Lima Barreto: um escritor em processo

por Alvaro Costa e Silva
21 de julho de 2017


Lima Barreto: um escritor em processo

Lima Barreto nunca esteve tão em voga. Homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, com obras relançadas e novas antologias de seus textos e crônicas nas livrarias, o escritor carioca enfim parece ocupar o lugar que lhe é devido na literatura brasileira. Luciana Hidalgo, há muito tempo sabe da importância de Lima Barreto. Tanto que se dedica a estudá-lo com afinco. Ela já dedicou dois livros a ele. Em 2008, publicou o ensaio Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura, no qual constrói um novo conceito de estudo, explorando as situações-limite da vida – as internações no Hospital Nacional dos Alienados, na Urca – e da obra do autor – a escrita do Diário do hospício.

Em O passeador (Rocco, 2011), Luciana cria uma instigante ficção: o jovem Afonso – já com quase todos os traços marcantes do futuro Lima – perambula pelas ruas do Rio de Janeiro no início do século 20. De passo trôpego e olho crítico na reforma urbana, é um personagem que funciona não só como observador como também como guardião da cidade que, àquela altura, já era outra.

Autora premiada com dois Jabutis, Luciana Hidalgo lançou recentemente Rio-Paris-Rio, a história de Maria e Arthur, dois jovens que estão em Paris às vésperas do Maio de 68. Nesta entrevista em torno de Lima Barreto, ela antecipa alguns dos temas da mesa na Flip da qual irá participar: “Moderno antes dos modernistas”.

A descoberta

Lima Barreto entrou na minha vida de maneira curiosa. Fiz contato mais profundamente com ele quando escrevi o livro Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto. Eu estava à procura de livros que falassem da loucura e da vida nos hospícios. Mas não me adiantavam livros históricos nem estudos ligados à psiquiatria, que de certa forma representam o poder dominante. Um dia deparei-me com o Diário do hospício. Aí eu entendi tudo, entendi o que era estar num hospício do ponto vista de um internado, ou seja, do ponto de vista do dominado, não do dominador.

Literatura da urgência

O Lima foi internado duas vezes, e as duas vezes por alcoolismo em estágio avançado. Ele tinha delírios. Mas, 48 horas depois, não apresentava nenhum quadro psiquiátrico. Portanto, um tipo de livro como o Diário do hospício resulta numa escrita muito particular.  Os temas do Lima estão totalmente contaminados por tudo o que ele viveu ali dentro. Não é uma escrita regular, feita numa situação de vida normal. Existe o elemento da urgência, da emergência, daí que o conceito “literatura da urgência” foi surgindo para mim aos poucos. A literatura da urgência se caracteriza por uma literatura no limite dentro de uma situação de limite.

Loucura

No Diário do hospício, Lima escreve para provar que não está louco. Ou para não enlouquecer. Essa possibilidade assombra o escritor, que se propõe a fazer quase um tratado sobre a loucura. E, provando que está em perfeitas condições como escritor, resolve, por exemplo, investigar a linguagem do delírio. A loucura também aparece em outras obras do autor. Obviamente, em Triste fim de Policarpo Quaresma: personagem-título acaba internado na Urca, o hospício oficial da época.  Nas Recordações do escrivão Isaías Caminha, há um personagem que enlouquece. Aliás, a publicação desta obra é de uma ousadia ímpar. Para ficar no tema, quase uma loucura. Só um escritor com muita coragem para lançar um roman à clef falando abertamente sobre o ambiente jornalístico da época.

