Encarando o tabu

por Álvaro Costa e Silva
11 de setembro de 2015


papo

A advertência do autor, em forma de epígrafe, entrega o conteúdo: “Tudo aqui é verdade, exceto o que não invento.”  Assim é Brochadas, romance de Jacques Fux que mistura as fronteiras e as entrelinhas entre ficção e realidade.

A impotência sexual do homem – e também das mulheres – é dissecada por meio de um desfile de citações literárias e históricas, que remontam não só às origens da humanidade como também aos mistérios da criação humana.

Ao lado da erudição, caminha um humor surpreendente, de origens judaicas, capaz das melhores explicações: “Talvez após a escrita deste livro, esta catarse, esta busca enquanto escritor insatisfeito com o mundo, eu possa encontrar algumas respostas. Ou muitas outras perguntas.”

O tema ousado foi escolhido justamente para provocar polêmica: “Aqui narro a ‘Ilíada’ da brochada. O célebre e verdadeiro tabu da sociedade.” Para tanto, o narrador pode ou não ser confundido com o escritor – fica a critério do leitor.

“No fundo nem eu sei mais quais as fontes verdadeiras e quais as falsas.” É o que revela, nesta entrevista, Jacques Fux, mineiro de 37 anos que ganhou, em 2013, o Prêmio São Paulo na categoria de autor estreante, com o livro Antiterapias.

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A ideia

Entre os homens, o tema da brochada circula em algumas conversas, mas ainda é tabu. Entre amigos, sempre ouvi o assunto comentado de forma irônica. Resolvi um dia encarar o tabu, e buscar mais informações. Mas não sabia se dava para fazer um livro. Então fui atrás, sobretudo, de referências literárias sobre o tema. Nessa época eu estava nos Estados Unidos, com acesso à Biblioteca de Harvard. E me surpreendi com o material que encontrei. Concluí que, sim, escrever sobre brochadas dava um livro.

Narrativa

Apesar dos contextos literários e referenciais, que envolvem não só a questão do narrador-personagem como também a questão do leitor, optei por uma linha básica de desenvolvimento: a troca de emails de um homem com suas ex-namoradas, sempre em torno do assunto brochadas. Tanto as brochadas dele com elas como as brochadas delas com ele. É uma maneira que permite ao narrador se autoavaliar, e também se expor completamente.

Internet

Quis que a narrativa estivesse completamente dependente da internet. Porque estamos a cada dia mais viciados nela. Não à toa, nos Estados Unidos há tratamento para a pessoa se desintoxicar da internet.  Ou seja, ligar-se mais na vida como ela é. A internet é aquela velha história do mundo platônico. Você fica imaginando uma coisa, e na hora não é nada daquilo. E por isso as pessoas acabam brochando.

Citações

Um dos casos mais interessantes foi a minha descoberta do poema de Carlos Drummond, “Ontem” (“Até hoje perplexo/ Ante o que murchou/ E não eram pétalas”), que é de fato uma brochada. Uma brochada superbonita, mas brochada. Eu fui aluno, e me tornei amigo depois, do historiador Nicolau Sevcenko, e conversei com ele sobre o poema. Eu tinha certeza de que o poeta havia brochado com a esposa. Mas o Nicolau me corrigiu: “Claro que não, Jacques, ele brochou com a amante.” Só por isso escreveu um poema.

Citações falsas?

O leitor pode confiar ou não confiar em você. É uma brincadeira. No fundo nem eu sei mais quais as fontes verdadeiras e quais as falsas.

Reação de feministas

Quem fez a orelha do livro (que eu chamo de “prepúcio”) foi a Márcia Tiburi, uma voz feminina e feminista por excelência. E ela adorou o que leu. Estou tranquilo, pois minha intenção era justamente provocar polêmica.

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Autoficcção

O livro se pergunta o tempo inteiro se aquilo que estamos lendo é literatura. Você pode escrever sobre nada, mas se está bem-feito é literatura. Sempre brinco com a ideia das classificações. O conto de Borges, “O idioma analítico de John Wilkins”, classifica os animais, e mostra o quanto as rotulações podem ser ridículas. Mas, para aqueles que precisam de uma definição, digo que o meu livro é um texto literário, uma ficção, e ponto.

Humor

É o mais importante. Acho que falta humor na literatura brasileira contemporânea. Os escritores são muito sisudos. Querem fazer obras grandiosas, e consideram que o humor não serve para este fim. Acho o contrário. Fazer rir é muito mais difícil e profundo. O Philip Roth faz alta literatura, no sentido da sofisticação de linguagem e das ideias, e é, ao mesmo tempo, tremendamente engraçado.

Limitação

Tudo pode ser uma questão de limitação. Você pode ser um grande escritor e não conseguir fazer o leitor rir. Reconheço minha incapacidade para fazer um romance de mil páginas sobre um momento recordado da minha infância ou contar uma história com começo, meio e fim, tendo uma trama policial como condutora da narrativa.

Antiterapias

No Brochadas, brinquei com as mesmas questões de meu livro anterior, também escrito em primeira pessoa. E quase tudo mundo acredita que eu sou o narrador. Fazer o quê?

Prêmio São Paulo

O pessoal do Nobel já me ligou, mas desconversei, disse que ainda não estava na hora. A sério: quando você lança um livro por uma editora pequena, sem divulgação, ele acaba na mão só de seus pais, seus tios, suas ex-namoradas. Aí acontece um sonho: você é premiado. Minha alegria foi imensa. Só depois de ganhar o Prêmio São Paulo, passei a dizer que eu era um escritor. Mas continuo com 99,9% das minhas inseguranças.

Influências

Este é um tema perverso. Porque considero que a boa literatura contemporânea inverte as influências. O Alberto Mussa faz isso com Borges e até com o Corão, que é uma fonte primordial. Eu procuro fazer o mesmo com Proust e Kafka, entre outros.

Livro infantil

Já estou pensando em escrever “Os brochinhas”.

 

Álvaro Costa e Silva é jornalista.

 

 

TAGS: Brochadas, Jacques Fux, Papo de bar,

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