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Frei Betto e Claudia Nina se encontram na Casa Rocco
1 de maio de 2014


Flip Frei Betto e Claudia Nina

Prepare-se para o debate entre Frei Betto e Claudia Nina sobre a construção de identidades

Frei Betto: Ao escrever um romance, somos todos personagens em busca de um autor talentoso. Do alto de nossa onipotência, criamos homens e mulheres, animais e robôs, na esperança de que a qualidade literária conceda a eles vida própria e plena sintonia com o fio narrativo.

A identidade dos personagens é criada a partir da subjetividade do autor e de seu domínio da arte literária. Não há receita.

Acontece de o personagem conquistar de tal modo o público que ele passa a ser mais real do que o autor: é o caso de Sherlock Holmes, que Conan Doyle “matou” em 1890 em O signo dos quatro e se viu obrigado a “ressuscitá-lo” em 1894 em Memórias de Sherlock Holmes.

Como diz um personagem de uma novela de Cervantes, “Já poderei ser patriarca, pontífice ou estudante, imperador ou monarca, pois o ofício de farsante, todos os estados abarca.” Julgo que não existe perda de identidade de personagem. Em meu romance Aldeia do silêncio o protagonista sequer tem nome. No entanto, a aparente falta de identidade é o que o identifica.

Claudia Nina: Neste caso específico e, acredito, em muitos outros casos da literatura contemporânea, a construção da identidade da personagem se faz pela sua desconstrução, como um quebra-cabeça ao contrário. Em vez de montar, desmonta-se.

Passo a passo, o leitor acompanha, não o erguimento, mas sim a sua erosão. Até o nome, que seria uma das peças deste jogo, por exemplo, é um desenho que se coloca e depois rapidamente se perde – lembrando que ninguém na Holanda pronunciara o nome dela a não ser Peter. O namorado, aquele que envolveria o nome em afeto, não o faz. O rosto é a mesma coisa: trata-se de uma peça-chave, a principal, que sai do jogo, pois Helena não se reconhece nos espelhos, e só reaparece no final, mas aí o restante das peças ninguém mais encontra… Nunca todas as partes que se juntariam para criar a identidade de Helena, especialmente o nome e o rosto, estão ao mesmo tempo presentes na trama. E o corpo? Ameaça se diluir na chuva e na neve… Ela também não tem dinheiro, o que poderia bancar a construção de um EU mais coeso pelo menos do ponto de vista material. Mas não. Helena também perde a capacidade de se erguer deste modo.

Acho que este recurso é uma estratégia literária de fazer com que o leitor se identifique com a perda, em um processo, talvez, de compaixão, o mesmo sentimento que Helena pede (clama?) a Ernest.

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