Das brincadeiras de infância ao divã psicanalítico

por Carlos Eduardo Leal
13 de outubro de 2014


amarelinha_cortadaNasci na roça. Dizem que quem nasceu em meio à natureza, aos bichos, riachos e entre vacas, cavalos e noites estreladas, tem um pé um pouco fora deste mundo. Pois a verdade é que sempre olhei para o mundo que estava além deste mundo. Explico. O que acontece é que além de nascer no sítio do meu avô paterno, tive a sorte de ter uma bisavó que todas as noites contava histórias para a gente dormir. Minhas histórias possuem muito destas primeiras histórias infantis.

O Ceu da Amarelinha_capa para blogEm O céu da Amarelinha, a Lívia inventa histórias para seu pai que está inconsciente na cama. Algo do tipo: Fale com ela do Almodóvar. Ela sempre soube que seu pai escutava e se encantava com suas histórias. E, ao escrever este livro, lembrei muito das histórias que minha bisavó contava. E, claro, entre muitas outras brincadeiras, a Amarelinha era uma das brincadeiras no sítio encantado do meu vô. Então, me considero um contador de histórias não pela tradição oral, mas pela escrita.

Com o passar do tempo, o psicanalista se fez. E, com ele, continuei ouvindo histórias, muitas histórias: dramas pessoais, tragédias familiares, insucessos ou glórias na vida. Como diz Freud, Romance Familiar dos Neuróticos.  Escrevi O nó górdio (um nó que não se desfaz), meu primeiro romance, no qual tratava da relação ‘górdia’ entre uma filha e sua mãe. A última palavra, segundo romance e primeiro pela Rocco, tratava da doída separação de um casal de escritores. É um livro epistolar. Escrevi um terceiro, Exodus (estou na verdade reescrevendo), no qual o tema é o amor incestuoso entre dois irmãos gêmeos (Til, o louco, e Tatiana). E, finalmente, O céu da Amarelinha, no qual trato da delicada relação de amor entre uma menina e seu pai. Todos com uma temática psicanalítica. Não premeditei, mas quando percebi aí estavam as novelas familiares.

Aos poucos fui saindo devagarzinho de dentro das matas, de dentro de mim. E quanto mais me exteriorizava, mais eu sentia falta daquele menino encantado com as antigas histórias. Era preciso resgatá-lo antes que sumisse de vez. Assim, com os olhos ainda úmidos do orvalho das noites fantasísticas, fui sendo trans-bordado com o fino tecido das histórias reais ao pé do ouvido. Agora, como analista, tinha um dever ético ao escutá-las, mas guardava e ainda guardo em mim o mesmo fascínio de escutar o indizível das noites inventadas entre o ontem e o amanhã. Mas tudo parecia se esvair. Era preciso escrever e reescrever estas histórias que se misturavam na alma.

Então, descobri que quem falava em mim era um híbrido entre o menino da roça e o analista no qual me formei, ou seja, minhas histórias possuem muito do atavismo avoengo com os relatos de meus pacientes. Porém, tudo é ficção. E, por acaso, a vida também não o é?

Carlos Eduardo Leal é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica (PUC-RJ), professor universitário e artista plástico. Em outubro lança sua segunda obra pela Rocco, O céu da Amarelinha.

 

TAGS: Carlos Eduardo Leal, O céu da amarelinha, psicanálise,

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