Entrevista com Patrícia Melo

Autora fala sobre seu novo romance, Gog Magog
15 de fevereiro de 2018


Ágil como uma facada. Tensa como incita o corte. Violenta qual o acaso. Assim é a narrativa de Patrícia Melo, nome de destaque da ficção nacional. Com humor corrosivo, personagens ricos e tramas de fluidez cinematográfica, Patrícia dedica sua verve a tratar sobre a morte — ora espetáculo, ora banal — e sobre a violência em suas várias facetas.

Autora de sucessos de público e de crítica, como O matador, tornado filme em 2003 sob o título O homem do ano, e Inferno, ganhador do prêmio Jabuti em 2001, ela é também roteirista e dramaturga de prestígio. Uma escritora que investiga a sordidez humana como poucos. Abaixo, ela fala sobre Gog Magog, seu último livro.

– Como surgiu a ideia para a trama de Gog Magog? Você já teve problemas com vizinhos?

Somos um país homicida. Matamos e morremos como se estivéssemos em guerra. Somos o campeão de homicídios do planeta. É assustador perceber essa perda da intensidade do valor da vida em nossa sociedade. Gog Magog nasceu desse espanto. E da percepção de um fenômeno bastante atual que eu chamo de “fetiche dos meus direitos”. Parece que estamos morrendo de paixão pelos nossos próprios direitos. Tão apaixonados e cegos que não conseguimos ver um passo além dessa paixão.  O direito do outro é para nós uma ameaça. Um risco.

– A narrativa gira em torno da questão do silêncio e da falta dele. Ter ido morar na Suíça, que, mesmo em suas áreas mais urbanas, é definitivamente mais tranquila que São Paulo, fez você pensar mais nesse assunto?

O ruído, no livro, é quase uma metáfora. É algo que introduz desarmonia no mundinho pequeno, fechado do personagem, um pacato professor de biologia, um fanático defensor dos seus direitos. Mas é verdade que eu falo também do ruído físico. São Paulo, como toda grande cidade, é uma sinfonia de ruídos. A cultura contemporânea é barulhenta. O silêncio tornou-se um artigo de luxo. O silêncio será, ou melhor, já é um produto muito caro. A Suíça também é barulhenta. Viver é barulhento, como diz meu personagem. Em qualquer lugar.

SAO PAULO, 18 DE DEZEMBRO DE 2009, retrato de Patricia Melo em sua casa. (FOTOS: JULIA MORAES)

– Ainda que a literatura policial tenha influenciado sua produção desde o início, é impossível classificar qualquer livro seu como de gênero. Gog Magog, como não poderia ser diferente, subverte clichês e expectativas, borrando ainda mais as fronteiras entre o bem e o mal, a loucura e a sanidade, o crime e a justiça. Como você define o livro e o insere dentro da sua carreira?

Gog Magog é um reconto existencial, que fala do “fetiche do meu direito”, da intolerância e do ódio.  Eu quis entrar na cabeça de um personagem fanático, que tem uma paixão cega pelos seus “direitos”.  Parece que todo fanático pelos seus próprios direitos pensa no direito como algo expansivo e imperialista.   Como funciona a cabeça de um cara assim?  Quais são as possibilidades da sua humanidade? O que pode surgir quando seu mundinho entra em colapso? Gog Magog surgiu dessa reflexão.

– Nos últimos anos você estreou nos contos, apresentou seu primeiro personagem detetive e pintou aquarelas para capas de seus livros. Que outras novidades podemos aguardar em breve?

Meu próximo projeto é para televisão. Vendi os direitos de um dos meus romances para a Globo. Junto com Guel Arraes e Bráulio Mantovani, vamos adaptá-lo para uma série televisiva.

 

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