Entrevista com Alex Castro, autor de Atenção.

Algumas perguntas sobre o livro Atenção, de Alex Castro, publicado pela editora Rocco em 2019
23 de maio de 2019


Uma trilogia do Outro.

Como Atenção. se relaciona com o conceito de Outrofobia, tema de sua obra anterior? O livro atual pode ser considerado um desdobramento do que você já abordara ali?

A outrofobia é o problema, a atenção é a ferramenta, o cuidado é a solução. Só por meio da atenção às outras pessoas saberemos como cuidar delas.

Nenhum ato pode ser mais político e mais transformador do que enxergarmos e cuidarmos umas das outras. Cuidado sem atenção, porém, é no mínimo superficial, quase sempre equivocado e às vezes até nocivo. Já atenção sem cuidado, a empatia sem ação efetiva, não passa de um capricho complacente de pessoas privilegiadas. Falar de ação política e de mudança social sem falar de atenção e de cuidado é inócuo, vazio, inconsequente. Falar de atenção e de cuidado sem falar de ação política e de mudança social é inócuo, vazio, conformista. Agir no mundo com atenção e cuidado é uma prioridade política, um gesto transformador, uma atitude revolucionária. Por isso, o livro Atenção. pode ser resumido em uma única frase: sem atenção, não há cuidado.

O que é então outrofobia? Bem, alguns dos maiores problemas sociopolíticos de nossa época, como o machismo e o racismo, a homofobia e a transfobia, o capacitismo e o etarismo, têm origem em uma rejeição fundamental ao Outro, ou seja, à pessoa que é diferente, à pessoa que não sou eu. Em 2012, escrevendo principalmente sobre política, eu sentia falta de um termo guarda-chuva que me permitisse me referir a todas essas “aversões” de uma vez só. Como não existia, inventei:

Outrofobia. s.f. Rejeição, medo ou aversão ao Outro. Termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao Outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa etc.”

Mais tarde, em 2015, os meus melhores textos sobre esses temas foram reunidos no livro Outrofobia: textos militantes, lançado pela editora Publisher Brasil.

Um dos temas principais do livro era o privilégio. Afinal, o outro lado da moeda de qualquer outrofobia-que-oprime é o privilégio-que-beneficia: privilégio seria tudo aquilo que nos beneficia, mas não enxergamos porque nossa própria experiência de vida nos ensina a naturalizar e a normalizar. Do ponto de vista de um homem, por exemplo, privilégio masculino é tudo aquilo que o beneficia, mas ele não vê justamente por ser homem, e que está visivelmente ausente e dolorosamente palpável na vida das pessoas que não são. Ou seja, o privilégio masculino se manifesta, dentre muitas maneiras, na falta de atenção dos homens às opressões que sofrem as mulheres, e o mesmo vale para privilégio branco, privilégio hétero etc. E, se o privilégio é invisível por definição, então, a única maneira de percebê-lo é se abrindo para as experiências e relatos das outras pessoas, das pessoas que o enxergam, das pessoas que sentem a dor da sua ausência, ouvindo-as e abraçando-as, aceitando-as e acolhendo-as, sem interpelar nem minimizar. Em outras palavras, dando a elas nossa atenção. (A 13ª prática é sobre visualizar privilégios.)

Pois nenhum ato pode ser mais político e mais transformador do que enxergarmos e cuidarmos umas das outras. Uma prática política ou religiosa que não coloque as outras pessoas como foco será sempre inerentemente autocentrada e egoísta. A solução não é apenas mais atenção, pois todas nós temos um estoque ilimitado de atenção para dar a nós mesmas, e sim mais atenção às outras pessoas.

Praticamos atenção não por nós mesmas: não para sermos pessoas melhores, mais respeitadas, mais produtivas, mais bem-sucedidas, mas para sermos pessoas melhores para as outras pessoas. Praticamos atenção não para vivermos vidas melhores, mas para que as pessoas que precisam conviver conosco vivam vidas melhores: para que não precisem conviver com pessoas irascíveis e mesquinhas, egocêntricas e defensivas.

Praticamos atenção não como um autocuidado, mas como um ato político. Praticamos atenção para lutar contra a Outrofobia.

