Eu e você de A a Z

por James Hannah
22 de maio de 2017


A primeira ideia que tive de Eu e você de A a Z assumiu a forma de uma pergunta. Em qual ponto da minha vida o meu corpo foi melhor usado? Qual foi a ocasião em que, olhando para trás, eu possa dizer, “ah, sim, aquele foi meu grande momento”?

Ora, há muitas respostas possíveis para essa pergunta, muitas delas bem pornográficas. Mas eu não consegui pensar em resposta nenhuma. Vamos esperar que ainda não tenha acontecido… Mas imaginei um personagem dividindo o corpo todo e respondendo para cada uma das partes. Por exemplo, qual foi a coisa mais maravilhosa que seus olhos viram? Ou seus ouvidos ouviram? E assim por diante.

Logo tive a ideia de compilar um A a Z de partes do corpo e pensei que seria interessante contar a história desse personagem dessa maneira. Por que ele está revelando pequenas mini-biografias do seu corpo? Qual história pode surgir daí? Com quem ele está conversando?

Gosto da ideia de que nenhum escritor responderia a essas perguntas do mesmo modo que outro. Cada um de nós escreveria um livro diferente a partir da mesma ideia básica.

Bem, vou dizer para vocês, minha resposta foi essa: Ivo está morrendo. Está contando histórias para ele mesmo para afastar a ansiedade. E a história que seu livro conta é injusta. Aos vinte anos de idade, seu próprio corpo o impediu de fazer muitas coisas que outros de vinte anos gostavam de fazer. Prazeres passageiros que teriam efeito permanente nele. E assim sua tarefa triste era manter a lucidez e o controle num mundo incontrolável.

Esse conceito “puro” do livro ficou decidido antes de eu começar a escrever. Mas não queria impor a direção principal do livro, eu queria escrever os melhores episódios que pudesse para todas as partes do corpo dele e o livro que surgisse seria a história dele, quase independente da minha parte.

Mas vejam só, o que acabou acontecendo foi curioso. Nos anos que passei escrevendo, esse livro se transformou numa maneira de processar situações da vida real que eu estava vivenciando na época.

Seis meses depois de começar a escrever pequenos trechos divertidos sobre a ponta dos dedos e verrugas e pelos e nem sei o que mais, a mãe da minha mulher morreu. E então o tom do livro mudou. A experiência que minha família teve com isso, a tristeza, o sofrimento da perda, a gratidão, tudo permeou o que eu estava escrevendo. Assim como a localização da clínica e dos personagens da equipe de lá. Eu quis fazer um tributo a eles, ao carinho, ao humor e à bondade.

Diante de tal bondade e aconselhamento solidário, meu personagem fictício se expôs. Foi obrigado a se explicar e o sentido do remorso foi arrasador. É claro que todos temos arrependimentos. Quem nunca devorou aquele doce a mais, ou bebeu no gargalo aquelas duas taças de vinho? A maioria não precisa pagar um preço muito alto por isso. Mas Ivo precisa. E o maior remorso de Ivo foi não ser capaz de chegar ao amor que poderia salvá-lo daquelas más escolhas.

Foi assim que o livro se tornou, com ajuda das enfermeiras que encontrei na vida real, um processo da mistura do remorso de Ivo com o amor que, por sua vez, poderia vir a ser perdão e paz.

O Eu e você de A a Z não apresenta uma história incomum, nós todos temos nossas experiências de hospitais, a menos que tenhamos muita sorte… ou nenhuma. E as reações mais preciosas dos leitores têm sido de enfermeiras da vida real que trabalham em hospitais e clínicas, e que gostam da descrição do bom humor e do verdadeiro amor nesses lugares.

Dediquei o livro, e com a maior sinceridade, a Sheila e a você.

James Hannah,
Bridgnorth, abril 2017.

TAGS: Em primeira pessoa, Eu e Você de A a Z,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *