
Tommy Orange, que vem mencionando Clarice Lispector como uma de suas maiores influências literárias – já disse que A hora da estrela é seu livro preferido –, foi buscar em outra grande escritora, Gertrude Stein, a referência para o título do romance. Assim como ele (e os personagens de seu romance), Stein passou a infância em Oakland, Califórnia. Anos mais tarde, após uma visita ao lugar, escreveu: “Lá não existe lá”. “Ela se referia a como a cidade tinha se desenvolvido e estava irreconhecível. Usei a frase para fazer um paralelo à experiência dos nativos americanos e ao ‘lá’ da terra antes de ela ser colonizada, se desenvolver e ter fronteiras”, explicou o autor numa entrevista ao jornal britânico The Guardian.
Com urgência, ritmo e muita sensibilidade, Orange tece uma história que junta lirismo, beleza, crueza e desolação. Lá não existe lá é um livro sobre seres humanos que foram impostos a uma realidade estereotipada, anacrônica, artificial; sobre índios que cresceram vendo seus semelhantes sendo trucidados pelo revólver de John Wayne, salvos pela dança de Kevin Costner e representados por um ator italiano chamado Iron Eyes Cody; sobre a dificuldade de se construir um futuro quando não há passado.
Filhos de sangue e osso, de Tomi Adeyemi ( eleito um dos melhores livros do ano na categoria infantojuvenil pelo Entertainment Weekly, Amazon, Time, Newsweek e  Publishers Weekly)
A mitologia iorubá é o fio condutor de Filhos de sangue e osso, que marca a estreia de Tomi Adeyemi na literatura. Graduada em literatura inglesa em Harvard, a escritora norte-americana de origem nigeriana recebeu uma bolsa para estudar cultura africana em Salvador, na Bahia, onde se inspirou a criar um universo de fantasia onde a magia dos orixás corre o risco de se perder para sempre. O livro abre a trilogia O legado de Orïsha e conta a história de Zélie, uma jovem disposta a lutar contra a opressão sofrida por seu povo. Considerado um dos grandes lançamentos do ano nos Estados Unidos, Filhos de sangue e osso ocupa as principais posições do ranking dos mais vendidos do The New York Times desde o lançamento, há 28 semanas, e já chega ao mercado com adaptação negociada para o cinema pela Fox e publicação em mais de 25 países.
Em um mundo similar à África subsaariana, Zélie se lembra de quando o solo de Orïsha zumbia com a magia. Tudo mudou quando o rei Saran varreu do mundo a magia, e seus guardiões, os maji. Filha do casamento entre uma mulher maji e um homem kosidán, Zélie viu a mãe ser assassinada quando tinha apenas seis anos. O tirano rompeu a ligação dos humanos com as deidades e a Mãe Céu, criadora de tudo, e ordenou o assassinato de todos os maji do reino. Nem seu pai, que carregava o sangue da elite do Reino de Orïsha, conseguiu impedir a morte da esposa.
Mas Saran não contava com a força dos oprimidos. Ao longo dos anos, coube à Mama Agba preservar, às escondidas, a cultura dos maji, ainda que a magia não estivesse mais presente entre eles. Quando Amari, a filha do rei, rouba um objeto que pode guardar a chave para recuperar os poderes dos maji, Zélie e o irmão Tzain se juntam a ela em uma jornada perigosa. A missão passada pelos deuses é reunir três artefatos e levá-los ao Templo Sagrado. Caso o trio falhe, a magia estará perdida para sempre.
Em uma narrativa ágil e emocionante, Tomi Adeyemi aborda temas como cultura africana, a força da ancestralidade e o protagonismo das mulheres e dos negros. Embora seja uma trama de ficção, Filhos de sangue e osso funciona como metáfora para questões sérias como racismo e o medo do que é diferente. Deixe-se envolver pela energia dos orixás e descubra a magia guardada nas palavras da autora.
