De repente, uma batida na porta

Atração da Flip, Etgar Keret apresenta seu primeiro livro no Brasil
7 de julho de 2014


“Uma história ou uma bala na cabeça”, ameaça um homem barbudo a um escritor no sufocante e úmido Oriente Médio. Sua exigência é clara: uma história curta, que não despeje, como um caminhão de lixo, realidade pura sobre pessoas que enfrentam dias difíceis e que têm fome de algo mais.

A ordem proferida por um dos personagens do lançamento De repente, uma batida na porta é prontamente atendida por Etgar Keret, contador de histórias nato celebrado como grande renovador da literatura israelense neste início de século. Publicado em 34 idiomas, Keret lança na Festa Internacional de Paraty seu primeiro livro no Brasil.

Cineasta e também autor de quadrinhos, Keret tornou-se um escritor de renome mundial com seus contos bem-humorados e não usuais, que se aproximam frequentemente do fantástico e do nonsense. Confira abaixo a carta ao leitor (também não usual) feita por Keret para De repente, uma batida na porta, livro de contos que chega às livrarias no próximo dia 14.

 

Ao leitor,

“Escritores gostam de comparar seus livros a filhos, mas devo admitir que nunca entendi muito bem essa comparação. É verdade que você pode dedicar toda sua paixão e entusiasmo a uma história, como faria com um filho, mas no momento em que ela entra no mundo você não precisa mais se preocupar com ela. É verdade, as pessoas podem não gostar ou mesmo desdenhar dela, e você pode se ver sentindo-se ofendido por isso, mas, ao contrário de uma criança, uma história nunca vai se ofender ou chorar ou responder ao insulto. E não importa quão dura seja a reprimenda, a história se manterá íntegra e intocada dentro de seu novo livro. Com um filho, é um pouco mais complicado.

Uma história nunca vai correr no meio de uma rua movimentada ou tentar engolir uma pilha. Tampouco fará amizade com os colegas errados ou fumará um cigarro nos fundos da escola. E o mais importante de tudo, uma história, mesmo que de fato te surpreenda, nunca será respondona e sempre vai ouvir o que você diz. É por isso que, como pai de 200 contos e uma criança de oito anos, devo admitir que ser o pai de uma criança é muito mais complicado.

De todos os meus livros de contos, De repente, uma batida na porta é o mais próximo de meu coração. Porque é o primeiro, e, por enquanto, o único livro que escrevi como um pai. A paternidade é provavelmente a mais incrível e complexa experiência que já tive. Ela preenche cada manhã com medo e esperança, e acrescenta dúzias de pequenas mas comoventes vitórias e derrotas no campo de batalha da vida. Mais ainda, o papel de pai, se você respeitá-lo de fato, o força a olhar como se pela primeira vez para si mesmo e suas ações, de um ponto de vista novo, espantado e ligeiramente mais estreito, e a explicar a você e a seu filho este mundo confuso e o porquê de você fazer todas as coisas esquisitas que você faz nele. A maioria dos contos neste livro não está diretamente ligada à paternidade, mas foram todos escritos pelo pai de uma criança curiosa e amada, e por detrás deles está a tentativa de explicar ao meu filho, não menos do que a mim mesmo, por que é difícil ser uma pessoa, e por que, diabos, ainda assim o esforço vale a pena.”

Leia também: Um passeio pela ficção concisa e fértil de Etgar Keret 

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Comentários sobre "De repente, uma batida na porta"

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