É história o que quereis?

por Vivian Wyler
22 de julho de 2015


tres mosqueteiros

Detalhe do pôster de “Os três mosqueteiros”, adaptação cinematográfica de Douglas Fairbanks.

No princípio havia Alexandre Dumas e Os Três Mosqueteiros. E se Machado de Assis e José de Alencar eram apaixonados por Dumas, père, por que eu seria diferente?

Os penachos e as máscaras de ferro chegaram na adolescência, antecipando os dramas intensos de Victor Hugo, bem mais intrigantes, mais sombrios, bem menos políticos, mais sociais.

No início da idade adulta, quando já havia beliscado a obra de Walter Scott , tinha sofrido com as pernas de pau dos piratas de Stevenson, e começava a me aventurar nos terrenos de Robert Graves e os imperadores romanos de Eu, Claudius – mas ainda sem o menor vislumbre de Memórias de Adriano, de Yourcenar –, alguém deu a dica: “não há nada que se compare a Os reis malditos, de Maurice Druon”. E, antes que se contestasse a informação, eu já tinha a certeza de que não havia rainha mais dominatrix do que Isabel de França, nem templário mais temível que Tiago de Molay, nem cavaleiro mais sem escrúpulos do que Robert d’Artois, inspiradores de nada menos que sete volumes de intensa saga medieval, lidos avidamente.

Eu estava na Rocco há pouco tempo e O físico, de Noah Gordon, veio parar, compradinho, em minhas mãos. Como assim, pensei, um romance histórico sobre os primórdios da medicina?

Eu estava há um pouquinho mais e um Ken Follett de boa cepa, não se sabe por que, bateu com os costados nas praias da editora.  Lançamos, rápidos, a rede. Era uma leitura moldada na mesma massa, e assada no mesmo forno de onde saíram os clássicos de minha juventude e eu a li, sôfrega, em duas noites. Dama, bispo, cavaleiro, era um jogo de xadrez em movimento frenético e se chamava Pilares da Terra e não havia dúvida alguma que, tão certeiro, só podia ter sido soprado, página a página, por gárgulas de Notre-Dame, em Paris.

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Com a série Outlander, de Diana Gabaldon, tive que vencer a resistência da viagem no tempo, para me render ao som abafado dos kilts e aos estalos secos das espadas.

Com Os rios turvos, de Luzilá Gonçalves Ferreira, pude constatar que essa colônia chamada Brasil tem paixões de sobra para alimentar épicos em série.

Por que lembro de tudo isso agora? Para explicar que, quando vi o primeiro resumo de Kingmaker, de Toby Clements, na Feira de Frankfurt, não hesitei: saí correndo para descobrir onde estavam o autor, o manuscrito e o agente.

Pode, isso, tudo junto? Frade, freira e a Guerra das Rosas? Uma mistura alquímica de todo o mistério que salpicou O nome da rosa, mais os desafios entre classes de Follett, mais os entrechos retorcidos de Guerra dos Tronos, mais o que pode ser considerada uma “prequel” dos Tudor?

Kingmaker_post Vivian_capaEntre os livros da juventude e os acertos de uma linha de romances históricos, na Rocco, que nada fica a dever às editoras de ponta, similares, no exterior, o leitor brasileiro se acostumou a ver séries bem-sucedidas na televisão e a nacionalizar a tradição onde se banharam sucessos cavaleirescos como As Brumas de Avalon.

É por isso que chegamos, confiantes, ao lançamento de Kingmaker, este livro que sustenta comparações honrosas com Hilary Mantel e Bernard Cornwell, ao mesmo tempo.

Você, leitor, está maduro para essa Jornada no Inverno. Vem se preparando, estação a estação, para consagrar um gênero que movimenta um mercado poderoso, mundo afora.

E nós, ah, nós, leitor, nós estamos prontos para a nossa Sagração de Primavera: a alegria de ver a boa semeadura se transformando em saborosos frutos.

 

Vivian Wyler

Editora, passou a adolescência chorando com Quo Vadis, de Sienkienwcz e O último moicano, de Cooper, e só descobriu Mary Renault e Gore Vidal aos 30 anos, quando os traiu, sem vergonha, com Os demônios de Loudun, de Aldous Huxley.

TAGS: Ficção, História, Ken Follett, Kingmaker, Noah Gordon, O físico, Os Pilares da Terra, Romance histórico, Toby Clements, Uma jornada no inverno,

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