Einar, Lili Elbe e o romance de David Ebershoff

Leia posfácio do livro A garota Dinamarquesa
12 de janeiro de 2016


A garota Dinamarquesa

‘A garota dinamarquesa’ conta a história de Lili Elbe, que nasceu Einar Mogens Wegener e foi pioneira na realização da cirurgia de mudança de gênero. O foco do livro é no relacionamento de Einar com a esposa, a pintora Greta, e sua descoberta como mulher.

A obra serviu de inspiração para um filme que estreiará em fevereiro. O longa será protagonizado pelo vencedor do Oscar Eddie Redmayne (Einar Wegener/Lili Elbe) e Alicia Vikander (Greta).

Lançado originalmente sobre o título de The Danish Girl, em 2000 , foi o primeiro livro de David Ebershoff, um importante editor norte-americano. No Brasil, o romance foi lançado em 2002 pela Rocco e agora recebe uma nova edição.

Para a reedição, Ebershoff escreveu um belo Posfácio em que fala sobre suas motivações para contar a história de Lili e um pouco sobre o relacionamento de suas protagonistas. Confira:

POSFÁCIO

Quando a Vanity Fair liberou sua primeira foto de Caitlyn Jenner no início deste verão, eu logo pensei em outra mulher trans que também se apresentou ao mundo por meio de um retrato cerca de cem anos atrás: Lili Elbe. Em 1930, Lili viajou do ateliê parisiense que dividia com sua esposa, Gerda, até a Alemanha, para fazer uma série de cirurgias na Clínica Feminina Municipal de Dresden, a fim de completar sua transição. Enquanto esteve lá, ela gostava de sentar nas margens ensolaradas no rio Elbe, refletindo sobre seu passado, quando vivia como um homem (seu gênero à época do nascimento) chamado Einar Wegener, e sobre seu futuro, já como ela própria. (O rio viria a inspirar seu novo sobrenome.) Depois de sair da clínica, Lili tentou manter sua privacidade, mas notícias de suas cirurgias começaram a vazar na imprensa europeia, de modo que ela deu um passo ousado: contar sua própria história. Em uma série de entrevistas a um jornalista dinamarquês, Lili revelou ser uma mulher trans, descrevendo sua jornada, o papel de sua esposa nessa transição e como a arte (tratava-se de um casal de pintores) influenciara e formara sua visão de si mesma. Durante um breve período no início da década de 1930, Lili Elbe virou uma notícia internacional, reconhecida como uma das primeiras pessoas a passar por uma cirurgia de afirmação de gênero, com seu nome impresso em jornais ao redor do mundo. Atualmente, retratada por Eddie Redmayne no filme A Garota Dinamarquesa, Lili Elbe é reconhecida por muito mais gente pelo que sempre foi: uma pioneira trans.

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Há quase vinte anos, quando eu ainda era um jovem escritor, li sobre Lili pela primeira vez. Muitos elementos de sua história me impressionaram: a coragem de ser ela mesma; o fato de ter feito a transição ainda casada; os cenários que evocavam a Europa entre as duas guerras mundiais; e a importância do seu lugar na história LGBTIQ. Um detalhe em particular acendeu a minha imaginação: a esposa de Lili, Gerda, pintara vários retratos a óleo de Lili, desenhando uma bela mulher com enormes olhos negros e lábios semelhantes a dois corações. Tais retratos, iniciados logo no começo da transição, eram as primeiras imagens públicas de Lili. Mostravam Lili deitada em um divã, com os braços atrás da cabeça; Lili jogando cartas com uma das pernas em cima da cadeira; Lili olhando por cima do ombro, com olhos semicerrados, e uma expressão que pode significar muitas coisas. Os quadros de Lili se tornaram uma sensação no mundo artístico de Copenhague e Paris: os espectadores eram atraídos para os retratos de uma mulher cuja expressão tinha quase tantas interpretações quanto a da Mona Lisa. Da mesma forma, a própria Lili Elbe tem muitas interpretações. Ela pode significar muitas coisas para muitas pessoas. Em parte, é isso que torna seu legado tão rico e inspirador. E eu, quanto mais pensava em Lili, mais começava a pensar na sua vida como uma história de arte, amor e identidade.

Um artista vê aquilo que ainda não existe. Ele ou ela imagina um futuro que outros não conseguem perceber. O artista interpreta a realidade, tornando-a ainda mais vívida e duradoura. A história de Lili Elbe é uma história de arte, de criação, de imaginar o que virá a ser. É sobre artistas que interpretaram o mundo e seus próprios eus através da sua arte. Curiosamente, Lili insistia que não era uma artista, apesar da carreira bem sucedida que tinha na pintura antes de fazer a transição. Ela dizia que a arte e a pintura pertenciam a Einar (um dos seus quadros está pendurado ao meu lado no escritório, enquanto digito estas palavras; mostra um chateau francês, e está assinado por Einar Wegener.) Mas eu discordo dos seus protestos. Lili era uma artista, e sua maior criação foi ela própria. Ela imaginou uma vida futura, e fez tudo que podia para criá-la. Eu passei longas horas examinando as pinturas que Gerda fez dela. Não são retratos literais de Lili (tal como os montes de feno de Monet não são literais); são interpretações, altamente estilizadas, simbólicas, e vivamente coloridas (muitos rosas, verdes e amarelos). Ainda assim, capturam a essência e o espírito de Lili de forma mais vibrante do que qualquer fotografia que eu já tenha visto dela. O mundo conheceu Lili pela primeira vez por meio desses retratos, e foi através desses retratos que eu vim a compreender um pouco das cores, dos contornos e das sombras da sua alma.

A história de Lili Elbe é também uma história de amor. Nós articulamos e exprimimos muitas das nossas emoções por meio das nossas relações, e eu vim a acreditar que uma chave para entender Lili era por intermédio de Gerda. Com seu casamento, eles criaram uma alcova de intimidade, onde seu amor podia ser mais autêntico e mais vulnerável. Foi nesse espaço particular que Lili emergiu pela primeira vez. Eu fiquei curioso para saber como e por que Gerda aceitara Lili no casamento deles, e qual teria sido o papel de Gerda na transição de Lili. Fora tudo por amor e devoção, cuidado e proteção, ou as motivações de Gerda seriam mais complexas? Lili se tornaria a maior musa de Gerda, e algumas de suas pinturas mais célebres, que hoje valem milhares de dólares, são retratos de Lili. Com Lili, Gerda viu serem realizadas algumas de suas aspirações como artista.

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Pintura de Lilie Elbe feita por Gerda Wegener

E a história de Lili Elbe é, claramente, uma história de identidade. Lili é hoje reconhecida como um ícone do movimento trans. Sua vida, tanto a que ela viveu, quanto a que ela descreveu ao se assumir em entrevistas e em Man into Woman, a biografia parcialmente ficcional que ela ajudou a escrever antes de sua morte, ampliou a compreensão do público sobre identidade de gênero na época. Desde então ela inspirou muitos de nós, tanto trans quanto cis, a sermos nós mesmos. Lili sabia que uma vida falsa simplesmente não é vida. Quem somos nós? Quem queremos nos tornar? Como nos percebemos? Como queremos ser percebidos? Estas questões de identidade frequentemente estão no núcleo central de nossos conflitos internos. Quem consegue resolvê-las fica mais perto de estar livre. Quase um século atrás, Lili Elbe superou tais questões sobre si mesma. Ela posou para um retrato no ateliê de uma artista e disse para o mundo: – Esta sou eu.

– David Ebershoff
setembro de 2015

TAGS: A garota dinamarquesa, David Ebershoff, Einar Wegener, Filme, Gerda, Lili Elbe, mudança de sexo, trans, transsexual,

Comentários sobre "Einar, Lili Elbe e o romance de David Ebershoff"

    • Olá, Daniele.
      Você diz a os quatro pequenos parágrafos informativos sobre o livro/lançamento do filme?
      O melhor é atribuir a ‘Divulgação Editora Rocco’.
      Obrigado, boas leituras e bom TCC.

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