ENTREVISTA COM SAMIR MACHADO

Bruno Mattos entrevista o autor de Homens elegantes e Quatro soldados
8 de maio de 2017


Homens elegantes, assim como seu romance anterior (Quatro soldados), transcorre na segunda metade do século XVIII. Por que o interesse por este período histórico específico?

O século XVIII me encontrou antes que eu o encontrasse. Quando escrevi Quatro soldados, eu tinha uma ideia da história que queria contar, antes de saber o período em que ela se passaria. O Brasil setecentista se mostrou o cenário ideal: uma colônia culturalmente atrasada de um dos reinos mais retrógrado da Europa de então, que ainda vivia uma mentalidade quase medieval enquanto o mundo já entrava na modernidade.
Mas romances históricos são mais sobre a época em que são escritos do que o período em que se situam, e o que mais me atraiu no século XVIII foram os paralelos e elipses entre o início da modernidade e o mundo atual, pós-moderno. Se em Quatro soldados meus personagens vinham de fora para olhar o Brasil, pensei numa história que fizesse o inverso: tirar o meu protagonista do Brasil colonial e o colocar no centro da Europa iluminista.

Para ajudar a situar a ação, o livro esmiúça detalhes e costumes da época. Você poderia contar um pouco do processo de pesquisa para o livro?

Eu usei como pesquisa inicial o livro London in the Eighteenth Century: a Great and Monstrous Thing, de Jerry White. O livro é um colosso, parte de uma série escrita pelo autor sobre cada século da cidade (que eu visitei alguns meses antes de começar a escrever). O resto foi surgindo conforme a trama avançava, mas uma coisa é saber pontualmente como se usava uma roupa ou o que se comia, outra é saber como os personagens reagiriam a essas coisas.
Nisso a ficção ajuda tanto quanto a pesquisa histórica. Filmes como Barry Lyndon, Amadeus e Farinelli, livros como Moll Flanders e Mason & Dixon, e vários jogos da série Assassin’s Creed são ambientados nesse exato período histórico, o que me permitia uma imersão visual completa, uma experiência riquíssima.

É interessante isso, porque o livro trata muito diretamente da questão de identidade. Há exemplos bem claros de como as identidades são moldadas pelos códigos e costumes de uma determinada época…
Sim, e ao mesmo tempo, elas não são estanques. O interessante do século XVIII é que é um período anterior ao nacionalismo, a hinos e bandeiras. A aspiração dos filósofos era a de se tornarem homens do mundo, mas como fica a identidade individual em contraste com o senso de comunidade? O quanto uma identidade coletiva é mais um rótulo do que uma realidade? A primeira frase do Fedro de Platão é “para onde vais, e de onde vens?” Quase um fiscal de alfândega. Há um motivo para esse ser também o livro favorito de Érico, meu protagonista, no que é em muito uma história de viagem. É uma pergunta essencial para ele, que vive em movimento.

Você afirma que um romance histórico é mais representativo do tempo em que foi escrito do que o período que retrata. Em seu romance, os personagens se revoltam com o contexto do século XVIII, mas provavelmente eles enfrentariam os mesmos preconceitos se vivessem hoje. Como isso é possível?

É preciso ver o passado com os olhos da época, mas que olhos seriam esses? Cada período histórico contém a sua vanguarda e os seus reacionários. Os direitos da mulher já eram tema de discussões no início do século XVIII. Portugal aboliu a escravidão em seu território (mas não nas colônias) em 1761. A descriminalização do dito “crime de sodomia” já entrava na pauta dos Iluministas.

E aqueles que são apegados demais ao status quo, que necessitam da manutenção de valores antigos seja por interesse ou pela incapacidade de adaptação, usam a mesma argumentação há 300 anos. Um panfletista que chamasse as classes sociais mais baixas de “bárbaros com inveja da civilização” estaria à vontade dentro da mentalidade do século XVIII, por exemplo, mas exatamente o mesmo argumento foi utilizado por um articulista brasileiro em 2014. Já a mesma lógica argumentativa de que “há direitos que são limitados”, utilizada por um articulista contra o casamento igualitário, pode ser usada contra qualquer direito antes de ser conquistado, como o direito da mulher ao voto. Independente da época, sempre haverá aqueles que projetam mudança, e aqueles que preferem que tudo continue como está.

Embora trate de questões atuais e relevantes e tenha uma abordagem de escrita bastante original, Homens elegantes é um livro fluido e acessível. É o que muitos poderiam chamar de literatura de entretenimento. Por que a opção por escrever um livro assim?

Não gosto do modo como a noção de “entretenimento” é utilizada hoje, em que entretenimento é somente aquilo que é divertido, mas vazio. Quem diabos consegue ler um livro que não o entretenha durante a leitura? A estrutura do livro, em três atos com dois intervalos, roubei da ópera. Em seguida me dei conta de que o modo de ser da ópera era o equivalente setecentista à um blockbuster hollywoodiano – grandes cenários, efeitos especiais, emoções grandiloquentes, clichês. Então me interessou brincar cada vez mais com essa ideia, de alterar entre “arias” e “recitativos”, entre exploração do personagem, e grandes momentos de ação (duelo na escadaria, perseguições a cavalo, uma batalha naval).

E mesmo os clichês podem ser úteis, eles existem por um motivo: eles permitem estabelecer rápido para o leitor alguns elementos da história, que são muito divertidos de subverter depois. Tudo o que escrevi até hoje poderia ser facilmente classificado como “histórias de aventura”. Não sei se conseguiria escrever algo mais contido e intimista, ao menos não que fosse melhor do que já vem sendo feito por outros autores da minha geração, alguns muito melhores do que eu. De certo modo, eu escrevi o livro que gostaria de ter lido quando tinha catorze, quinze anos. Nem que fosse para ler escondido.

* Bruno Mattos é tradutor e jornalista.

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