Hanns, Rudolf & Cia.

Nazistas na América do Sul
7 de maio de 2014


Rudolf Höss na prisão em 1946

Rastreado e preso por um jovem judeu-alemão que trabalhava para o Exército britânico após o fim da Segunda Guerra Mundial, Rudolf Höss, responsável pelo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde três milhões de pessoas foram exterminadas, foi condenado à morte por enforcamento, em 27 de março de 1947. A história de Rudolf Höss e Hanns Alexander é contada de forma emocionante pelo jornalista britânico Thomas Harding em Hanns & Rudolf – o judeu-alemão e a caçada ao Kommandant de Auschwitz. Além de jogar luz sobre a trajetória desses dois homens marcados pelo Holocausto de formas diferentes, o livro também convida à reflexão sobre outro aspecto do nazismo e seus personagens – o julgamento e a punição dos oficiais da SS, muitos deles refugiados no Brasil e em outros países da América Latina.

Höss foi um dos poucos membros do Reich a assumir a responsabilidade pelo extermínio de milhões de pessoas e o primeiro a explicar o funcionamento dos campos de concentração e a falar abertamente sobre a Solução Final. Movido, provavelmente, pelo sentimento de dever e lealdade para o qual fora talhado, o ex-Kommandant denunciava a covardia de seus antigos colegas que negavam ter conhecimento do genocídio, talvez como um “ato final de lealdade distorcida”, como destaca Harding.

O fato é que Höss surpreendeu o mundo ao dar detalhes da política de extermínio adotada pelo governo nazista, enquanto outros oficiais levados a julgamento negavam as acusações e vários representantes do alto escalão já haviam evitado este constrangimento dando cabo da própria vida, a começar pelo führer Adolf Hitler. Além disso, outros tantos líderes da SS deixaram a Europa, especialmente rumo à América do Sul, beneficiando-se das “ratlines”, redes de fuga que contavam com o apoio de governos, clérigos e instituições internacionais como a Cruz Vermelha, que facilitava a expedição de vistos.

Josef Mengele

Entre os casos mais notórios estão o do médico Josef Mengele, conhecido como “anjo da morte” ou “doutor morte” por suas experiências macabras com prisioneiros de Auschwitz, que viveu no Brasil até 1979, quando morreu afogado em Bertioga, no litoral paulista, e o de Adolf Eichmann, chefe da Gestapo e responsável pelo sistema de logística do Reich, desde a identificação até o transporte e distribuição de vítimas para os diferentes campos de concentração. Eichmann se escondeu na Argentina com a família de 1950 a 1960, quando foi capturado por agentes do Mossad, o serviço de inteligência israelense, e levado para julgamento em Israel, onde foi sentenciado e morto por enforcamento em 1962.

Menos conhecido é o caso do capitão-aviador Herbert Cukurs, acusado pela morte de mais de 30 mil judeus em Riga, na Letônia. Personagem de outro livro recém-lançado pela Rocco, o romance histórico O cisne e o aviador, da jornalista e tradutora Heliete Vaitsman, Cukurs obteve o visto de entrada no Brasil em 1946, deixando para trás uma controversa trajetória, de herói nacional da aviação a assassino nazista. Até o fim de sua vida – em 1967, quando foi morto numa emboscada em Montevidéu por uma equipe do serviço de inteligência israelense – o empreendedor piloto e engenheiro de aviação, responsável pela instalação do pedalinho da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, negou seu envolvimento com a morte de judeus na Letônia.

Herbert Cukurs

Mas há muitos outros. Gustav Wagner, subcomandante do Campo de Sobibor, na Polônia, e seu antigo chefe Franz Stangl, posteriormente responsável pelo campo de Treblinka, foram outros dois nazistas de alta patente que se estabeleceram na América do Sul após a guerra. Wagner casou-se e viveu em São Paulo até ser reconhecido, em 1978, por um ex-prisioneiro de Sobibor; depois de ter sua extradição negada, matou-se em seu sítio em Atibaia, no interior paulista. Já Franz Stangl, acusado pela morte de 900 mil pessoas, desembarcou no Brasil em 1951, inacreditavelmente usando sua identidade verdadeira, e trabalhou numa fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Na década de 1960, foi denunciado às autoridades brasileiras pelo caçador de nazistas Simon Wisenthal e extraditado para a Alemanha, onde foi condenado à prisão perpétua e onde morreu, em 1971. Já Reinhard Kops, ex-capitão da SS, e Erich Priebke, ex-capitão da Gestapo, levaram vidas pacatas no sul da Argentina por quase 50 anos até serem descobertos.

 

TAGS: Hanns & Rudolf, Heliete Vaitsman, Herbert Cukurs, História, Nazismo, Segunda Guerra Mundial, Thomas Harding,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *