E-book: uma porta para a leitura inclusiva

Deficientes visuais, Tamara e Isabela encontraram no formato autonomia para ler
2 de fevereiro de 2018


Tamara Padilha e Isabela Rocha são deficientes visuais e escrevem resenhas de livros para o blog Galáxia de ideias. Em dois depoimentos emocionantes elas nos contaram como o e-book revolucionou a relação delas com a literatura. Confira abaixo:

“Ao falar em e-books também rememoro a minha história literária, pois esse formato foi um grande marco que a mudou completamente. Bem, a leitura sempre foi algo enraizado no que eu sou. Desde os quatro/cinco anos de idade já existia em mim toda essa paixão por histórias, e sempre amei livros e era fascinada por tocar suas páginas, sentir sua textura, sentir o cheiro do papel… Mas, eles não me permitiam autonomia na leitura, obviamente, uma vez que minha deficiência visual é de nascença, e caso eu quisesse ler algo, precisava que alguém o fizesse para mim…  Mais tarde, quando fui alfabetizada no braille, imediatamente me vi com possibilidades de ler sozinha aquilo que eu desejava, ainda que fosse de maneira limitada, visto que o acervo desse formato é muito pequeno. Alguns anos depois, encontrei os audiobooks, outra possibilidade que me abriu diversas portas, pois me permitia ler um pouco mais, e me trazia algumas dezenas de títulos para acrescentar à minha coleção.

Mas, sinto que a minha vida literária é dividida entre antes e depois dos e-books. Conheci esse formato há mais ou menos uns cinco anos. A princípio, fiquei extasiada em poder ter acesso há alguns exemplares. Conforme esse formato cresceu, com ele aumentou meu êxtase, minhas possibilidades se tornaram infinitas, e a partir daí eu finalmente senti que era realmente incluída nesse mundo dos livros. Sim, pois acredito que o maior significado de inclusão não é existir algo que seja feito exclusivo para uma pessoa com deficiência, e sim algo que todas as pessoas possam usar, e que eu também possa fazê-lo, com plena autonomia.

E-book, para mim,  significa independência, visto que através dele sou permitida viajar, ser, estar, tudo sem precisar de qualquer outra pessoa. Os e-books me abriram todas as portas, e a cada vez que descubro mais uma editora adotando esse formato, em pesquisas recentes ainda é possível perceber que nem todas adotam, me vejo mais uma vez com o mesmo encantamento intenso e arrebatador, pois através dos e-books consigo viajar para dentro de qualquer história, conhecer qualquer personagem,  descobrir qualquer escrita. Os e-books me permitem liberdade de comprar na plataforma que eu achar mais acessível, me permitem ler em conjunto com amigos que não possuam a deficiência visual, e me permitem simplesmente ser eu leitora, ser eu, uma viciada em livros sem que haja qualquer restrição, ser eu uma fanática por histórias que pode ver, ouvir e amar cada enredo, tudo através de um livro digital.”

Tamara Padilha, 21 anos, resenhista literária no blog Galáxia de ideias e estudante de direito.

 

“Sempre digo que eu já nasci apaixonada por histórias. Desde aquelas contadas pelos pais, avós e familiares, lá nos meus primeiros anos de idade, até as que eu mesma criava aqui dentro de mim. Quando mais crescidinha, lá pelos oito ou nove anos, eu descobri que também carregava uma paixão pelos livros. A arte de adentrar um universo diferente por algumas horas me era tentadora demais. Confesso que, nesta época, com toda a simplicidade de uma criança, eu jamais encarei a deficiência visual como um empecilho para estes meus hábitos literários. Já conhecia os livros em Braille, claro, apesar de não dispor de muitos títulos e grandes obras. Minha hora favorita na escola era aquela em que a professora sentava e dizia “vem, vou ler mais um capítulo para você”. Era puro deleite. Não tinha do que reclamar.

Então veio a pré-adolescência e, com ela, a fase em que ousamos questionar tudo e todos a nossa volta. Foram dias difíceis para a paixão literária que pulsava dentro de mim. Observava minhas primas, por exemplo, em viagens ou almoços de família, sempre tão compenetradas em exemplares de Harry Potter, romances do Nicholas Sparks etc, e me ressentia do modo como aquele universo diferente que eu tanto adorava adentrar vivia à um palmo de distância das outras pessoas, mas não de mim. A ausência de grandes obras e a baixa quantidade de títulos em Braille de que eu dispunha em minha cidade começaram a pesar. Importante ressaltar aqui que, já durante esta época, existiam os audiolivros e ebooks. Eu apenas ainda não os conhecia, talvez devido ao pouco contato que mantinha com as novas tecnologias até então.

Foi por volta dos quinze anos de idade que realizei a leitura do meu primeiro ebook, sendo ela do clássico Vidas Secas, escolhido para a produção de um trabalho da escola. Depois disto, nada mais segurou esta minha paixão literária. Ela criou asas, alçou voo e segue voando, cada vez mais alto. Mais viva. Não há como descrever o tamanho da minha alegria quando eu pude, finalmente, conferir os famosos exemplares de Harry Potter e dos romances do Nicholas Sparks, ou quando eu revisitei, por meio dos ebooks, livros que lá na infância eu só pude ouvir na voz e entonação de outra pessoa, mas que agora estavam ali, à um palmo de distância, como eu tanto desejava. Podendo ser ouvidos por mim e mais ninguém, no silêncio do meu quarto, criando imaginações e percepções em minha mente com as quais eu jamais ousara sonhar. Alguns exemplos foram Na Rota do Perigo – Série Vagalume – e o clássico Ilha Perdida. Conheci autores e, de repente, milhares de títulos estavam ao meu alcance. Foi uma sensação indescritível. Até hoje, quando converso de igual para igual com qualquer pessoa a respeito de um dos meus assuntos favoritos, livros, sinto um calorzinho no coração por saber que tenho esta oportunidade. Os e-books me proporcionaram esta oportunidade. Sentir os aromas e sabores, ouvir os sons, tatear texturas desconhecidas, morrer de amor ou raiva de um personagem, viajar o mundo inteirinho e conhecê-lo com detalhes. Tudo isto sentadinha aqui, na minha cama ou em qualquer lugar que eu esteja, desde que meu celular ou notebook estejam por perto. Graças aos e-books, agora eu também vivo compenetrada em uma leitura, diariamente. Aprendo com as histórias criadas e sigo constantemente imersa em emoções de todo tipo. Sinto que vocês, e-books, são o combustível que alimentam esta minha paixão literária e a chave que me permitiu realizar o sonho de leitora assídua. Obrigada.”

Isabela Rocha, 20 anos, resenhista literária Blog Galáxia de ideias e estudante de jornalismo

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Comentários sobre "E-book: uma porta para a leitura inclusiva"

  1. Preciso deixar meu comentário aqui só pra dizer o quanto admiro a Tamara. “Conheço” ela há quase um ano e é uma pessoa que espero levar para o resto da vida no coração. Mesmo nos conhecendo apenas virtualmente, dá pra sentir a mulher forte e vibrante que ela é.
    Amei o post e a Rocco está de parabéns!

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