De janelas, editores e Bienal

por Larissa Helena
16 de setembro de 2015


A Christina Schäffner tem uma frase sobre o trabalho do tradutor que é dita e repetida o tempo todo — de que ele deve ser uma janela perfeitamente transparente para que o leitor possa enxergar com o mínimo de obstáculo possível o que ficou do outro lado dessa barreira linguística. A metáfora é bonita, mas, na transparência do bom trabalho, vem também uma contra a qual é preciso lutar, um problema do crédito adequado, que os tradutores vêm reivindicando há tempos. É claro, a gente tende a pensar sempre primeiro no rei como o idealizador do Convento de Mafra, e precisa de um Saramago pra lembrar do monte de gente que suou e deu o sangue para colocar aquele colosso de pé.

janela

Não posso nem esboçar tentativas de dar uma de Saramago, mas queria convidar vocês a voltar às janelas para uma breve reflexão. Porque o editor é o cara que vê a possibilidade da janela. Ele pensa: uhm, eu queria que mais gente visse essa coisa incrível do outro lado. E aí ele briga para colocar a janela. Ele chama o vidraceiro, acompanha a colocação, pensa no melhor formato, no melhor tamanho, no melhor lugar. Às vezes encomenda e coordena a montagem, a partir do nada, de verdadeiros vitrais — penso em equivalentes literários das rosáceas das grandes catedrais. E aí ele lustra o vidro. À exaustão. Olhando cada centímetro pra ver se sobrou sujeira, se está de uma cor onde era melhor ser de outra ou transparente, e move mundos e fundos para acertar. E então se pega matutando: tem coisa boa pra olhar lá e a janela está perfeita agora, mas sem moldura ninguém vai reparar nela — e dá-lhe processo de capa (metal não combina, é uma janela clássica!; madeira não vai passar a impressão de ficção científica!), e depois disso tudo, acaba que é também o cara que simplesmente vai pra rua e grita: Olhem! Venham cá ver! Tem coisa incrível aqui!

A Bienal, pra muitos de nós, foi isso: ficar ali no estande, inflados de orgulho de ver nossos filhotes — nossas janelinhas — prontos enfim, dizendo pra quem quisesse saber: este é maravilhoso, compra esse, leva este! O quê, você curte distopia/fantasia/romance? Tenho o livro perfeito para você. O nome disso é amor.

livros

Acabou a Bienal. Vocês foram lá nos ouvir falar apaixonadamente das nossas janelinhas, as levaram para casa, passarão momentos incríveis espiando lá dentro e, se o vidro estiver no ponto em que queríamos, ele nem existe e vocês mergulham onde um dia estivemos, quando primeiro vislumbramos que uma janela seria uma boa ideia. Divirtam-se. Obrigada.

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