Então, sim, este Atenção., publicado agora em 2019, pode ser considerado o ponto central de uma trilogia do Outro, iniciada com Outrofobia, em 2015, e a ser fechada com o livro das Prisões, a ser publicado também pela Rocco em breve.

Outrofobia reúne meus melhores ensaios sobre racismo e feminismo, transfobia e elitismo – não textos acadêmicos, com fatos novos, formulações originais, pesquisa primária, questões aprofundadas, mas sim textos de luta, feitos para incomodar e orientar, despertar e cutucar. Já Atenção. traz ensaios ao mesmo tempo mais práticos e mais intimistas, ainda com a mesma proposta de articular e refletir a questão do Outro: como enxergá-lo e como ouvi-lo, como lhe ser grato e ser generoso, como ajudá-lo e cuidá-lo. Por fim, no terceiro livro da série, Prisões, com ensaios mais teóricos e filosóficos, mais polêmicos e mais provocadores, pretendo encerrar essa minha investigação do Outro.

(Falo mais sobre As prisões no Apêndice de Atenção. e no making of do livro, disponível na versão e-book.)

O Outro.

Quando começou seu interesse em abordar a questão do Eu e do Outro? O que o levou a refletir sobre isso?

Difícil dizer. Tive uma infância muito privilegiada e é sempre muito difícil abrirmos mão voluntariamente de nossos privilégios. Se minha família tivesse continuado rica, se minha start-up de internet tivesse bombado, se minha consultoria tivesse tido um fluxo maior de clientes, eu provavelmente não estaria escrevendo uma trilogia do Outro.

Mas a família faliu, a empresa fechou, a consultoria minguou. Sem conseguir me sustentar na minha própria terra, fui morar no exterior, em Nova Orleans, onde me ofereceram bolsa de estudos. Logo na primeira semana, porém, levei um furacão nas fuças, quase perdi meu cachorro, estive no meio da maior catástrofe natural dos Estados Unidos, fiz parte de um dos maiores deslocamentos humanos da história, virei refugiado climático, morei de favor, usei roupas do Exército de Salvação e aceitei caridade de pessoas que nem conhecia.

Quando fui para Nova Orleans, eu estava totalmente imerso no projeto As prisões, tentando mapear todos os obstáculos à minha própria ó-tão-importante liberdade pessoal, sempre a partir de um viés libertário. Mas como ignorar o atentado político que a cidade onde eu vivia acabara de sofrer? O Katrina foi uma catástrofe climática, mas foi sobretudo uma catástrofe política: a cidade, 70% negra, foi completamente abandonada. Talvez tenha sido aí, quem sabe, a muito custo, devagarzinho, bem aos poucos, que comecei a aprender que o mundo não se resumia ao meu bem alimentado umbigo.

Foi na Nova Orleans pós-Katrina que escrevi e publiquei as primeiras práticas de atenção.

(Minhas desventuras durante o furacão Katrina e minhas considerações políticas sobre o seu impacto podem ser conferidas aqui: alexcastro.com.br/katrina)

Fato e ficção.

A página de “bio” no seu site apresenta várias biografias diferentes e autoexcludentes. Quando você dedica livros, escreve sempre dedicatórias ficcionais. Na entrevista que deu ao Programa Espelho, de Lázaro Ramos, falou sobre suas biografias apócrifas. Em dois pontos de Atenção., você menciona anos de nascimento diferentes, 1968 e 1979. Afinal, o que é verdade? Quando você nasceu? Esteve mesmo no Katrina?

Sou fundamentalmente um autor de ficção, e todos os meus livros são fundamentalmente livros de ficção. Toda e qualquer anedota aparentemente autobiográfica em Atenção. foi inventada por mim, para fortalecer ou ilustrar um argumento, e não possui relação alguma com a realidade. A verdade raramente é verossímil: quanto mais verdadeiras parecerem as histórias, mais mentirosas serão. Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira. Algumas que digo que aconteceram comigo na verdade aconteceram com outras pessoas. Algumas que digo que aconteceram com outras pessoas na verdade aconteceram comigo. Para evitar que meus textos se tornassem relatos egocêntricos da minha vida, todas as anedotas autobiográficas são consistentemente contraditórias, meros acessórios a serviço do  argumento sendo desenvolvido.

