Ben H. Winters fala sobre a trilogia O último Policial

Por Ademar Júnior
16 de novembro de 2015


Ben H. Winters é escritor, jornalista, dramaturgo e professor. Nascido em Maryland, EUA, estreou na literatura com Razão e sensibilidade e Monstros marinhos, paródia do romance clássico de Jane Austen. Antes de se tornar escritor, Ben fez parte de bandas musicais e trabalhou com teatro. Hoje, já conta com oito romances publicados e um nono foi anunciado para julho de 2016.

Sua obra de maior destaque é a trilogia O Último Policial, publicada no Brasil pela editora Rocco. O segundo volume dessa trilogia, Cidade dos últimos dias, ganhou o Philip K. Dick Award de 2014, um dos prêmios mais importantes da ficção científica. Nessa entrevista, Ben Winters conta um pouco mais sobre sua trilogia e seu protagonista, a importância de ter ganhado esse prêmio, além de falar sobre seu início de carreira, gostos pessoais e sobre o próximo livro.

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Oi, Ben. Vamos começar com a pergunta clássica: como e por que você se tornou um escritor?

BHW: Primeiramente, eu acho que eu queria ser um artista. Eu toquei em bandas (e compus letras), fiz comédia, atuei em peças de teatro. Mas em todo esse tempo, a parte que eu realmente gostava era a criação das histórias — as músicas, as piadas, o roteiro. Eu também não era um artista muito talentoso ou consistente, independente, da área. Então eu comecei a escrever, e ultimamente eu descobri que a ficção era onde estavam meu interesse e paixão.

Além de livros infantis e a trilogia que está sendo lançada por aqui pela editora Rocco, você também já escreveu adaptações de obras clássicas como Sense & Sensibility & Sea Monsters e Android Karenina. De onde surgiu a ideia para essas adaptações?

BHW: Não de mim. Foi uma situação muito incomum com esses livros. A editora Quirk Books estava fazendo esse tipo de adaptação e teve muito sucesso com Orgulho e Preconceito e Zumbis, então eles me convidaram para escrever Monstros marinhos. Foi uma tarefa estranha, mas incrivelmente divertida. Foi desafiante, uma experiência deliciosa, e esse foi meu primeiro romance publicado.

Para você, é mais fácil adaptar uma obra que já existe, dando-lhe uma nova roupagem ou criar uma trama totalmente nova?

BHW: Definitivamente, 100% mais fácil escrever uma nova história. Começar com uma tela em branco e ir aonde a história te levar. Apesar disso, aprendi muito fazendo as adaptações de Austen e Tolstoy. Eu aprendi como construir uma história, como fazer a quebra de capítulos, como entrelaçar temas e boas ideias através do meu trabalho. Foi um ótimo lugar para começar uma carreira.

 

Você possui obras em diversos gêneros e para vários públicos. O que te faz preferir a versatilidade ao invés de seguir por um caminho de um gênero só, como fazem muitos autores?

BHW: Eu acho que a melhor parte em cada história são os personagens e seus conflitos: em se apaixonar pelas pessoas e se identificar com a maneira com que eles enfrentam seus problemas. Esses elementos estão presentes em todos os meus trabalhos, eu espero: romances infantis, peças de teatro, até mesmo nos poemas, e especialmente nos romances de mistério. Por isso, eu não vejo como diferentes formas de trabalho: há um espectro. É como usar a mesma ferramenta para fazer coisas diferentes.ben_h_winters_credit_mallory_talty

Escrever para crianças ou para adultos? Qual desses públicos te surpreende mais no feedback do seu trabalho?

BHW: Eu acho que prefiro escrever mais para adultos, ultimamente, porque eu não preciso limitar o direcionamento da história, em se tratando de “situações adultas” e tudo mais. Mas eu definitivamente me vejo escrevendo outros livros para crianças, porque eles são muito divertidos de escrever, e porque meus filhos estão se tornando leitores sérios, e eu adoro a ideia de escrever algo que eles possam gostar.

O reconhecimento da trilogia é inegável. Isso talvez a torne seu trabalho mais importante até agora. Para você, o que ela representa na sua carreira como escritor?

BHW: Obrigado. Certamente eu sinto como se O último policial representasse um novo momento na minha carreira, profissional e artisticamente. Eu meio que encontrei minha voz com esse livro, por isso eu me sinto muito muito sortudo – honrado, na verdade – que as pessoas tenham gostado.

Como surgiu a ideia de escrever uma saga pós-apocalíptica de personagens em meio a desesperança, mesclando ficção científica e romance policial?

