De multiartistas e zumbis transmídia:

Os caminhos de "A menina que tinha dons"
15 de dezembro de 2014


por João Eduardo Veiga

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Ilustração de “A menina que tinha dons”, por Ian Dodds.

Muito além de mero reservatório de super-heróis para Hollywood, os quadrinhos são uma fonte de ideias e talentos compartilhada por todas as mídias. Quem acaba de realizar esse intercâmbio de linguagens é M.R. Carey, inglês que lança o romance A menina que tinha dons após anos de experiência nas HQs (onde assina como Mike Carey). Ao mesmo tempo que soube manter o bom nível das tramas estreladas pelos popularíssimos X-Men e Quarteto Fantástico, ele fez escola no selo Vertigo como um dos mais prolíficos autores da cultuada Hellblazer. Agora, em sua distopia literária, alcança a façanha de resgatar a credibilidade das histórias de zumbis, subgênero que demonstrava graves sinais de exaustão em qualquer que fosse o formato.

Carey traça um caminho pavimentado por nomes como Neil Gaiman, que, leitor de Tolkien e Carroll, criou The Sandman, uma das primeiras graphic novels a entrar para a lista de best-sellers do The New York Times. Depois, sem jamais abandonar as HQs, Gaiman engrenou uma bem-sucedida carreira na literatura fantástica (da qual fazem parte títulos como CoralineBelas maldições e Deuses americanos) e é responsável por algumas das maiores filas para autógrafos de que se tem registro. Recentemente chegou a fazer uma participação especial em Os Simpsons, o mais cobiçado certificado de prestígio no mundo pop.

As ambições (e o potencial) de M.R. Carey não ficam aquém. Se Gaiman já escreveu episódios da série britânica Doctor Who e adaptou para a tela grande o poema medieval Beowulf, Carey redigiu o roteiro cinematográfico de A menina que tinha dons enquanto ainda trabalhava no livro. É possível até que ele se aventure a sentar na cadeira de diretor, como já aconteceu com seu colega de labuta Frank Miller. Quadrinista de Sin City (e do clássico Batman: O cavaleiro das trevas), Miller dividiu com o cineasta Robert Rodriguez o comando do set de filmagens das duas produções (de 2005 e 2014) baseadas em seus comics carregados nas tintas noir.

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Os autores multiartistas M.R. Carey e Neil Gaiman.

Há quem tenha seguido a rota inversa. Sensação em 1994 com a comédia ultraindependente O balconista, financiada no cartão de crédito e premiada em Cannes, Kevin Smith foi contratado  pela Marvel e, nos anos 2000, assumiu o argumento das peripécias do Demolidor. E certas vezes nem mesmo existe uma rota visível. Clive Barker, por exemplo, modernizou o horror gótico alternando investidas nos quadrinhos, na literatura e no cinema com tanta naturalidade que torna impossível classificá-lo. Seu currículo inclui 16 longas-metragens (cinco como diretor, entre eles o famoso Hellraiser), 15 romances e quatro séries de HQs. Como se não bastasse, Barker também se envolveu com videogames.

Essas trajetórias não estão restritas aos criadores, claro. Suas criaturas também têm livre circulação entre livros, filmes, quadrinhos e games. Os zumbis são um caso emblemático, moldando-se ao longo dos anos pelo fluxo entre diversas artes. Começou na literatura: em um sentido amplo, os próprios Frankenstein (1818), de Mary Shelley, e Drácula (1897), de Bram Stoker, tratavam, cada um a seu modo, de mortos-vivos. O termo “zumbi”, no entanto,  só foi associado ao significado em 1929, em A ilha da magia, do jornalista William Seabrook, relato sobre o Haiti que trazia à tona curiosos casos de cadáveres ambulantes dominados por feiticeiros vodu. (O autor, vale dizer, tinha uma afinidade extra com o tema: afirmava ter experimentado carne humana – assada, com arroz.)

No início dos anos 30, auge dos monstros no cinema, Hollywood foi buscar nos textos de Seabrook inspiração para provocar novos sustos na plateia. O baratíssimo Zumbi branco, com Bela Lugosi no elenco, fez sucesso à época, mas é hoje mais lembrado por ter emprestado o nome a uma banda de heavy metal. A qualidade das películas subiu imensamente com a estreia de A morta-viva, uma das célebres produções de Val Lewton para a RKO na década de 40, mesmo período em que os zumbis estrearam nos quadrinhos – pelos gibis da DC Comics, onde foram combatidos pelo Lanterna Verde. Os estúdios Hammer chegaram a transportá-los até a Inglaterra vitoriana (Epidemia de zumbis, de 1966), mas a magia negra continuava na raiz de todo o mal.

Um livro publicado em 1954 foi o precursor do hoje tão difundido cenário de “apocalipse zumbi”. Eu sou a lenda, de Richard Matheson, descrevia as angústias de um homem solitário obrigado a combater hordas de estranhos vampiros em um mundo arrasado por um vírus. Essa história chegou a ser vivida nas telas por atores como Vincent Price, Charlton Heston e até Will Smith, porém seu principal legado foi impressionar um jovem George A. Romero. O filme A noite dos mortos-vivos (1968), de Romero, com comentários sociais transbordando pelas entrelinhas, apresentou ao público os devoradores de humanos que saíram das tumbas diretamente para o hall da fama do terror.

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A série televisiva “The Walking Dead”.

Habitando território cult durante algumas décadas, os zumbis adentraram com força total o terceiro milênio por um percurso transmídia ao extremo. Após retornarem ao mainstream com um game (Resident evil), reconquistaram o cinema, invadiram as livrarias (nem mesmo Jane Austen esteve a salvo) e só foram poupados da superexposição e da banalização completa graças a uma revista em quadrinhos que serviu de inspiração para uma das séries televisivas mais comentadas da atualidade (The walking dead).

O curioso é que a palavra “zumbi” quase não é utilizada internamente nessas narrativas. Em A noite de mortos-vivos fala-se em ghouls, remetendo a figuras demoníacas que rondavam cemitérios na mitologia árabe, e em The walking dead os mortos que matam são chamados de walkers, “andantes”. Em A menina que tinha dons, por sua vez, as ferozes carcaças controladas por um fungo misterioso têm a alcunha de “famintos”. Esse, entretanto, é apenas um detalhe, o gatilho para algo maior.

A obra de M.R. Carey é ficção científica da melhor estirpe, com foco nos personagens (a alternância de pontos de vista é um dos destaques da prosa) e mais interessada em levantar questionamentos sobre os (des)caminhos da humanidade que na ação ininterrupta. Tem, na essência, um pouco de Pinóquio, de O senhor das moscas e de O planeta dos macacos, mas Carey tece todas as referências com eficácia, propriedade e ritmo. E, de certo modo, volta à pré-história dos mortos-vivos para dialogar com o seminal Eu sou a lenda e suas reflexões sobre os conceitos de normalidade e alteridade. É, em mais de um sentido (e aqui há um spoiler cifrado), um novo começo para os zumbis.

Leia também:
 Trilogia da Escuridão: um resgate à tradição do horror nas histórias de vampiro, por Alexandre Sayd.

João Eduardo Veiga é jornalista.

TAGS: A menina que tinha dons, distopia, Doctor Who, Fábrica231, M. R. Carey, Neil Gaiman, Resident Evil, The Walking Dead, Transmídia, zumbis,

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