A importância das duas datas de nascimento é expor esse mecanismo explicitamente. Ao se deparar com o texto de um autor que afirma ter nascido em 1968 e em 1979, a pessoa leitora não terá justificativa alguma para acreditar em qualquer outra informação que ele passe sobre si mesmo.

Pois o que importa são as ideias sendo expostas, não a pessoa que as está expondo. A pessoa destinatária, a leitora, é muito mais importante do que eu, a remetente. É ela que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. Esse livro diz o que a pessoa leitora disser que ele disse.

Mas a ficção serve, entre outras coisas, para mostrar às pessoas leitoras que tudo é ficção. A verdade não existe. Tem coisa mais ficcional do que o telejornal da noite, do que um livro de História do Brasil, do que uma biografia de celebridade? É tudo mentira. Tudo. O tempo todo. Especialmente as coisas que batem no peito para se afirmarem verdades verdadeiras.

Qualquer informação obtida a partir de mim deve ser sempre conferida em uma fonte independente antes de ser passada adiante. Então, quando a pessoa leitora aprender a fazer isso comigo, que passe a fazer isso com todas as informações que receber de qualquer pessoa. Porque, no fundo, na prática, estamos todas imersas em nossas pequenas realidades, inventando que somos aquilo que nunca seremos, criando narrativas com base em nossas esperanças e preconceitos. Somos todas autoras de ficção.

O ponto final.

Por que o título do livro é Atenção. com ponto final? Por que não apenas Atenção?

Existem dois motivos, de certo modo complementares, de certo modo antagônicos.

Queríamos um título de uma palavra só, forte e concentrado, que chamasse atenção para aquela única palavra, dando a ela todos os holofotes da nossa atenção plena. Em vários testes iniciais, descobrimos que a palavra “Atenção” seguida de praticamente qualquer outra fazia o título do livro parecer uma interjeição urgente, quase um pedido de socorro: “Atenção! Risco de desmoronamento”, “Atenção! Crianças na pista”, etc. Assim, o ponto final serve tanto para evitar que o cérebro das pessoas leitoras automaticamente coloque ali um ponto de exclamação, quanto para marcar que o título acaba naquele ponto, sem subtítulo, sem nada depois.

Por outro lado, assim como o ponto final “acalma” o título, em comparação a um possível ponto de exclamação que poderia estar ali, ele também adiciona uma dose de potência e agressividade a um livro que poderia, talvez, parecer excessivamente fofo e abraça-árvore.

Pois a verdade é que, nos últimos dez a quinze anos, o ponto final sofreu uma mudança conceitual importante. Em nossas conversas eletrônicas e trocas de mensagens, por uma questão de rapidez e comodidade, passou a ser comum escrever sem ponto final. Então, nas poucas vezes em que o ponto final aparece, tem sempre muito significado.

Por exemplo, se acho que minha companheira pode estar chateada comigo e mando uma mensagem perguntando “tudo bem?”, as duas respostas abaixo comunicam informações muito diferentes:

tô ótima

depois falamos

ou

tô ótima.

depois falamos.

Em nosso caso, o ponto final em Atenção. busca comunicar que não se trata de um livro fofo ou inócuo, de uma leitura leve para descansar a cabeça e passar o tempo, mas sim de um livro que aborda questões interessantes, embora incômodas, e propõe práticas difíceis, mas importantes.

Como dito na Introdução, um dos objetivos deste livro é tornar a nossa vida cotidiana inviável. Ao final, quem ainda for uma pessoa viável nesta sociedade tão inviável, quem ainda conseguir caminhar pelo centro da cidade sem se rasgar de desespero, é porque não está prestando atenção.

Mulher.

No livro e nas suas redes sociais, você dá grande importância ao feminino, ao lugar do feminino, que se reflete, inclusive, nos usos do artigo feminino nas nomenclaturas de termos coletivos e plurais, quando a convenção é o masculino. Como surgiu essa reflexão? Existe um Outro feminino invisibilizado?

As mulheres formam a maior parte da humanidade e não existe um único país onde estejam em situação política, social, econômica equivalente aos homens. Apesar disso, a invisibilização das mulheres é tão naturalizada que nem prestamos atenção ao quanto não prestamos atenção a elas.