A menina da montanha, de Tara Westover (Eleito o livro do ano pela Amazon. Escolhido como um dos livros do ano pelo Bill Gates e indicado pelo ex-presidente americano Barack Obama, além de figurar entre a lista dos mais vendido do NYT)
Tara Westover tinha 17 anos quando pisou pela primeira vez numa escola. Criada nas montanhas de Idaho, nos Estados Unidos, ela cresceu preparada para enfrentar o fim do mundo. Sua casa era praticamente um abrigo antiaéreo com estoque de comida. Tara também nunca foi a um médico. A família vivia totalmente isolada da sociedade, sem ninguém para oferecer uma educação formal, ou para proteger a jovem dos ataques violentos de um irmão mais velho. Quando um dos irmãos da jovem conseguiu chegar à universidade e trouxe notícias da vida além das montanhas, Tara decidiu tentar um novo estilo de vida. Ela aprendeu, de forma autodidata, matemática, gramática e ciência, e conseguiu chegar à universidade, onde estudou psicologia, política, filosofia e história. Sua busca por conhecimento a transformou e a levou para Harvard e Cambridge. A trajetória de superação de Tara é contada em A menina da montanha, um dos mais aclamados lançamentos do ano. Narrado com ritmo e fôlego de romance, o relato autobiográfico ocupa os primeiros lugares da concorrida lista dos mais vendidos do The New York Times desde o lançamento, acaba de ser eleito o livro do ano de 2018 pela Amazon e já figura entre as principais listas dos mais vendidos do Reino Unido, Canadá, Itália e Irlanda, países onde foi lançado.
A menina da montanha é uma história em duas partes. Na primeira, Tara Westover conta a história de sua infância nas montanhas de Idaho, nos Estados Unidos. Sua família era mórmon, seus pais justificavam suas atitudes segundo a vontade de Deus e ela cresceu esperando o fim do mundo, longe da escola, vendo seu pai construir um abrigo subterrâneo, estocar conservas de pêssego e enterrar galões de gasolina, que deveriam garantir a sobrevivência depois do colapso final. Na segunda, Tara conquista algo que nunca achou possível: chegar à faculdade. Aos 17 anos, autodidata, ela começa a trilhar uma bem-sucedida trajetória acadêmica, que a levou ao doutorado e a cursar instituições de prestígio como Cambridge e Harvard. Duas partes que parecem, a princípio, absolutamente opostas, mas que constituem etapas de uma mesma história.
Durante a infância e a adolescência, Tara estava acostumada a ouvir os sermões do pai, contra o governo; às escolas, que produziam uma lavagem cerebral; aos hospitais, lugares para pessoas sem fé, e sobre a vontade de Deus. A rotina era dura, a mãe produzia óleos essenciais, trabalhava como parteira e era responsável pelo abastecimento da cozinha. Tara e os seis irmãos precisavam ajudar os pais nas duras tarefas da casa e ainda existia Shawn, o irmão violento que a espancava constantemente. O destino parecia traçado: ela se casaria, teria uma penca de filhos e levaria a vida mais ou menos como sua mãe fazia.
Tyler, um dos seus irmãos, foi o primeiro a querer mudar o destino. Ele comprou livros, estudou sozinho e conseguiu ser admitido em uma universidade. Incentivada por ele, Tara fez o mesmo. Fora do domínio da família, ela se deparou com muito mais do que os livros podiam ensinar. Viu que nem tudo era indecente, que as mulheres poderiam ter uma ambição diferente de casar, ter filhos e obedecer ao marido e que o fim do mundo talvez não estivesse tão próximo assim. Durante uma pesquisa de psicologia, descobriu algo aterrador, que o pai deveria ser portador de um transtorno bipolar e que as histórias que ela sempre acreditou eram fruto de uma mente perturbada.
A menina da montanha é uma trama surpreendente, que parece inventada por uma mente criativa, mas é a história de vida da própria autora. Para ela, sua trajetória é a prova do poder transformador da educação.

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