Fora do padrão

Lima Barreto me fascinou por não se encaixar em nenhum padrão. Do ponto de vista social, intelectual ou – este menos ainda – literário. Existe até a dificuldade de etiquetá-lo em um movimento. Por convenção, tratam-no como pré-moderno. Será o tema da minha mesa na Flip: “Moderno antes dos modernistas”. Lima Barreto morre em 1922, o ano da Semana de Arte Moderna.  E, quando ele começa a escrever, o modelo literário a ser seguido era o de Coelho Neto, o grande escritor da época, que não só vendia bem, mas era mimado por seus pares e até homenageado pelo presidente da República. Se você lê o Coelho Neto, o escritor ideal daquele momento, você entende perfeitamente a ousadia que o Lima encarnou. Apesar de tocarem ambos em temas burgueses, um não tem nada a ver com o outro. O Lima apresenta uma linguagem fluida, direta, sem rebuscamentos. Com grande consistência e refinamento. Ele escreve bem demais. E, no caso dele, escrever bem não é ficar preso às regras da gramática.

Work in process

Ele morreu aos 41 anos. E que autor, com essa idade, deixa uma obra tão completa e madura? Um escritor em work in process. A sua trajetória vai num crescendo. Mas é importante lembrar que, a certa altura do Isaías Caminha – ou seja, seu primeiro livro publicado – há uma frase, que não recordo textualmente, mas que é mais ou menos assim: “Não é o valor literário dessa obra que me interessa, mas a sua finalidade.” Lima estava mais preocupado com o conteúdo. Ele queria que sua obra tivesse um caráter político-social transformador. E tinha pressa em dizer, em escrever. Eu acredito que se o Lima tivesse vivido até os sessenta anos, ele teria relançado muitos de seus livros, dando-lhe forma mais acabada e definitiva.

O passeador

Sempre me impressionou a época de transformações na virada do século 19 para o século 20. E a efervescência literária e de vida literária no mesmo período, em especial no Rio de Janeiro, que talvez tenha sido a maior no Brasil. No romance, quis colocar o Lima no centro dessa tensão com a modernidade. Modernidade que, no Rio, se traduzia nas mudanças urbanas. O personagem anda pela cidade, mas anda debochando da própria cidade, que se julga europeia, parisiense.

Lima jovem

A questão da juventude do personagem surgiu porque, para a romancista, era desafiador que fosse dessa maneira. Pois me dava liberdade de criar. Não se conhecem muitos dados da infância e da juventude do escritor, e isso me permitiu mergulhar na ficção. A própria personagem Sofia, que faz um contraponto feminino, fica entre a mulher concreta e a musa idealizada.

Questão racial

Lima escreveu do ponto de vista dos excluídos, dos pobres e dos negros. Só que ele teve acesso à educação que era oferecida aos ricos brancos. De segunda a sexta, estudava no regime de semi-internato, e no fim de semana voltava para a casa do pai numa colônia de alienados na Ilha do Governador. Um enorme contraste. Como se um menino hoje estudasse no São Bento e morasse no Vidigal. O problema que o Lima teve de enfrentar era o da sua cor associada ao desnível social. Mas a questão da cor teve mais peso, marcou-o mais fundo.

Flip

Lima Barreto estava esquecido. Deve-se lembrar que foi a universidade que o resgatou. Mas acho que todas as iniciativas além do gueto são válidas. Popularizar o Lima é importante. Quando eu dava aulas na Uerj, ele era um sucesso entre os estudantes jovens de origem humilde. Eles o achavam mais fácil de ler e entender do que Machado de Assis. Era uma situação que eu até estranhava.  Esses alunos descobriram na universidade um autor que poderiam ter conhecido numa Flip. O Lima ser homenageado hoje não deixa de ser um desagravo. Pois ele já teria merecido a homenagem há muito tempo.

 Rio-Paris-Rio

Em Rio-Paris-Rio, meu romance mais recente, os personagens também andam muito, assim como acontece em O passeador. Há um pensamento do escritor argentino Ricardo Piglia segundo o qual “é fácil criar os personagens. Difícil é fazê-los saírem de casa”. Descobri que os meus personagens saem de casa em busca da cidade, na linha Baudelaire, na linha flâneur. Eles não saem para se locomover simplesmente, mas para confrontar criticamente aquele espaço. No caso de Paris, a cidade é a paisagem do exílio e da solidão, vista de uma perspectiva política. Além disso, andar na cidade faz a gente criar.

*Alvaro Costa e Silva é jornalista

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