Frente a frente com Arthur Moreno

por Nana Pauvolih
10 de abril de 2015


arthur_moreno

Eu estava meio irritado em ter que dar aquela entrevista, mas eram ossos do ofício. Como dono do Grupo Editorial Moreno de Albuquerque, em geral eu atuava por trás das reportagens e não sendo alvo de uma. Mas ocasionalmente era convidado para entrevistas sobre negócios ou vida pessoal e escolhia as mais interessantes para participar, as que pudessem ajudar nos negócios.

Tinha acabado de adquirir para o meu grupo duas revistas: a MACHO, voltada para o público masculino, e a FATOS e BOATOS, que tratava do mundo da tevê, artes e celebridades, tão em voga naqueles dias. Como ambas passaram a se destacar muito no mercado após minha gestão, aquele programa de televisão voltado para curiosidades e mais para o universo feminino fez o convite de me entrevistar.

Segundo fiquei sabendo, várias leitoras sugeriram meu nome para a entrevista e, quando entrei no programa e me sentei em frente à apresentadora, reparei que 95% da plateia no estúdio era composta por mulheres, que me olhavam admiradas, sonhadoras, sorridentes, nervosas. Eu já estava acostumado com o fato de minha aparência, aliada ao meu ar decidido, que alguns diriam ser arrogância, juntamente com a aura de poder e dinheiro, deixar a mulherada com a calcinha molhada. Elas me espiavam como se quisessem morder um pedaço de mim. Até aí tudo bem.

Mas quando me acomodei para a entrevista, abrindo o único botão do paletó sob medida e vi aqueles olhinhos brilhantes todos voltados para mim, só pensei que eu tinha ali um público em potencial para minhas revistas. Teria que ter muito cuidado com minhas respostas para as perguntas que, eu já antecipava, seriam bobas e repetitivas. Só me restou aparentar tranquilidade e um ar de homem respeitável.

Cenário de talk show australiano [fonte: http://melbournedesignawards.com.au]

 – Hoje nosso convidado é Arthur Moreno, o famoso empresário carioca do ramo editorial, que herdou os negócios da avó e é o grande empreendedor da família, tendo feito tudo se expandir muito com seu jeito arrojado de gerir e inovar. Lindo, rico e solteiro, diga-se de passagem, um dos mais cobiçados do Rio de Janeiro, ele nos dá aqui sua opinião sincera sobre diversos assuntos. – disse a apresentadora voltada para uma das câmeras. Então, se virou para mim e completou simpaticamente: – Arthur Moreno, bem-vindo ao programa “Tarde com sua celebridade”.

Ela era uma elegante mulher de meia-idade cheia de botox e talvez umas duas plásticas. Sorriu para mim e sua expressão quase nem se moveu, o lábio superior paralisado, tudo tão esticado que eu tinha certeza que se alguém colocasse uma foto dela mais nova, ninguém diria que era a mesma pessoa. Mas com uma olhada saquei que o corpo era bem gostoso. Dava para o gasto.

– É um prazer estar aqui. – Sorri e tenho certeza que ouvi alguns suspiros da plateia feminina.

– Bom, Arthur, apesar de você não ser ator, cantor, nem fazer parte de algum programa da moda, está sempre aparecendo na mídia como um jovem empresário de sucesso. Além disso, é comum vermos você em companhia de mulheres famosas. – Lucinha Moreira continuava com aquela sua máscara de sorriso para mim e piscou maliciosamente: – Vamos conhecer melhor hoje esse lindo, sexy e inteligente homem de negócios. Pronto para nos contar um pouquinho de você, Arthur?

– Estou sempre pronto para você e sua bela plateia, Lucinha. – disse baixo e charmoso.

desesperadas

Fãs dos Beatles [fonte: http://blogs.slq.qld.gov.au/jol/2012/06/29/the-beatles-brisbane/]

 O sorriso de Lucinha só não se expandiu mais porque não era possível devido a tanta toxina botulínica, mas ela ficou toda feliz e se inclinou para frente, fazendo um carinho em minha mão, jogando charme também:

– Bem que me avisaram que você era um sedutor!

– Apenas sincero. – Continuei no joguinho onde eu era mestre, sabendo que a partir daquele momento toda aquela mulherada, inclusive a apresentadora, já estava na minha.

– Vamos lá! Sabemos que é graduado em Administração e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas, uma das melhores do Brasil. É muito inteligente, pelo visto. Mas com sua aparência, que faz tantas mulheres suspirarem, nunca pensou em uma profissão diferente da sua, talvez de modelo ou ator?

