Das páginas para as telas: sobre livros e suas adaptações

por André Gordirro
18 de junho de 2015


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Agora que o quinto ano de Game of Thrones acabou, após uma celeuma danada que envolveu o cardápio de sempre da série — estupros e mortes, como se isso fosse alguma surpresa para os espectadores —, fica a certeza de que, mesmo tendo sido a temporada mais fraca, os produtores extraíram leite de pedra: os livros quatro e cinco de Guerra dos Tronos são chatíssimos, testam a paciência do leitor ao limite e renderam apenas uma adaptação entediante com alguns momentos de brilho. A versão televisiva saiu no lucro, vamos combinar.

Essa é a questão com qualquer adaptação: é outra versão da mesma história, geralmente feita por pessoas diferentes (é raro o caso de um autor que adapte a própria obra para outro meio). Game of Thrones teoricamente conta com o envolvimento e aval do próprio G. R. R. Martin, mas a série é mesmo fruto do enxuga-ali-corta-aqui dos produtores David Benioff e D. B. Weiss. Com a vantagem de enxergar a obra como um todo e a desvantagem de ter um tempo finito para (re)contá-la, eles precisam descobrir atalhos e soluções para ir além de um mero resumo ou texto filmado, pensando que as ferramentas de linguagem à disposição são diferentes das de Martin. O autor encara a diferença da série de TV e seus livros numa boa, mais até do que os fãs: em uma convenção, ele citou que a maioria das pessoas conhece detalhes de …E o Vento Levou pelo clássico do cinema de 1939, detalhes esses bem diferentes do livro homônimo publicado três anos antes. A história da mimada Scarlett O’Hara é basicamente a mesma, o que muda são os enfeites — o mesmo vale para Game of Thrones/ Guerra dos Tronos.

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Curiosamente, Guerra dos Tronos começou como uma versão velada de Duna. A trama é basicamente a mesma: líder íntegro de uma família tradicional (Ned Stark/Duke Leto) recebe um missão que não queria (virar Mão do Rei/administrar o feudo de Arrakis) e termina morto pelas maquinações de uma família rival (Lannister/Harkonnen), deixando um filho (Jon Snow/Paul Atreides) que se isola em um ermo implacável (a neve da Muralha/o deserto de Duna) e vira líder de guerreiros rústicos (Patrulha da Noite/Fremen). E Duna também encarou não uma, mas duas adaptações, infelizmente polêmicas e frustrantes. A televisiva de 2000 é tão ruim que ficou no esquecimento, até porque todos se lembram mesmo da fracassada versão de cinema, lançada em 1984 por David Lynch. Entre as várias concessões e invenções para fazer a complicada trama funcionar e driblar as limitações de orçamento e efeitos da época, uma se destaca: a criação de uma “arma sônica” que jamais esteve presente nas páginas do livro, apenas para evitar que o filme descambasse para uma gigantesca batalha de exércitos trocando golpes de kung-fu espacial.

Mudanças desse tipo irritam fãs, que querem ver na tela tudo que gostaram de ler no papel. Quem não lamenta a ausência do quadribol na versão para cinema de Harry Potter e a Ordem da Fênix — justamente o ano em que Ron Weasley brilha no time? Sem o esporte na tela, perdeu-se mais motivo para odiar Dolores Umbridge, que proíbe a prática de quadribol em Hogwarts. Porém, em um filme com 2h18 min, alguma coisa tinha que ficar pelo caminho, e o quadribol era um detalhe da história, mas não “a” história. As vassouras ficaram no armário dessa vez.

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O assunto poderia se estender por páginas e páginas do blog — ou por horas de discussão ao vivo. Quem quiser debatê-lo, pode conferir o painel “Multiversos — A relação entre os universos dos quadrinhos e livros, e suas adaptações para cinema e TV”, do qual eu participo ao lado de Lipe Diaz, Fernando Caruso e Eduardo Miranda no próximo domingo (21), às 15h30, na ExpoGeek, evento que ocorre no Centro de Convenções Sulamérica, no Rio. Game of Thrones, Harry Potter, Watchmen, Vingadores, Duna e muito mais vão estar na pauta. Se estiver na capital fluminense, não deixe de conferir. Quem aparecer poderá participar de um sorteio na hora dos livros Alif, o Invisível e Doctor Who, do selo Fantástica Rocco.

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André Gordirro é jornalista, crítico de cinema, tradutor e especialista no (mas não limitado ao) universo nerd. Em 2015, André publica seu primeiro livro pelo nosso selo Fábrica231, Os portões do inferno.

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Comentários sobre "Das páginas para as telas: sobre livros e suas adaptações"

  1. Pegou pesado com o 4º e o 5º livros, tem partes chatas mas, no geral, ainda são bons. E a história do Griff e dos homens de ferro é parte da história, sim, e personagens como Stannis e Sansa foram fundamentalmente alterados pra pior.

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