Correspondências: Vocês precisam conhecer o Cristiano

Por: Flávio Izhaki
29 de fevereiro de 2016


abaixodoparaiso

Parte da crítica literária brasileira sussurra, de quando em quando, que a literatura nacional contemporânea circula demais pelo próprio umbigo, seja na autoficção ou em livros sobre escritores, em geral com romances urbanos no eixo Rio-SP-Porto Alegre. Cobram, de certa maneira, que os escritores sejam também seres políticos quando fazem literatura. Justa ou não a reclamação (e não vou entrar no mérito aqui), essa parte da crítica vai adorar conhecer Abaixo do Paraíso, sexto livro de André de Leones.

O romance é centrado num tarefeiro, um faz-tudo do governador de Goiás que se movimenta pelo submundo de quartos de hotéis baratos, pequenas negociatas, transações e favores. Um subalterno, um encarregado que se descama aos olhos do leitor, que vai deixando sua pele pelas páginas, desencontrando-se aos esbarrões, errando de cidade em cidade, de mulher em mulher, de abandono em abandono, mas sabendo onde deve chegar.

O livro começa em Goiânia, entra por Anápolis, Brasília até alcançar Silvânia. Um Brasil que o Brasil da literatura pouco conhece. Mas escrever isso é diminuir o autor e o livro. Abaixo do paraíso é um grande romance não pela temática, mas pelo arcabouço psicológico que o autor consegue transmutar para o tarefeiro Cristiano. Vocês precisam conhecer o Cristiano…

Em seu sexto livro, o autor remonta a tríade que melhor descreve suas fixações: casa, sexo e morte. De certa maneira, a temática esteve presente em todos os seus livros, mas em Abaixo do Paraíso, respira-se isso, como foi o caso em seus dois primeiros livros, Hoje está um dia morto, que lançou De Leones como vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria romance, e Paz na Terra entre os monstros, única coletânea de contos do autor.

Como desaparecer completamente, Dentes negros e Terra de casas vazias mostram um caminho de depuração do escritor, testando temas, personagens, estruturas narrativas fragmentadas, espaços e vozes. Neste Abaixo do Paraíso, lemos um autor ainda mais consciente do peso que cada palavra adquire no papel, que organiza sua narrativa de maneira retilínea, mas não plana. De Leones é capaz de desconstruir uma ação pela sua narrativa, alternado focos, perspectivas e até a velocidade do que é narrado. Um autor que chega pronto ao sexto livro. Um autor que precisa ser lido.

Flávio Izhaki é escritor e tradutor.

Leia a resposta a essa correspondência aqui.

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