Kate Morton ou a roupa nova do gótico

por Vivian Wyler
11 de julho de 2014


Embora seja comum identificar-se o estilo gótico na literatura com vampiros, e não se esteja totalmente errado ao fazê-lo, o gótico é caracterizado por vários outros elementos aparentemente mais “banais”e muito mais enraizados na literatura de consumo de nosso tempo. Poderíamos resumi-los dizendo que muitos romances góticos têm relação com uma casa, a mulher que está nela confinada ou a comanda, e tudo que emana e decorre de sua existência. Poderíamos ser até mais precisos e dizer que esta é a característica do que a pesquisadora Anne Williams, em seu livro Art of darkness – a poetic of gothic, chamou de gótico feminino, um dos gêneros que ganharam corpo quando, nas palavras de Virginia Woolf, aconteceu, no século XVIII, um evento mais impactante do que as Cruzadas ou a Guerra das Rosas: “a mulher de classe média começou a escrever.”

“As Irmãs Brontë” (1834), de Patrick Branwell Brontë.

E sobre o que escrevia essa mulher? Sobre a imensa possibilidade de a voz feminina romper a casca, questionar a cultura patriarcal e sair da passividade estereotipada, tão restritiva quanto os cordões de um corpete. Tais preocupações derramaram-se sobre o papel de formas diferentes, é claro, vindas das canetas de escritoras do século XIX como as irmãs Brontë, ou a imensamente popular Ann Radcliffe, cultora de atmosferas sobrenaturais que, no entanto, não embaçavam a essência do que ela propunha. Segundo Ellen Moers, “uma mulher examinada através dos olhos de uma mulher, garota, irmã, mãe”, uma mulher que dá forma visual ao “medo de si mesma”. Preocupações que foram moldadas, também, pelas mãos das chamadas escritoras sensacionalistas, para quem a chave de um novo tempo estava em alcançar a maior audiência possível, através de narrativas onde o segredo-que-será-revelado era uma parte crucial, que se enredava na violência doméstica, no crime e, para Elaine Showalter, no segredo mais importante de todos, “o desgosto das mulheres com relação a seus papéis de filhas, esposas e mães”, o que as levava a sufocar seus impulsos imaginativos e suas fantasias escapistas. 

A escritora Kate Morton, uma autora contemporânea que bebeu em todas essas fontes, detalha os ingredientes do seu caldo neogótico na “Nota da Autora” que compôs para seu romance de estreia, A casa das lembranças perdidas (2008).

O passado assombrando o presente; a insistência em segredos de família; a volta do que foi reprimido; a centralidade da herança (material, psicológica e física); casas mal-assombradas (especialmente assombrações metafóricas); desconfiança em relação a novas tecnologias e a novos métodos; mulheres aprisionadas (seja física ou socialmente) e a claustrofobia decorrente; duplicação de personagens; a inconfiabilidade da memória e a natureza parcial da história; mistérios e o desconhecido; narrativa confessional; e textos a serem lidos nas entrelinhas.

Se transcrevo esse trecho da Nota, verdadeira carta de intenções, eu o faço porque ele embasa meu olhar sobre os livros de Morton, uma escritora que deve seu estrondoso sucesso inaugural, repetido com os livros O jardim secreto de Eliza (2009), As horas distantes (2012) e o recente A guardiã dos segredos do amor (2014), à recriação criativa e criteriosa desses ingredientes. Em seus livros, tudo está no lugar em que deveria estar. As mulheres que desejam ser profissionais, convenientemente isoladas do calor doméstico, as empregadas, à mercê dos caprichos e segredos de seus patrões. Há amores fadados ao fracasso que a ordem social impõe, irmãos que se amam e se odeiam na mesma medida, e casas que guardam os “esqueletos” de humanas paixões. O que faz a diferença, aqui, é a costura sutil de Morton, uma australiana que, com olhos de colonizada, monta uma roupa novinha para um gênero nascido à sombra da civilização de seu colonizador.

A autora australiana Kate Morton. (Créditos: Gillian Van Niekerk)

O resultado de seu trabalho impecável são livros que brincam com as categorias nos quais se inscrevem, que enfiam os pés no lodaçal de gêneros e subgêneros sem medo, com apetite comparável ao que a canadense Margaret Atwood revelou em sua estreia romanesca, com Madame Oráculo (1976). Kate Morton, no entanto, mesmo tendo absoluto controle da manipulação que faz do material que escolheu abordar, não é Atwood. Ela admite e incorpora, na integralidade, a fórmula, diverte-se com ela, trabalha e retrabalha parâmetros em amorosa investigação, e, volta e meia, sai do papel de escritora e se coloca no papel de leitora. Não à toa suas personagens femininas, numerosas, giram sempre em torno de três: duas que sofrem as marchas e contramarchas de suas vidas e uma que é a observadora, a que lê, a que junta as pontas soltas, a moderna Ariadne que desvenda os labirintos do que todos gostariam de deixar enterrado para sempre.

