Este livro é bom para qual idade?

Por Cristiane Rogerio*
10 de outubro de 2017


Basta você demonstrar que conhece um pouco sobre literatura infantil e esta pergunta já vem colada! Quem pergunta nos olha com a expectativa de que a resposta será certeira, mas… se ela vier para mim, pode ser que eu cause algum tipo de decepção. Não é por maldade. Nem desconhecimento. Nem pressa. Nem falta de paciência.

É por puro cuidado.

Sabe aquela história de “cada criança é uma criança”? Cabe muito bem aqui. Cada criança é uma criança, que tem uma família específica, que mora em um bairro específico, de uma cidade específica, parte de valores e referências culturais específicas também. Um livro pode acontecer de maneiras diferentes para crianças conforme de onde vierem, onde estão, que experiências viveram até aquele momento.

Isso não quer dizer que não temos nenhum parâmetro ou um pensamento específico para direcionar um livro “para crianças” ou não. Há muitos autores que se voltam completamente para a criação de livros para a infância, simplesmente porque aquilo que querem dizer cabe em um universo ambientado nos pensamentos da infância, ou porque o formato – livro ilustrado, livro-imagens, livro-brinquedo etc – estão aptos a circularem neste universo do mercado de livros. Eles querem ser lidos por todos, absolutamente que sim. Mas há algo que eles querem mais: serem TAMBÉM lidos por uma criança.

Dentro desta categoria, claro, temos muito a lidar, pensar, refletir, costurar com uma informação aqui e outra ali. Livros “para bebês” podem ser em sua maioria propostos a partir de experiências táteis, mas não quer dizer que não possam ter histórias e, muito menos, não peça uma relação criativa! Conforme a criança vai crescendo, vamos percebendo sua autonomia com um assunto ou com determinada materialidade do livro, com a maturidade para determinados temas. Mas temos que tentar, tentar, tentar: qualquer restrição prévia não pode se pautar na incapacidade da criança mas, sim, como será potente mais ou menos para ela aquele momento com o livro. Temos que arriscar. (vale a pena!)

O adjetivo “infantil” ou o destino “para crianças”, “para a infância” está muito mais próximo desta sutileza de definições. Pelo menos para mim. Dentro deste universo – de mercado ou de desenvolvimento intelectual, emocional e até cognitivo desta fase – há, inclusive, vários gêneros literários presentes e uma maravilha que, infelizmente, muito da literatura dita “adulta” se afasta: o uso das imagens nos livros em tom de diálogo com o texto, muito além da redundância de um com o outro, mas de forma a casarem-se, complementarem-se, a serem mais de uma possibilidade narrativa em palavra, imagem, projeto gráfico que, nesta conversa bem feita, enriquecem a capacidade do leitor de se relacionar com uma história e seu conteúdo.

É por isso, por exemplo, que não recusamos um novo projeto gráfico para, por exemplo, o clássico de Clarice Lispector, A mulher que matou os peixes, em nova edição pela Rocco.  A história em que Clarice assume que matou os peixes que moravam em sua casa e, pede apenas que o leitor ouça algumas histórias antes de condená-la, ganhou ainda mais força de conto autoral com as ilustrações da artista Mariana Valente, neta da autora. Este livro, já desde 1968 fundamental para qualquer estante de vida, pode ser agora mediado por estas ilustrações – inspiradas até nos arquivos de fotos da família – de forma delicada e surpreendente. Nada mais é do que um novo convite. Como fez, por exemplo, a adaptação deste mesmo texto pela excelente montagem teatral Pescadora de ilusões, com adaptação e direção de Gpeteanh Petean e com a incrível atuação de Carol Badra e Mel Lisboa.

Por que estou citando este livro, texto e peça de teatro? Porque tenho uma filha chamada Clarice, de 5 anos, justamente pela minha paixão pela autora. Já havia tentado ler A vida íntima de Laura (outro clássico dela) cerca de um ano atrás, sem sucesso. O A mulher que matou os peixes, ironicamente, não. Mas pelo que tinha ouvido da peça, resolvi levá-la para assistir, achando que talvez o tema fosse um pouco pesado ou complexo demais. Bem, além da excelente adaptação e interpretação das duas, para alguém que se chama Clarice, o espetáculo tem algo bem especial: o nome dela não só é repetido várias vezes como colocado em letras gigantes no fundo do palco. Isso fez da Clarice, a minha filha, criar tamanha conexão com o enredo que praticamente não se mexeu a peça toda e, no final fez questão de dizer a elas qual era o seu nome.

Chegamos em casa e aquele tal livro com bastante texto, ilustrações com um toque surrealista e histórias sobre animais e perdas foi solicitado por ela. Por dias e dias e dias fomos lendo aos poucos, repetindo partes e, muitas vezes, nos angustiando com trechos e histórias bem difíceis de compartilhar. Eu que há tanto tempo falo e estudo sobre o assunto fiquei, confesso, muitas vezes em dúvida de continuar. Mas Clarice quis seguir Clarice e saber de suas histórias, mergulhar no arrependimento da autora e, de alguma maneira, se identificar com ela na fraqueza daquela franqueza. Do alto de seus cinco anos de idade, se sentiu à vontade de responder à pergunta da autora no final: “Eu peço muito que vocês me desculpem. Dagora em diante nunca mais ficarei distraída. Vocês me perdoam?”.

*Cristiane Rogerio é jornalista, foi editora da Revista Crescer e se especializou em pesquisar o livro para a infância. Hoje é professora e coordenadora do curso de pós-graduação O Livro Para a Infância, d’ A Casa Tombad (pólo da Faculdade das Conchas em São Paulo).

TAGS: artigo, literatura infantil,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *