Escrevendo duelos

Por: Samir Machado de Machado
23 de setembro de 2016


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Em inglês, swashbuckler é um termo originado da fusão entre swash (uma gíria do século XVI para “atacar violentamente”) e um pequeno escudo, muito popular na Renascença, chamado broquel (buckler).

Não há uma palavra em português que seja um equivalente direto, mas em geral se usa a expressão “herói de capa e espada”. Eu gosto, até porque, basicamente, uma capa e uma espada são as duas coisas mais legais com que uma pessoa pode querer andar na rua. E um herói de capa e espada luta. Ou melhor, duela. Mas enquanto um duelo de espadas pode ser muito empolgante de ser visto, é essencialmente uma ação rápida e baseada na agilidade e velocidade do movimento.

Na hora de escrever um duelo, a coisa complica: quanto mais específica for a descrição dos movimentos, mais palavras serão usadas; quanto mais palavras, maior as frases. E quanto maior a frase, maior o tempo de leitura, transformando uma ação rápida em algo lento.

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Outra questão é usar ou não termos técnicos. Tudo no mundo tem um nome correto, e não tem coisa pior que perceber quando um autor não sabe o nome das coisas que descreve. Mas quantas pessoas estão familiarizadas com os termos de esgrima? Se meu leitor precisar consultar o dicionário no meio de uma luta, outra vez perco a velocidade da ação.

E desde a primeira vez que estruturei a trama de Homens Elegantes, eu decidira que o momento central do livro seria um grande duelo entre o protagonista e um oponente, em meio à ópera – o cenário mais clássico para o momento mais emblemático dos romances de aventura.

As lutas de D’Artagnan, descritas por Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros são rápidas, ágeis e divertidas, mas infelizmente muito curtas. Em O mestre de esgrimas, de Arturo Perez-Reverte, o uso de termos técnicos deixa a ação lenta e às vezes incompreensível.

Mas Os duelistas, de Joseph Conrad, é um verdadeiro catálogo de descrições de duelos de espadas, e sempre se pode recorrer a Bernard Cornwell, com suas descrições curtas e dinâmicas, onde o duelo em si nunca dura muito, antes de se converter num vale-tudo de matar ou morrer a qualquer custo.

Tendo o vocabulário certo, já sabendo o que quero descrever, então é preciso “coreografar” a luta, decidir onde ela começa, por onde passa e como termina, e o que os personagens fazem de distinto.

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Se você pensar “duelo na ópera”, não há como escapar de Scaramouche, o filme de capa e espada que traz a mais longa sequência de duelo da história do cinema. Lançado em 1952, era um daqueles filmes que prometia ação, cor, aventura, mais cor ainda (era o auge do Technicolor) como resposta aos avanços da TV.

Na longa sequência final, o herói André Moreau, disfarçado de Scaramouche, salta do palco aos camarotes e desafia seu inimigo, o marquês de Maynes, para o duelo final. E a luta, que começa nos corredores, desce as escadarias, avança pela plateia-baixa, sobe ao palco e termina nos bastidores, sob o olhar atônito do público e suspiros emocionados. Acredito que, desde então, a aventura de capa e espada nunca ficou maior que isso.

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Comentários sobre "Escrevendo duelos"

  1. Estou escrevendo um romance com vários duelos de espadas.
    Optei pela descrição mais detalhada das lutas, sempre “coreografadas”. Se tiver interesse em uma conversa mais detalhada sobre o assunto, entre em contato comigo!

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