Nos livros de Morton, são perfeitamente discerníveis as muitas camadas de leitura por ela propostas. Na primeira camada, está a trama bem-urdida, em que é exposto um mistério que só se resolverá ao final do romance. Na segunda camada, transparece a pesquisa da autora, nada servil. Na terceira, o uso de textos onde “fala o coração”: cartas, diários, anotações, dedicatórias, lugares onde, reconhecem as pesquisadoras de hoje, pulsaram formas ainda brutas de autobiografia feminina. A narrativa produzida pela aposição das três camadas satisfaz a leitora plenamente. A percepção de uma, apenas, é suficiente para seduzi-la a avançar pela trama, onde há mais de uma reviravolta e mais de um clou, ou lance espetacular.

A casa das lembranças perdidas é um drama passado entre os anos de 1914 e 1924. Como acontece em todos os livros da autora, há um personagem no presente que investiga algo que aconteceu em outra época. A atualidade é Grace Bradley, que, ainda viva em 1999, é a única sobrevivente da tragédia da casa de Riverton, quando o poeta Robbie Hunter suicidou-se, assistido pelas irmãs Hannah e Emmeline. O cardápio de suas culpas serve como introdução ao universo da autora, onde há um detalhamento dos costumes britânicos digno de Assassinato em Gosford Park ou Downton Abbey. O jardim secreto de Eliza é a saga de três mulheres – bisavó, avó e neta – a partir do acaso que deposita a menina Nell em um cais da Austrália, virtualmente desacompanhada e órfã. É neste livro que a autora, que gosta de se definir como discípula de Evelyn Waugh e Daphne Du Maurier, introduz um elemento que volta a explorar, com maestria, em As horas distantes e A guardiã dos segredos do amor: o forte diálogo com os contos de fadas e a literatura de massa de épocas anteriores. Em O jardim secreto de Eliza, referência explícita, mesmo no título em inglês (The forgotten garden) à obra consagrada de Frances Hogdson Burnett, surgem contos destinados às crianças, escritos, como na era vitoriana, com mensagens subterrâneas de insubordinação. Tal como as criaturas engendradas por Christina Rossetti e Anne Thackeray, os personagens que brotam da imaginação de Eliza alinhavam, pelo avesso, toda a frustração da vida de sua criadora. Em As horas distantes, uma carta, escrita durante a Segunda Guerra, chega ao seu destino muito tempo depois, na década de 90. O acontecimento cria uma turbulência a mais na relação já conturbada de Edie e sua mãe, Meredith, uma garota que, durante o conflito, havia sido evacuada de Londres e enviada para Midlehurst Castle, no condado de Kent, lar de Raymond Blythe, escritor de histórias infantis, e suas três filhas, as agora solteironas Percy, Saffy e Juniper. Trechos do livro mais famoso de Blythe, “O homem de lama”, são evocados ao longo da narrativa que tem uma nada tênue ligação com a obra de Agatha Christie.

Em A guardiã dos segredos do amor há um escritor medíocre, Henry Jenkins, cuja ficção é inspirada nos fatos deturpados de sua pouco edificante vida. É a ele, e mais pesquisas no Google, livros, diários de personagens secundários e cartas, que a atriz Laurel Nicolson recorre ao tentar entender a vida pregressa de sua mãe, Dorothy, voluntária durante os bombardeios de Londres, amante do fotógrafo Jimmy e suposta amiga de Vivien, mulher de Jenkins. Este é um livro com mais subtramas do que o habitual em Kate Morton, e pequenas surpresas, aqui e ali, na forma de referências aos livros anteriores. É assim que temos uma doméstica, como em A casa das lembranças perdidas, uma história para crianças que permeia todo o mistério do livro – Peter Pan, de J.M.Barrie, a epítome do conto de fadas moderno –, o crime propiciado pelo destino e até a carta que não deveria chegar, mas chega, trazendo consequências nefastas. Quarto livro da autora, ele a capta mais madura, ainda mais senhora da técnica que vem burilando ao longo dos anos.

Leia um trecho de A guardiã dos segredos do amor

Em Gothic & Gender – an introduction, Donna Heiland explica que o gótico, depois de sofrer um declínio em meados do século XX, chegou ao início do novo século mais popular do que nunca, renovado e reinventado, sem perder, no entanto, sua essência. Borrando seus contornos, flexibilizando as dicotomias que lhe são características, o gênero manteve o namoro com o sublime, o inadequado e o hostil, enquanto confundiu vilões e vítimas, e complicou as tramas, de modo a abarcar o olhar “plural e fraturado que associamos com a ficção pós-moderna e o mundo multicultural”. Kate Morton se inscreve nessa nova tradição. Consciente de que é uma autora de literatura de massa, que busca a maior plateia possível, ela utiliza os elementos consagrados secularmente com inteligência, partindo da premissa que será inteligente, também, sua apreensão pela leitora. E é essa generosidade atenta, sem dúvida, seu maior diferencial.

 Vivian Wyler é gerente editorial da Rocco.

 

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Comentários sobre "Kate Morton ou a roupa nova do gótico"

  1. Ela é fantástica, comecei com “O jardim secreto de Eliza”…depois li os outros e sempre fico ansiosa para ler o próximo. Ontem comprei “A guardiã dos segredos do amor” e não vejo a hora de chegar…

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