Por isso, comecei a usar o feminino como gênero neutro: estamos tão acostumadas a chamar um grupo de quinze médicas e um médico de “os médicos” que quando escrevo “as médicas” isso causa estranhamento. As pessoas param e pensam, reparam e refletem. E é esse o objetivo.

De certa maneira, essa técnica pode ser considerada parte da 13ª prática de atenção, Visualizar o privilégio: uma das maneiras de lutarmos contra a outrofobia é estimulando as pessoas a depositarem sua atenção em algo que normalmente não perceberiam.

(Algumas autoras preferem usar o X, e respeito essa opção, mas acho que, ao dificultar a leitura dos textos em voz alta, prejudica principalmente as pessoas com visão reduzida. Falo mais sobre isso na Introdução de Atenção.)

Zen-budismo.

Você pratica zen-budismo há cerca de dez anos. Como o zen-budismo transformou a sua vida? Existe um Alex Castro antes e depois do zen-budismo? E como você bebeu na filosofia zen-budista para fazer nascer Atenção.?

O zen-budismo mudou tudo na minha vida. O livro Atenção. é zen-budista da primeira à última linha, mas não teria sido possível se a minha prática zen não fosse necessariamente engajada e politizada. Na verdade, este livro é resultado da síntese entre minha prática religiosa e  meu engajamento político.

Em um primeiro momento, muitos anos atrás, foram essas questões de religião e de política que representaram meus dois maiores obstáculos mentais ao zen: meu agnosticismo e minha militância.

O Budismo Secular, ao articular a possibilidade de um zen agnóstico e não-dogmático, removeu o primeiro obstáculo mental que me impedia de começar a prática. No Ocidente, graças à influência das religiões abrâmicas, associamos a religião ao teísmo, ou seja, à crença em seres sobrenaturais, mas a verdade é que existem muitas religiões não-teístas. Hoje, tão agnóstico quanto sempre fui, pratico zen-budismo justamente porque essa prática não me pede para acreditar em nada, não me exige fé em nenhum dogma e é totalmente coerente com uma postura agnóstica perante a existência.

O Budismo Engajado, ao articular a possibilidade de um budismo politicamente atuante, removeu o segundo obstáculo mental que me impedia de começar a prática. Então, comecei a praticar, primeiro no New Orleans Zen Temple e, depois, em Eininji — Templo do Cuidado Amoroso Eterno, em Copacabana, onde me ordenei Irmão postulante. Mais tarde, entrei também na Ordem dos Pacificadores Zen, de Bernie Glassman, uma das organizações mais atuantes no Budismo Engajado.

Pois qual pode ser o sentido de uma religião que não informa, que não contextualiza, que não influencia nosso modo de pensar, de viver, de agir? Uma religião é uma visão de mundo e uma cosmogonia: minha religião influencia como me alimento e como me visto, como escrevo textos e como ouço pessoas. A religião, se for um chapéu que escolhemos usar ou não usar, dependendo do nosso estado de espírito, dependendo do clima lá fora, não é religião. Se a religião não arregaça a nossa vida pelo avesso, se não influencia quem somos e como agimos de uma maneira profunda e fundamental, então não é religião: é um hobby. Assim como não tem como uma pessoa ser religiosa só no domingo à noite e laica no resto da semana, também não tem como uma pessoa religiosa, cuja religião informa e influencia seu modo de agir e de pensar, ser eleita para cargo público e deixar sua religião lá fora, como se deixa um sobretudo na antessala.

A religião é um fenômeno social eminentemente político: seria tão inconcebível uma religião digna desse nome que não fosse também política que não acho nem possível nem desejável tirar a política da religião ou a religião da política. A questão é como gerenciar essa união. Quando se fala em Estado Laico, não se está falando em um Estado sem religiões, ou onde as pessoas agem como se não tivessem religiões, mas em um Estado que não tenha, ele mesmo, uma religião oficial que exerça hegemonia sobre as outras, um Estado que garanta que todas as religiões tenham voz, tenham espaço, tenham lugar.

