Decifrando a História a partir de múltiplas histórias

por Bernardo Ajzenberg
14 de setembro de 2017


Gostar de Ostras nasceu de uma vontade antiga de realizar várias misturas entre elementos opostos, díspares, radicais, em forma de ficção. Mistura de personagens com idades e experiências muito diferentes, mistura de histórias distintas entre países, mistura de culturas, hábitos e gostos. A mistura de todos esses –e outros— elementos funciona, assim espero, como um caldo a partir do qual extraí uma história, um sentido.

O desafio, obviamente, era criar um enredo capaz de abrigar tudo isso com a devida verossimilhança e que pudesse comportar aspectos que sempre me fascinaram: o peso da História, com “H” maiúsculo, na vida cotidiana e na formação psíquica das pessoas; o entrelaçamento entre as chamadas grandes questões e as tramas “menores” do nosso dia a dia.

Tive a oportunidade de estar na França em diferentes momentos nos últimos três anos, desde o final de 2014, e isso me permitiu desenvolver, nesse período, muitas pesquisas e leituras que tornaram possível, na verdade me levaram à criação do casal Durcan, formado por dois octogenários franceses bastante complexos, cheios de histórias e de História, a começar pela vivência da Segunda Guerra Mundial in loco, se posso dizer assim.

Ao mesmo tempo, eu queria fazer uma espécie de fusão entre esse elemento estrangeiro e o momento que o Brasil viveu entre 2009 e 2014, com destaque para as grandes manifestações de 2013, que, a meu ver, marcaram a História recente do país, ao mesmo tempo que sua análise e interpretação constituem um enigma a ser ainda decifrado por historiadores, sociólogos, cientistas políticos… e escritores.

Como a ficção, do meu ponto de vista, não tem como objetivo dar respostas ou explicações, mas, principalmente, suscitar interrogações, provocar, perturbar, o protagonista brasileiro do livro, um jovem paulistano trintão chamado Jorge Blikstein, tenta aos trancos e barrancos se encaixar nesse momento em meio a uma crise pessoal profunda –e essa é a complexidade que ele também carrega, embora diferente da dos Durcan.

O encontro entre os Durcan e Jorge me possibilitou, assim, explorar vários temas: o impacto dos acontecimentos históricos na vida pessoal, a morte, a amizade, o sexo e sua onipresença direta ou indireta nas diferentes idades, a dor e a resiliência –isso tudo centrado no cenário de uma São Paulo agitada, viva, cheia de promessas ou expectativas (especialmente para um jovem e para um casal de estrangeiros), mas inevitavelmente submersa, quando não responsável, pelas dificuldades e contrastes que caracterizam o nosso país.

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