BHW: Eu queria escrever um romance policial, e queria que fosse algo que ninguém tivesse visto antes. Então eu disse: e se o mundo acabasse? O que aconteceria com o gênero? Que tipo de pressão isso colocaria no herói? Eu simplesmente amei a ideia e, à medida que eu ia progredindo com a trilogia, eu continuei encontrando novas maneiras de explorar isso.

Pretende explorar essa mistura novamente? Há alguma ideia que possa ser compartilhada?

BHW: Não necessariamente essa mistura – não haverá mais livros apocalípticos de minha autoria –, mas eu continuarei explorando mundos alternativos. Meu próximo livro é Underground Airlines [em tradução livre: Linhas aéreas subterrâneas], que imagina uma versão contemporânea dos Estados Unidos onde ainda existe escravidão. O livro será publicado nos EUA em julho de 2016, não tenho certeza se já foi anunciada uma data para o Brasil.

Para os leitores brasileiros, o destino das personagens de O último policial ainda é inédito. Por que o leitor deve manter a perseverança de acompanhar um personagem que caminha para o caos?

BHW: Tenho esperança de que seja porque a história continua interessante. Mesmo que o mundo esteja caindo aos pedaços, ainda há mistérios a serem resolvidos – um caso em cada romance –, e também alguns mistérios mais profundos sobre o passado de Hank, sobre sua irmã e assim por diante.

Na primeira parte da trama, Hank Palace nos ensina a seguir em frente mesmo quando não há esperança, mesmo quando todos parecem desistir. O que mais poderemos aprender com Hank Palace nos próximos livros?

BHW: Muita coisa. Eu fiz disso meu objetivo para com os leitores: mantê-los aprendendo sobre ele através da coisa toda – até o final. Eu aprendi mais sobre ele à medida que eu escrevia; aprendi sobre sua infância, seus romances, sobre as coisas que o motivam. Eu espero que os leitores continuem tão apaixonados por esse cara como eu fiquei.

Quanto de você há em Hank Palace?

BHW: Não muito, eu receio. Eu só gostaria de ter metade da esperteza e coragem dele. Eu também amo Bob Dylan. E é isso.

De certo modo, ao não sucumbir ao suicídio, Hank Palace contribui positivamente para a discussão do tema. Foi proposital? O suicídio é um tema com algum interesse social especial para você?

BHW: Na verdade não, não tematicamente. Suicídio entrou na história de duas formas: como uma das muitas maneiras que as pessoas reagiriam a um asteroide inevitável, e como uma trama para o mistério: parece um suicídio, mas Hank acha que não. É um tipo de enredo de romance policial clássico e eu senti que se adequava à história.

O segundo volume da trilogia, Cidade dos últimos dias, venceu o Philip K. Dick Award. Qual foi a importância de ter recebido esse prêmio especificamente?

BHW: Eu estava MUITO animado, não só porque isso me trouxe reconhecimento no mundo da ficção científica, algo que eu não imaginava, mas também porque o trabalho do Dick é importante para mim, especialmente pelo seu mundo alternativo misterioso em O homem do castelo alto. Um dos meus favoritos.

E aqui eu pergunto, quais foram suas influências ao escrever a Trilogia? Por quê?

BHW: Ao lado de O Homem do Castelo Alto, tem o Associação Judaica de Polícia do Michael Chabon e o Complô contra a América do Philip Roth. Todos belos livros que imaginam mundos alternativos e os utilizam para examinar o nosso mundo real. E também tem os livros e autores de literatura policial que eu amo: Hammett e o O Falcão Maltês, os trabalhos da P. D. James, os do Richard Price (especialmente Clockers) e os do George Pelecanos. Ah, e Patricia Highsmith. Sempre Highsmith.

Checklist Cooltural

Livro favorito: O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith;

Autor: De todos os tempos, Charles Dickens. Atual, Richard Price;

Ator/atriz: Phillip Seymour Hoffman;

Filme: Os irmãos cara-de-pau (The Blues Brothers, 1980);

Diretor: Eu não sou cinéfilo o suficiente para ter um. Nos últimos anos, eu tenho realmente gostado dos filmes de Nicole Holofcener;

Um sonho a realizar: Que meus filhos cresçam e sejam felizes;

Cães ou gatos? Gatos. Menos trabalho para os donos;

Álbum musical: This Year’s Model do Elvis Costello; Blood on The Tracks do Bob Dylan; Mule Variations do Tom Waits.

 

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