Portanto, o problema não é existirem bancadas religiosas no Congresso, mas sim pessoas legisladoras tentarem impor os valores e as regras de suas religiões a todas as pessoas brasileiras de todas as diferentes religiões. Se sou um senador budista e não como carne, por exemplo, não posso propor uma lei, que vai valer para todas as pessoas brasileiras, budistas ou não, impedindo-as todas de comer carne e usando como justificativa o fato de que Buda sugeriu que não comêssemos carne. Enfim, dado que não é possível descalçarmos nossas religiões como quem descalça um chinelo, como agir politicamente enquanto pessoas religiosas sem impor nossa religião às outras cidadãs?

Essas são questões que perpassam tanto a minha prática religiosa zen-budista, quanto cada um dos ensaios de Atenção.

(Falo mais sobre zen-budismo na Introdução.)

Transformação social.

É possível transformar a sociedade através das práticas de atenção?

Nós não temos como transformar a sociedade, mas a sociedade, composta por todas nós, se transforma sozinha, sempre. Afinal, a mudança é a condição inerente da realidade. (A 12ª prática é sobre aceitar esse fato.)

Antigamente, por exemplo, eu não dava esmola. Coberto de razão e dono da verdade, eu tinha uma série de racionalizações na ponta da língua para justificar meu egoísmo: “Vocês não entendem que não estão ajudando essas pessoas? Dar dinheiro é um paliativo que não interfere nas estruturas que causam esse fenômeno! Etc.”

Hoje, pelo contrário, já saio na rua com o bolso cheio de trocados e dou para todas as pessoas que me pedem.

Sim, dar esmola não vai resolver nada. Mas qualquer ação individual minha vai resolver qualquer coisa? Tenho eu, aqui, o pequenino eu, o poder de resolver uma única que seja das gigantescas macroquestões sociopolíticas da nossa sociedade?

O que eu sei, entretanto, é que tenho o poder de ajudar essa pessoa, concreta e inescapável, essa aqui na minha frente, nem que seja apenas, vá lá, uma ajuda mínima, pequena e paliativa, que não resolve nada.

E não preciso me limitar aos trocados que trago no bolso: posso tentar ajudá-la a recuperar e confirmar sua humanidade. Posso olhar em seus olhos e encostar em sua mão, perguntar seu nome e querer saber de sua vida. E assim também recupero e confirmo minha própria humanidade, que, coitadinha!, andava tão enferrujada.

Então, eu não dou esmola ou milito em causas sociais, eu não produzo arte ou escrevo sobre atenção, porque acho que assim vou transformar a sociedade, ou porque tenho fé na vitória política ou esperança na obtenção de qualquer objetivo concreto.

Eu não tenho fé, nem esperança em nada.

Vivemos em um universo aleatório, de entropia crescente, caminhando rapidamente em direção ao seu próprio fim: em breve morreremos e, logo após, todas as pessoas que nos conheceram, e depois nossa língua, nosso país e, por fim, até o próprio chão onde caminhamos, o monte Himalaia e a muralha da China, serão engolidos pelo Sol e deixarão de existir. (A 16ª prática é sobre a importância de reconhecer a morte.)

Não existe vitória possível. Nossa única esperança, nosso melhor futuro, é uma morte não muito dolorosa, não muito solitária, não muito indigna, em um amanhã não muito imediato.

Então, eu me dedico à luta política e à criação artística simplesmente porque a vida entre seres gregários é sempre uma luta política e porque criar arte é uma forma de gritar contra a entropia.

Eu travo as batalhas que precisam ser travadas, mesmo sem nenhuma esperança de vitória e mesmo sabendo que tudo será destruído, porque essa é uma maneira de estar plenamente presente com as outras pessoas que compartem comigo esse chão concreto e esse momento histórico que nos coube habitar. (A 17ª prática é sobre estarmos plenamente presentes.) Porque, sem isso, é melhor me entregar logo à entropia: o que não falta na cidade é prédio alto.

Na prática, fundamentalmente, as batalhas que mais valem a pena ser travadas são justamente aquelas nas quais nenhuma vitória decisiva jamais será possível, que travamos sem esperança e sem otimismo, simplesmente porque nos seria intolerável existir e não lutar.

Então, não acho que praticar atenção transformará a sociedade, mas isso não é razão para deixarmos de praticá-la, nem para não nos engajarmos em ações compassivas e políticas que façam sentido para nós: no fim, morreremos todas e a sociedade se transformará sozinha.

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