Com os piores cumprimentos*

por Etgar keret
31 de março de 2015


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Adaptação da arte de Sarah Lazarovic.

 

Quando eu era criança, sempre pensei que a Semana do Livro Hebraico fosse um feriado legítimo, algo que se encaixava confortavelmente entre o Dia da Independência, a Páscoa e a Hanucá. Nessa ocasião, não nos sentávamos em volta de fogueiras, não girávamos piões nem batíamos na cabeça um do outro com martelos de plástico, e, ao contrário dos outros feriados, não se comemorava uma vitória histórica ou derrota heroica, o que me fazia gostar ainda mais dele.

No início de cada mês de junho, minha irmã, meu irmão e eu íamos a pé com nossos pais à praça central em Ramat Gan, onde eram armadas dezenas de mesas cobertas de livros. Cada um de nós escolhia cinco. Às vezes o autor de um desses livros estaria à mesa e escreveria uma dedicatória. Minha irmã gostava muito disso. Pessoalmente, eu achava meio irritante. Mesmo que alguém escreva um livro, isso não dá a ele o direito de rabiscar meu exemplar – especialmente se sua letra é feia, como a de um farmacêutico, e ele insiste em usar palavras difíceis que você precisa procurar no dicionário só para descobrir que o que ele queria dizer era “divirta-se”.

Sete-anos-bonsAnos se passaram e, embora não seja mais criança, ainda fico igualmente animado durante a Semana do Livro. Mas agora a experiência é um pouco diferente e muito mais estressante. Antes de começar a publicar livros, eu escrevia dedicatória apenas naqueles que comprava para dar de presente a quem conhecia. E então, um dia, de repente me vi autografando livros para pessoas que os compravam para si mesmas, gente que nunca vira na vida. O que você pode escrever no livro de um completo estranho que pode ser qualquer coisa, desde um assassino em série a um Gentio Virtuoso? “Com amizade” beira a falsidade; “Com admiração” não convence; “Tudo de bom” soa amigável demais e “Espero que goste do meu livro!” é metido a sebo do E maiúsculo ao ponto de exclamação final. Assim, exatamente 18 anos atrás, na última noite de minha primeira Semana do Livro, criei meu próprio gênero: dedicatórias fictícias. Se os próprios livros são pura ficção, por que as dedicatórias precisam ser verdadeiras?

“A Danny, que salvou minha vida no Litani. Se você não tivesse amarrado aquele torniquete, nem eu nem o livro existiríamos.”

“A Mickey. Sua mãe ligou. Desliguei na cara dela. Não se atreva a dar as caras por aqui outra vez.”

“A Sinai. Chegarei em casa tarde esta noite, mas deixei um pouco de cholent na geladeira.”

“A Feige. Onde estão as dez pratas que te emprestei? Você disse dois dias e já faz um mês. Ainda estou esperando.”

“A Tziki. Admito que agi como um bosta. Mas, se sua irmã pôde me perdoar, você também pode.”

“A Avram. Pouco me importa o que mostram os exames de laboratório. Para mim, você sempre será meu pai.”

“Bosmat, apesar de agora você estar com outro homem, nós dois sabemos que no fim você voltará para mim.”

Pensando bem agora, e depois do tabefe que levei na cara deste último, suponho que eu não deveria ter escrito o que escrevi para aquele cara alto com cabelo à escovinha de fuzileiro naval que comprava um livro para a namorada, embora ainda ache que ele poderia ter feito uma observação civilizada em vez de partir para a violência física.

De qualquer modo, aprendi minha lição, mesmo dolorosamente, e, desde então, em toda Semana do Livro, por mais que minha mão se coce para escrever nos livros comprados por algum Dudi ou Shlomi que da próxima vez que ele vir alguma coisa minha no jornal será a carta de um advogado, respiro fundo e escrevo “Tudo de bom”. Pode ser tedioso, mas é muito mais fácil diante das circunstâncias.

Assim, se aquele cara alto e Bosmat estiverem lendo isto, quero que saibam que estou verdadeiramente arrependido e gostaria de pedir minhas desculpas atrasadas. E se por acaso você estiver lendo isto, Feige, ainda estou esperando pelas dez pratas.

*O texto faz parte de Sete anos bons, que a Rocco lança em abril.

Etgar Keret nasceu em 1967, em Israel. Autor, cineasta e quadrinista, lançou na Flip 2014 seu primeiro livro no Brasil: a coletânea de contos De repente, uma batida na porta.

 

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Comentários sobre "Com os piores cumprimentos*"

  1. Olá, estou concluindo um projeto de livro de romance, o título é “Antes que termine a a noite”. Eu gostaria que a Rocco publicasse o meu projeto, sou fã de algumas séries de livros lançadas por vocês. Gostaria de saber como faço para enviar meu original para vocês!
    Desde já agradeço a atenção.

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