A topografia de um escritor: Patrick Modiano

por Cecília Ciscato
22 de setembro de 2015


modiano

Prêmio Nobel de Literatura em 2014, Patrick Modiano é indissociável de Paris. Considerado o narrador por excelência da topografia parisiense, a obra do autor encarna há quase cinquenta anos, desde a publicação de seu primeiro título, La place de l’étoile (1968), muito do teor da vida na cidade. Desde o final da II Guerra, Paris sofreu enormes mudanças, que o autor nos convida a descobrir, ora pela memória, coletiva ou autobiográfica, ora pelo esquecimento. Ler Modiano é um convite a passear, a flanar pela cidade, a se deixar levar pelos cantos mais intrigantes e enigmáticos, que só se apresentam àquele que se aventura pelas suas inúmeras ruas, ruelas e arrondissements. Contribui para a atmosfera misteriosa, tão característica de sua obra, o vaivém de seus personagens, fantasmas do tempo e do espaço: personagens etéreos e difíceis de apreender, que transitam pela cidade real e palpável sem quase deixar rastros.

Esses aspectos – a topografia precisa da cidade, a guerra, a memória e os mistérios – nada mais são, na realidade, do que alguns dos grandes temas perseguidos, livro após livro, pelo escritor. A estes, acrescentam-se o acaso dos encontros, o esquecimento, a solidão, o desaparecimento e a busca da identidade, todos eles temas profundamente ligados à experiência urbana e plenamente presentes em títulos célebres como Rue des boutiques obscures [Uma rua de Roma] (1978, Prêmio Goncourt), Dora Bruder (1997), Un pedigree (2005), Dans le café de la jeunesse perdue (2007) e em seus dois romances mais recentes: L’herbe des nuits (2012) e Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier [Para não se perder no bairro] (2014).

Esse Discurso na Academia Sueca, pronunciado no dia 7 de dezembro de 2014, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura, é também ele balizado pela voz e pelos temas do autor, que aqui comparecem um a um. Nesse sentido, o discurso pode ser considerado um verdadeiro guia de leitura para a obra de Modiano, uma vez que compila seus temas-chave. Seus leitores fiéis reconhecerão aqui a voz muito própria e a escrita cristalina do autor, neste texto que é como uma extensão de seus romances, em perfeita continuidade com o conjunto de sua obra. Os futuros leitores, por sua vez, têm diante de si uma porta de entrada para o universo de Modiano, um belo convite à leitura de um autor absolutamente incontornável no cenário literário contemporâneo.

Longe de ser um texto puramente crítico ou analítico – ainda que trate de questões como a relação entre autor e leitor, o trabalho de composição de um romance e uma reflexão sobre o ofício de romancista, hoje e no passado –, o discurso de Modiano é uma obra literária em si mesma. Por meio de alusões às diversas artes, do cinema à música, da pintura à literatura, Modiano destila poeticamente uma série de temas de longa tradição, ao mesmo tempo que lança perguntas para o presente e para o futuro: qual relação profunda com o tempo e com as cidades rege os romancistas de hoje? Que tipo de literatura nascerá de nossas cidades de dimensões preocupantes, entregues ao abandono e vivendo em clima de guerra social?

Cecília Ciscato é mestre em língua francesa pela Universidade de Paris 5 Descartes e traduziu o “Discurso na Academia Sueca” de Patrick Modiano para a editora Rocco

 Leia excerto do Discurso na Academia sueca, por Patrick Modiano:

Da declaração que se seguiu ao anúncio deste prêmio Nobel, guardei a seguinte frase, que fazia alusão à última guerra mundial: “Ele desvelou o mundo da Ocupação.” Sou, como todos aqueles e aquelas nascidos em 1945, um filho da guerra e, mais precisamente, já que nasci em Paris, um filho que deve seu nascimento à Paris da Ocupação. As pessoas que viveram naquela Paris quiseram esquecê-la o quanto antes ou então recordar somente detalhes cotidianos, aqueles que davam a ilusão de que, no final das contas, a vida de cada dia não havia sido assim tão diferente daquela levada em tempos normais. Um sonho ruim e também um vago remorso por terem sido de alguma maneira sobreviventes. E quando seus filhos perguntavam mais tarde sobre esse período e aquela Paris, suas respostas eram evasivas. Ou então mantinham o silêncio, como se desejassem riscar da memória esses anos sombrios e nos esconder alguma coisa. Mas, diante dos silêncios de nossos pais, adivinhamos tudo, como se tivéssemos vivido tudo. […]

Nessa Paris de sonho ruim, onde se corria o risco de ser vítima de uma denúncia e de uma batida policial à saída de uma estação de metrô, encontros fortuitos se davam entre pessoas que não se cruzariam jamais em tempos de paz, amores precários nasciam à sombra do toque de recolher sem qualquer garantia de reencontro nos dias seguintes. E foi desses encontros quase sempre sem amanhã, e às vezes desses maus encontros, que algumas crianças nasceram mais tarde. Eis por que a Paris da Ocupação foi sempre para mim como uma noite original. Sem ela, eu nunca teria nascido. Essa Paris nunca deixou de me assombrar, e sua luz velada banha às vezes meus livros.

O discurso completo você encontra gratuitamente em e-book nas seguintes lojas: Livraria Cultura, Kobo, GooglePlay, Amazon e iTunes.

Conheça também Para você não se perder no bairro, novo livro de Modiano, lançado este mês no Brasil, pela Rocco.

TAGS: Discurso, Modiano, Prêmio Nobel de Literatura,

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