Julgue um livro pela capa, sim

por André Gordirro
9 de julho de 2015


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“Não julgue um livro pela capa.” Belas palavras, mas todo mundo julga, sim. Beleza põe mesa — ou, no caso, beleza põe estante. É difícil não escrever um livro imaginando como ele ficaria exposto na livraria; ou seja, como seria fisicamente, com a capa, palpável. E tudo mundo quer sair bonito na foto, quer estar com a melhor roupa para uma ocasião festiva. A capa é o penteado, a maquiagem, a vestimenta, a expressão visual do livro. E, na imensa maioria das vezes, ela é feita por outra pessoa que não o autor, que pode ter a sorte ou não de ter contato com o profissional contratado para fazê-la.

Em livros de fantasia e ficção científica, a capa costuma ser o único vislumbre no universo imaginado pelo autor. Normalmente resumida a um elemento, um cenário ou um(s) personagem(s) da trama, ela sustenta sozinha a visualização de tudo aquilo que estava na mente do escritor. Dentro das páginas, cabem às descrições do autor e à imaginação do leitor completar as imagens. Mas aquela primeira, lá na capa, pode influenciar todo o resto do processo.

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Weird Tales (vol. 23, #5, maio 1934) e “Conan, the buccaneer” (1971)

 

As diversas edições (reedições, compilações, lançamentos internacionais) de uma mesma obra tendem a mudar de capa e gerar novas interpretações visuais do que o escritor concebeu; sem falar quando o livro é adaptado para o cinema ou a TV, muitas vezes em conflito direto com o que o capista original concebeu ou o que o autor imaginou. Caso clássico: Conan, o Bárbaro. Criado em 1932 por Robert E. Howard, o cimério sempre foi descrito como um gigante bronzeado, ágil como uma pantera, de olhos azuis e um penteado que ainda provoca discussões nos fóruns sobre o personagem (Howard o descreveu com uma “square-cut mane”, que parece contraditório, pois mane é juba; logo ele teria um cabelo longo e espesso, e square-cut é o corte militar curto, que cabe dentro de um capacete medieval. Os argumentos postados são divertidos de acompanhar). Nas capas da Weird Tales, a revista pulp onde Conan surgiu, a ilustração lembrava o ator Victor Mature, com cabelo curto e vestindo toga (!). Entre as décadas de 1960 e 1970, muito depois da morte de Howard, foram as capas de Frank Frazetta para as edições da ACE Books que sedimentaram o “Conan como o conhecemos”, que chegou a influenciar o visual dos quadrinhos (pela pena de John Buscema) e até do filme com Arnold Schwarzenegger (ainda que o fisiculturista austríaco seja pouco similar à descrição de Howard). O escritor não viveu para ver essas reinterpretações, e dificilmente teve algo a ver com a versão Victor Mature publicada na Weird Tales, pois já ficava feliz com os poucos caraminguás que ganhava por história vendida para a publicação.

Mais caricaturais, exatamente por ser uma série (que começou) infantil, as capas originais de Harry Potter (ou seja, as edições inglesas da Bloomsbury) foram feitas pelo ilustrador Thomas Taylor. A primeiríssima edição (de A Pedra Filosofal) tinha a figura bizarra de um bruxo que não correspondia a nenhum personagem na trama, apenas porque o ilustrador recebeu a incumbência de desenhar um feiticeiro qualquer para a quarta capa. Em edições posteriores, a imagem foi trocada por um desenho claramente reconhecível como de Alvo Dumbledore. Ainda assim, o protagonista Harry Potter manteve uma consistência de imagem no traço de Taylor e de Mary GrandPré, da edição americana e brasileira. Ambos os ilustradores seguiram à risca a descrição de J.K. Rowling e, dependendo do livro e da editora, selecionaram os elementos ou cenas mais impactantes para condensar nas capas, convidando à leitura e estimulando a imaginação do leitor.

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Neste momento em que o lançamento de Os Portões do Inferno se aproxima e a capa está sendo fechada, é bacana poder examinar e participar dessa etapa como autor (por sorte fui envolvido no processo, o que não é regra). Quais elementos representam melhor o livro, vendem melhor o projeto, simbolizam a trama? Uma cena específica? Os personagens? Se sim, quais entram? Nos bastidores, ideias que pareciam boas não vingam (geralmente as do escritor), outras soluções surgem, o autor explica melhor o que quer, o ilustrador — no caso, Júlio Zartos — surpreende com a visão de quem leu e visualizou o mundo de outra forma, muitas vezes melhor. Este é aquele momento final e crucial, pois, afinal, a capa tem que chamar a atenção em meio a tantas outras e despertar o impulso de o futuro leitor pegar o livro e descobrir o que é aquele universo fantástico através de uma única ilustração.

Nunca a expressão dress to impress (vestir-se para impressionar) fez tanto sentido.

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André Gordirro é jornalista, crítico de cinema, tradutor e especialista no (mas não limitado ao) universo nerd. Em 2015, André publica seu primeiro livro pelo nosso selo Fábrica231, Os portões do inferno.

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