Escrever para não enlouquecer

Por Luciana Hidalgo
18 de setembro de 2014


Antonin Artaud em cena de Napoleão , filme de Abel Gance (1927)

Antonin Artaud em cena de Napoleão, filme de Abel Gance (1927)

O dramaturgo francês Antonin Artaud defendia um Teatro da Crueldade que atuasse como a peste, ou seja, revolucionasse o espectador na base do terror: “A ação do teatro, como a da peste, é salutar, pois, levando os homens a se enxergarem como são, derruba as máscaras, desvela a mentira, a frouxidão, a baixeza, a tartufaria.”

Artaud passou nove anos em manicômios, alternando momentos de lucidez a outros em que real e imaginário não tinham divisórias. Escreveu sem parar, volumes e volumes de diários, levando ao excesso a máxima do crítico Maurice Blanchot: “Escrever para não morrer.” Ou para não enlouquecer?

Tudo em Artaud é excesso, pulsão de vida, pulsão de morte, criação, selvageria. Assim é Van Gogh. E Arthur Bispo do Rosário. E Lima Barreto. Artistas-autores internados por uma psiquiatria que não os curou de sua compulsão por uma transcendência do humano, do socialmente correto, do civilizado. Sorte nossa.

Uma homem morto a pontapes_Colecao Otra LinguaLer Pablo Palacio, o equatoriano autor de Um homem morto a pontapés, remete aos pestilentos de Artaud, aos grotescos, degenerados, socialmente indesejados e afins. Parece que esse escritor, advogado e professor de filosofia, que escreveu toda a sua obra literária entre 1921 e 1932, teve sífilis. Ou não (seu filho desmente). O que se sabe é que ele viveu vários anos numa clínica psiquiátrica, mas pouco importa. O que importa é que sua literatura transcende. Corta os laços com o previsível, toca o monstruoso, cutuca a besta. E o autor faz tudo isso com uma bela prosa, enxuta, irônica, lúcida, pontuada aqui e ali por um ou outro delírio.

Entre seus contos, há “Bruxarias” (fábulas de terror) e fêmeas-monstros, como a protagonista de “A dupla e única mulher”, que tem duas cabeças, quatro braços, quatro pernas e por isso vive em crise com a sociedade da perfeição: busca um mínimo de coerência no dia a dia, com medo de ser vista como desequilibrada na difícil relação com seu duplo. Nessa e em outras histórias, o humor azeita cada frase.

Não à toa, Pablo foi pouco lido em sua época, tornando-se cult somente a partir da década de 1970. Era moderno demais. E o conto “O antropófago” diz dessa modernidade. Num momento de loucura familiar, um homem respeitável come partes da mulher e do filho. Na prisão ele recebe visitantes curiosos, virando a atração da cidade. Pablo critica o espetáculo da loucura, a exposição daqueles considerados loucos ou anormais. Foi prática comum em outros tempos: no século XIX, no hospital de Bethleem, na Inglaterra, pacientes ficavam à mostra por um penny aos domingos, e em Bicêtre, na França, até a Revolução Francesa, internos eram uma distração para a burguesia parisiense (duas mil pessoas por dia!).

A literatura de Pablo Palacio remete ao teatro de Artaud, desnudando o humano ali onde ele se esconde. Se o autor era louco, se seu cérebro foi destruído pela sífilis, se existe uma relação entre sua loucura e a escrita, há uma possível resposta, à espreita, na sua própria obra: “Somente os loucos espremem até as glândulas do absurdo e estão no plano mais alto das categorias intelectuais.” É preciso ler um autor que diz isso.

☛  Leia um trecho de Um homem morto a pontapés, de Pablo Palacio

 

Luciana Hidalgo é jornalista, escritora e doutora em Literatura Comparada (Uerj). É autora de Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto e Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura, pelos quais ganhou dois prêmios Jabuti, e do romance O passeador.

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