Eu sabia que as perguntas seriam bestas, mas mesmo assim fiquei irritado. Claro que não demonstrei. Mas para que eu ia querer fazer cara de paisagem para as capas de revistas, se eu era o dono daquilo tudo?

– Não, eu realmente faço o que gosto, que é administrar toda a parte editorial dos negócios da família. – respondi em tom polido.

– Claro, está no sangue. – Ela continuava com aquele sorriso estático que começava a me perturbar. Indaguei a mim mesmo se depois que abria os lábios e mostrava os dentes, Lucinha não conseguia mais voltar ao normal. Talvez fosse precisar segurar as bochechas e fazer os músculos endurecidos deixarem seu rosto sério de novo. Imaginei que ela nem pudesse pagar um b…… com aquela boca dura. Mas então, ainda sorrindo como o Coringa para mim, ela perguntou: – O que o fez se decidir a comprar a revista MACHO e anexá-la ao seu grupo?

– É uma revista que tem tudo para ser a melhor do Brasil voltada para o público masculino, mas se perdeu em meio a pouco investimento e assuntos sem interesse. Já comecei a reverter isso, como pode ser notado nos últimos exemplares e vendagens desde que passou a fazer parte do meu Grupo.

– Bom, sabemos que a MACHO traz sempre mulheres lindíssimas e nuas, mas que conta com uma equipe de jornalistas que prepara matérias especiais sobre o que o homem moderno quer ler. O universo masculino é bem representado. E aí eu te pergunto, Arthur, não pensou em criar uma revista mais para o público feminino?

– Já temos, mais de uma, aliás.

Lucinha concordou com a cabeça, dando risinhos, acrescentando logo em tom malicioso:

– Não, o que quero dizer é uma revista no estilo de MACHO, tipo uma assim: FÊMEA! – falou com ênfase e riu mais, embora a expressão se mantivesse imutável, sendo seguida por risadas nervosas da mulherada mal-amada da plateia. Todas pareciam achar sua pergunta muito espirituosa e eu sorri também, acenei a cabeça e respondi:

– Sim, entendo. Uma revista com homens nus e reportagens feitas para mulheres.

– Exatamente!

– É um projeto que meus editores e diretores vêm discutindo, um projeto para o futuro. – Porra nenhuma! Mas eu não ia falar.

– Ah, que notícia maravilhosa! Ouviram isso, meninas?

Mais risadas eclodiram e comecei a ficar verdadeiramente nervoso, controlando-me para não olhar o relógio de pulso. Quanto mais aquela tortura ia continuar?

– Ah, interessante demais! Então, vamos a assuntos mais pessoais. Qual a sua comida favorita?

– Tenho várias, mas gosto especialmente de Macaroons Haute Couture. – Respondi como um gentleman, mas minha vontade era a de ser absolutamente sincero e veio na ponta da língua dizer: “Gosto mesmo é de comer uma boa b……”.

Sorri naturalmente naquele momento, imaginando como a Coringa e a plateia que me paquerava ia reagir. O espanto poderia aparecer na face limitada de Lucinha? A mulherada ficaria chocada ou abaixaria a calcinha para mim?

– Seu livro preferido? – A pergunta interrompeu meu pensamento curioso.

A arte da guerra. – Falei e pensei: Kama Sutra.

– Qual frase define sua vida no momento, Arthur?

– Frase? – Aquela pergunta me pegou desprevenido, mas acabei sendo bem sincero ali: – Gosto de uma do Walt Disney: “ Eu gosto do impossível porque lá a concorrência é menor.”

Não acrescentei que eu concordava com aquela frase por dois motivos: um, para mim não havia impossível. Dois, como a maioria das pessoas era acomodada e ignorante, só buscava o possível, o alcançável para elas. E assim, o que era impossível para elas, para mim era moleza.

– Ah, bela frase … – Lucinha parecia pensativa e ainda sorridente, mas então acrescentou o que lhe pareceu mais fácil: – Então, também é fã da Disney?

virando os olhos

Puta merda! Eu devia ter jogado pedra na cruz em outra encarnação.

– Pode-se dizer que sim.

– Ah, eu também!

Aquele “Ah!” dela no início de algumas frases também estava me irritando.

– Vamos continuar, querido. Com quantos anos você deu seu primeiro beijo?

– Treze. – Menti, porque eu não me lembrava, claro. Aquilo nunca foi importante para mim e sempre tive garotas por perto me dando mole.

– Ah, novinho já era safadinho, hein? – Brincou e arrematou: – Perdeu sua virgindade com quantos anos? E pode também dizer onde foi?

Franzi o cenho e forcei a mente, pois não pensava sobre aquilo há muitos anos. Mas como abriu um novo mundo para mim, algo havia ficado em minha mente e falei mais ou menos como foi, disfarçando meu tédio:

– Foi com uma mulher mais velha, tia de uma colega de infância. Eu tinha por volta dos quinze anos, fui a uma festa na casa dessa amiga e de alguma maneira acabei com esta mulher dentro de um banheiro.

– Oh! – Daquela vez ela substituiu o “Ah” e a plateia também, enquanto risadas nervosas se espalhavam de novo e Lucinha balançava a cabeça, repetindo: – Safadinho!

Sorri forçado. Felizmente ela devia ter horário para terminar a entrevista, pois não se estendeu sendo chata:

– O que você faz no seu momento de lazer?

– Eu me divirto com as mulheres.

Ela arregalou os olhos diante da minha resposta na lata. Completei inocentemente:

– Namoro, vou ao cinema com a namorada, visito minha avó, saio com amigas.

– Ah, sim! – Seu sorriso continuava lá firme e forte. Estendeu-o à plateia maliciosamente, piscou e percebi que sua maior expressão era ainda conseguir mover os olhos. Felizmente, continuou: – Maravilhoso! Você está namorando sério atualmente, Arthur?

Atualmente? E quando namorei sério? Eu f….e muito por aí.

– Não, estou sozinho.

– Meninas, ouviram isso? – Lucinha riu, agitada. – E você já se apaixonou por alguma mulher? Pode nos dizer? Já conheceu o amor da sua vida?

Quanto mais eu teria que aturar aquela babaquice? Amor da minha vida? Quase meti o dedo na goela com aquele papo açucarado. Quando elas iam entender que homem só queria comer e muito uma mulher? Que quando diziam “Eu te amo” estavam apenas querendo dizer “Me dá essa b….. logo”? Pelo menos nunca precisei dizer aquilo. Elas já pulavam na minha cama antes.

– Ainda não, mas não perco a esperança de um dia conhecer. – Falei de cara limpa, lançando um olhar cheio de intenções para a plateia, que se derreteu, sorriu, suspirou. Vi como algumas se mexeram em suas cadeiras e outras se abanaram. Mulheres!

– Ah, vai ser lindo de ver! Quando estiver de casamento marcado, vamos querer você aqui de volta com a sua escolhida! – Lucinha disse toda feliz. – Mas vamos para uma curiosidade, algo que acho impossível! Já foi rejeitado por alguma garota?

– Não. – Quase acrescentei o óbvio: “Claro que não”, mas mantive-me calado.

– Eu sabia! Só se a menina fosse louca! – Piscou de novo para mim. – Ou cega!

Elas riram. A apresentadora continuou com seu estoque de chatice:

– Você planeja se casar?

Só se eu fosse maluco. Casamento e prisão deveriam ser sinônimos e eu era um homem livre. Não havia mulher capaz de me fazer sequer cogitar aquela ideia. Disse charmosamente:

– Um dia, talvez.

– Entendo, quando encontrar a mulher certa. Mas, e filhos, você pretende tê-los?

– Claro. – Era uma questão ambígua. Como último descendente da minha família, um herdeiro seria bom no futuro. Mas sem casamento. Dali a uns dez anos pensaria como resolver aquele problema.

– Arthur, o que seria a mulher ideal pra você? Nos conte para vermos se temos chances, não é meninas?

“Aquela que me faz ter uma bela de uma ereção. Boa de cama, obediente, linda, que pague um bom b……, que vá embora sem olhar para trás quando eu a dispensar no dia seguinte. Não precisa ser inteligente. Nunca fico muito interessado no que elas têm a me dizer, mas no que têm a me dar.” Isso era o que eu diria, mas fui bem mais comedido:

– Não tenho um tipo ideal. Prefiro que seja surpresa.

– Ah!

PQP! Vontade da calar aquele “Ah”.

– Já que está sendo tão sincero, vou mais além. É verdade o que se ouve dizer por aí, que você gosta de um sexo mais apimentado e normalmente nunca se satisfaz com uma só? – Ela arregalou os olhos para mim e a plateia soltou esguichos de excitação contida. Sorri sensualmente.

– Lucinha, esse é um assunto muito pessoal. Na verdade, as pessoas exageram muito as coisas.

Falei como se fosse um anjo de candura reencarnado, enquanto lembrava da noite anterior em que fui ao Clube Catana e meti em três mulheres no meio de uma orgia bem sacana e fui chupado em rodízio por elas. Depois comi todos os orifícios de cada uma. Queria ver a cara daquela apresentadora esquisita se eu contasse isso. Meu sorriso se ampliou e ela elogiou:

– Um perfeito cavalheiro! Mas nos conte a verdade, onde há fumaça, geralmente há fogo.

– Quando somos mais jovens, temos muito mais pique e experiências diferentes, mas digamos que agora estou mais seletivo. – Mentira deslavada!

– Agora vamos ficar curiosas sobre esse seu … pique todo! – Abanou-se com a ficha, animada. – Qual o seu segredo?. Tem algum?

– Boa saúde e disposição. – respondi, cínico.

– Meninas, vamos nos acalmar, este é um programa vespertino, não podemos esquecer! Arthur, nos conte qual foi a maior aventura que esse Trio chamado no Rio pelas mulheres como AMA, Arthur, Matheus e Antonio? Sabemos que você tem uma amizade de anos com eles, também empresários famosos no país.

– Temos vários casos a contar, mas como você disse, Lucinha, é um programa vespertino. Então, vou citar o início, quando nós três aprendemos algumas técnicas arrojadas com a mesma mulher, uma mais velha que a gente na época, em um clube que frequentávamos e ainda frequentamos no Rio de Janeiro. Posso dizer que fomos aprendizes. Até nos tornarmos mestres.

anigif_optimized-9241-1428531858-28

– Ah! Que calor! – Todas riram novamente. Minha irritação já era quase sufocante, mas eu sabia que o tempo extrapolava, faltava pouco para acabar aquela tortura. – Bem, você e Matheus continuam solteiros, mas soubemos que seu amigo Antônio está pra se casar, será que com isso não irá despertar a vontade de formar uma família também?

– Quem sabe? Só o futuro dirá. – Saí pela tangente, sorrindo, mas pensando com meus botões: Para que me amarrar numa mulher só, se posso ter todas que eu quero? Se posso comer quantas de uma vez ou quando me der vontade? Nunca me sujeitaria ao que Antônio está fazendo, ainda mais com uma mulher gelada como aquela. No final, só vai casar em função da família e para ter um herdeiro. Eu não. Mulher para mim era só para foder.

– Certo, Arthur. Infelizmente, nosso tempo está acabando!

“Graças a Deus!”

– Ahhhhhh … – A plateia de taradas lamentou.

Eu sorri malicioso. Lucinha complementou:

– Só para finalizarmos, nos fale de suas tatuagens: Qual o significado delas?

“Que pergunta importante para finalizar uma entrevista!” Respondi:

– Eu tenho uma que é o símbolo do infinito e gosto disso, de saber que muita coisa pode não ter fim nem limite. A outra é uma coroa no braço, em homenagem ao apelido que minha avó me deu. Ela me chama de “reizinho” desde pequeno.

– Ah, que vontade de ver! – Lucinha riu com o resto das mulheres e se voltou para mim com aquele sorriso paralisado: – Arthur Moreno, obrigada pela entrevista. Confesso que foi muito melhor do que imaginei e tenho certeza que, depois dela, além de um bando de mulheres procurar suas revistas para ler, ainda vão sonhar loucamente para um dia serem o amor da sua vida!  Não é, meninas?

– É!!!!! – Gritaram e bateram palmas.

– Obrigado, Lucinha. Gostei muito de passar a tarde aqui com vocês. Foi um prazer.

– Seja sempre bem-vindo, querido. – Ela se virou para a câmera e se despediu: – Estamos finalizando nossa entrevista aqui. Mandem suas perguntas e sugestões de entrevistados. E nos aguardem, vamos tentar trazer aqui os citados amigos de Arthur Moreno do chamado de AMA pelas meninas, os empresários Matheus Sá de Mello e Antônio Saragoça! Imperdível! E ainda hoje, uma fofoca exclusiva do mundo das celebridades! Aguardem!

Suspirei aliviado, só esperando Lucinha acabar de falar para que eu pudesse me levantar e ir embora.

gif alivio

Distraído, notei que o sorriso continuou lá grudado no rosto dela, intocável. Quase permaneci mais só para conferir como seria para voltar a ficar séria, se passaria por um processo doloroso. Mas então, sacudi a cabeça, exasperado. Eu tinha coisas muito melhores a fazer.

Nana Pauvolih é pioneira da autopublicação no segmento erótico nacional. Com a trilogia Redenção, Nana faz sua estreia no selo Fábrica231 e inaugura em grande estilo a participação de autores nacionais na coleção Violeta.

TAGS: Arthur Moreno, entrevista, Nana Pauvolih, Redenção de um cafajeste,

Comentários sobre "Frente a frente com Arthur Moreno"

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *