Julian Fellowes: de “Downton Abbey” aos anos 90

por Olga Mello
12 de agosto de 2016


A fleuma e o humor britânico do autor de Esnobes

Em 2002, oito anos antes de conhecer o sucesso mundial com a série Downton Abbey, o inglês Julian Fellowes ganhava um Oscar pelo roteiro de Assassinato em Gosford Park. Uma tragicomédia de mistério, dirigida e idealizada pelo cineasta americano Robert Altman e pelo ator Bob Balaban, Gosford Park trazia claras referências do filme A regra do jogo, do francês Jean Renoir, e da série de televisão britânica Upstairs, downstairs, que apresentam aristocratas e seus empregados como grupos que coexistem, cultivam respeito mútuo e jamais se misturam – em cenários anteriores à Segunda Guerra Mundial.

Para pontuar a surda luta de classes entre nobres e serviçais, Gosford Park mostrava dignidade, generosidade, egoísmo, inveja, honra e senso de dever em quase todos os personagens – uma característica que Julian Fellowes levou tanto para Downton Abbey quanto para seu primeiro romance, Esnobes, publicado em 2004, que chega agora ao Brasil pelo selo Fábrica 231. O livro acompanha a ascensão de uma alpinista social que busca uma vida confortável através do casamento com um conde, em plena década de 1990. Ao abordar a aristocracia numa época mais permeável à interação intraclasses, mas que ainda mantém privilégios de berço a quem jamais precisará ganhar a vida exercendo uma profissão, Esnobes foi um sucesso na Inglaterra.

downtown

Anterior à democratização do status de celebridade entre artistas, atletas e demais plebeus incensados pela indústria cultural no século XX, o fascínio que a aristocracia desperta é inegável. No entanto, quem vive em países republicanos tem dificuldade em compreender a reverência destinada aos aristocratas por outros povos, como os ingleses.  Julian Fellowes, que recebeu um título de barão – honraria distribuída pelo trono britânico a figuras proeminentes da sociedade – e, consequentemente, uma cadeira na Câmara dos Lordes, tem desempenhado o papel de guia neste universo seleto pelo qual circula, principalmente depois de casar-se com a filha de um conde. O grupo é pequeno, mas há muito admite uma parcela de plebeus, o que fortalece, quando não salva, as finanças de famílias à beira da ruína. Entre as idiossincrasias descritas por Fellowes estão a da proximidade intensa, a ponto de costumarem dividir o mesmo endereço – quase sempre mansões – até depois de se casarem.

Quem ingressa na aristocracia precisa aprender o ofício, purificando seu sangue ao adquirir novos hábitos, adaptando-se a uma vida confortável financeiramente, porém um tanto entediante. Segundo Fellowes demonstra em Esnobes, o único assunto dos aristocratas são os outros aristocratas. Poucos têm interesse pelo que acontece fora daquele círculo. Filho de um diplomata, Fellowes estudou Literatura em Cambridge, seguindo uma discreta e consistente carreira de ator. Depois do Oscar, aos 52 anos, assinou outros roteiros cinematográficos de sucesso, dirigiu dois filmes, escreveu adaptações teatrais (entre elas a do musical “Escola de Rock”), criou algumas minisséries televisivas e Downton Abbey.

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Seus personagens, não raro, se repetem em diferentes enredos. A aristocrata falida que Maggie Smith interpretava em Gosford Park fazia comentários discricionários com a mesma arrogância da Duquesa-mãe de Downton Abbey, também vivida pela atriz. A maioria dos personagens masculinos é frágil diante de mulheres determinadas, que definem o andamento de cada trama. Suas histórias sempre dão destaque a um artista que, dentro daquela pequena corte, tem a função de elo com o mundo exterior, como o ator e músico Ivor Novello, que encanta empregados e entretém os convidados de Gosford Park, ou o narrador de Esnobes, o  alter ego de Fellowes. Enquanto esses artistas se aproveitam da proximidade da aristocracia, conscientes da função de bobo da corte que exercem, mantendo um olhar crítico sobre o meio, novos-ricos são rechaçados firmemente a cada tentativa de ingressar no círculo. O desprezo pelo novo-rico encerra o temor da alta burguesia, que detém o conhecimento da produção de riquezas.

Esnobes_instagramA principal diferença de Esnobes para os trabalhos de Julian Fellowes sobre aristocratas é a exclusão dos empregados de sua trama, talvez um sinal dos tempos. Os nobres da atualidade já não contam com uma legião de serviçais que os auxiliam a desempenhar as mais simples tarefas, como trocar de roupa. Mas permanecem no livro o seu privilegiado e perspicaz senso de observação dos costumes, o fino humor britânico e a verve irônica que conquistaram telespectadores de todo o mundo.

Olga de Mello é jornalista.

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